30 Dias de Noite
Fotos: Divulgação/Sony Pictures

O negócio está ficando grave e, para quem não tem mais paciência, só resta um conselho difícil: se você está saturado da febre envolvendo adaptações de histórias em quadrinhos (HQs), não agüenta mais ver tudo que você leu na infância virar atração da tela grande, não sabe mais o q fazer pra fugir de super-heróis e congêneres, relaxe. Por que nada parece diminuir o interesse de estúdios e público pelo assunto e, durante um bom tempo, ainda teremos uma média de um lançamento por mês do subgênero.
Se há algum consolo (ou não) nessa situação é que a febre é tão grande, que ultrapassou o limite das adaptações clássicas e agora qualquer ‘graphic novel’ (nome pomposo dado às histórias mais adultas, com grafismo mais elaborado e tramas geralmente fechadas) com um mínimo de qualidade e culto é transposta para a linguagem cinematográfica. Falando com conhecimento de causa: eu sou um dos saturados, e é muito bom finalmente assistir a um produto diferenciado de fato, como esse 30 Dias de Noite.
Aqui pegam um estilo extremamente em voga dentro das HQs atuais e que ainda não vinha sendo muito explorado, o filão do terror. Espera-se que esse filme traga outras produções tão caprichadas quanto essa, na verdade, uma grande cartada dos filmes de terror até se não considerarmos que é uma adaptação de quadrinhos. E o cuidado por trás das câmeras que o produtor Sam Raimi procurou e achou deve-se muito à estrela ascendente que escolheu para sentar na cadeira de diretor, David Slade.

Esse nome não queria dizer muita coisa a ninguém no mundo todo antes do início do ano passado, até a estréia de um certo meninamá.com, filme que o tirou do anonimato com muito estilo, talento e uma assinatura firme (além dele, Ellen Page também protagonizou o filme e agora parece que irá protagonizar a próxima festa do Oscar, por conta dos elogios que sua atuação em Juno vem recebendo). E Raimi acertou ao apostar nele, sangue novo num gênero dominado pela mesmice, que acaba imprimindo um tom fatalista à obra diferente do que Hollywood costuma mostrar em filmes de terror.
A trama é interessantíssima por si só: uma cidade no Alaska passa por um período de 30 dias, uma vez por ano, em que o inverno é tão rigoroso que o sol não aparece durante o mês. Escuridão total deflagrada, parece que as criaturas da noite tomam conhecimento da situação e resolvem atacar o restante da população que não fugiu durante esse fenômeno (e um diálogo maravilhoso onde um dos vampiros diz “Como ainda não tínhamos tido a idéia de vir para cá?” dá o tom da obra e de quebra ainda brinca com o próprio filme). No meio disso, o casal de autoridades policiais da cidade está separando-se depois de anos de casado, mas é obrigado a ficar junto pelo menos uma última vez, tentando conter a ‘vampirada’ e se reaproximando em meio ao caos.
Em meio ao elenco quase todo novato/inexperiente, ao menos uma surpresa: Josh Hartnett, como o xerife herói, tem o que se poderia chamar de primeira interpretação decente de sua carreira, passando uma tristeza durante todo o tempo, bem convincente. Mas o espetáculo é mais uma vez dominado por Ben Foster, que vem se tornando o ‘junkie’ preferido do cinema, e ele é ajudado por Danny Huston, que, como o líder dos vampiros, que falam uma estranha língua, talvez ganhe o título de vilão do ano, uma interpretação literalmente visceral. E lembrando: pra quem curte altas doses de carnificina pura e desenfreada, vai se achar no filme. 30 Dias de Noite é muito explícito nesse sentido, e, ainda assim, consegue ser original, com cenas inéditas até para os mais habituados, todas encharcadas com litros de sangue.
O fim do filme, obviamente, dá espaço para uma continuação, mais até isso é utilizado de forma discreta e a dica é para os amantes do gênero correrem aos cinemas, pois, no nível desse, nenhum filme de terror da temporada esteve. E pode ser bem possível que demoremos para ver outro momento tão inspirado no gênero.
Cotação para este filme:
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