ACROSS THE UNIVERSE
Fotos: Divulgação

Julie Taymor não é diretora. Ponto. Mas ela é uma artista cheia de sensibilidade, isso também é um fato. Dito isso, posso começar a escrever sobre o que acabei de ver. Julie começou no meio artístico dirigindo montagens celebradas na Broadway, talvez O Rei Leão tenha sido a maior de todas. A partir daquele espetáculo, ela foi convidada a adaptar uma versão para o cinema de Titus, uma peça ligeiramente obscura de Shakespeare. Na tela grande, reuniu os astros Anthony Hopkins e Jessica Lange a um elenco britânico talentoso e criou um espetáculo híbrido, onde o visual falava mais alto que o texto do bardo inglês. Absolutamente todos estranharam e o filme acabou naufragando (apesar de conseguir uma indicação ao Oscar de figurino) e pouca gente viu ao redor do mundo. Aqui, no Brasil, mesmo o filme só chegou direto em vídeo ano passado, mesmo datado de 2000.
Dois anos depois, Taymor tentaria de novo e aceitou dirigir um projeto que rolava há décadas em Hollywood e que a bela Salma Hayek tinha acabado de entrar como produtora e protagonista, a biografia da grande pintora mexicana Frida Kahlo. Frida foi o sucesso que Titus não foi, o filme teve seis indicações ao Oscar, consagrou Salma como uma boa atriz (uma das indicações do filme foi pra ela) e levou dois, trilha sonora e maquiagem. Ficou provado com o filme que sua ‘carreira’ como diretora teria um aspecto visual como ponto crucial. Talvez, a partir daí, seu nome tenha ficado ligado a projetos com forte carga simbólica, fotografia rebuscada e ambientação diferenciada. Só que Taymor quis mostrar que também tinha projetos próprios, mesmo que a inspiração deles tenham vindo de outras pessoas. E assim parece ter nascido Across the Universe, obra-exaltação à banda-exaltação, simplesmente The Beatles.
Observando a estrutura do longa, fica claro o quanto Moulin Rouge deve ter influenciado a ‘diretora’ (e viva Baz Luhrmann, esse sim um gênio). Como já dito, a estrutura é idêntica à do filme estrelado por Nicole Kidman e Ewan McGregor: as músicas dos Beatles pontuam a história e costuram a ação, funcionando como diálogos às vezes, quase sempre de maneira poética. A trama é um fiapo: Jude (Jim Sturgees) é inglês; Lucy (Evan Rachel Wood) é americana. Quando Jude resolve viajar aos EUA para encontrar o pai que nunca conheceu, seu destino acaba esbarrando no de Lucy. Ele e o irmão dela se tornam grandes amigos e ela acaba seguindo-os quando ambos mudam-se para Nova York no fim dos anos 60, época em que a contracultura explodia no mundo, a Guerra do Vietnã era combatida pelos jovens politizados e o amor livre era uma forma de vida. É nesse cenário que o amor dos jovens irá nascer, logo no momento em que o irmão de Lucy for convocado à guerra.

Por conta disso ouvimos praticamente tudo de relevante na carreira do quarteto de Liverpool, maravilhados com versões fabulosas entoadas pelo ótimo elenco de cantores ou por medalhões como Bono Vox e Joe Cocker (preparem-se quando o vozeirão de Cocker surgir na tela; é de arrepiar). Mas, como eu disse lá no início, Taymor não é uma diretora, mas sim uma artista. E ela continua errando, como em seus longas anteriores. Pelo menos ela erra menos aqui, mas sua visão é de fã, sem dúvida... e isso é prejudicial na proposta que ela faz, de traçar também a carreira do grupo de forma cronológica. A fase inicial, por exemplo, dos ‘rockinhos’ ingênuos e deliciosos como Can’t Buy me Love, são mostrados como uma flecha; ela obviamente prefere (como todos) a fase mais pesada e posteriormente lírica do grupo, mas ignorar é grave. Outro ponto grave é a forma com que algumas cenas parecem esquetes perdidos dentro do longa, com o sentido único de tocar uma música que a ‘diretora’ gostava (por que um personagem desnecessário chamado Prudence?). A montagem, por vezes excepcional, acaba prejudicada por conta das escolhas equivocadas de Taymor. Quando ela erra, acaba quase destruindo o filme; quando acerta, no entanto, nos entrega cenas belíssimas, realmente tocantes.
De qualquer forma, não farei como vocês o que fiz a mim mesmo quando da ocasião de Moulin Rouge, que comprei o CD antes e quando assisti ao filme já sabia cada canção tocada. Isso não estragou em nada o prazer, mas senti que, não tendo feito isso dessa vez (não procurei saber nada do que tocaria), meu deleite foi diferente, fui surpreendido. Mas é óbvio que tendo os protagonistas nomes tão óbvios, vocês que ao menos duas das mais belas canções deles estão lá (ok, entregando: preparem o lenço no momento Hey Jude).
No fim das contas, mesmo quando erra, Julie Taymor parece uma pessoa comum, como eu ou você. Ela apenas idolatra os Beatles, como eu ou você, e não temos o direito de julgá-la por ser uma fã, muito menos por enfileirar versões maravilhosas de clássicos da nossa vida toda. Mas um pouco de bom senso faria ainda melhor ao seu filme, mesmo que o coração nesse exato momento faça com que meus olhos encham d’água ao lembrar do bombom delicioso com que ela nos presenteou.
Cotação para este filme:
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