NO VALE DAS SOMBRAS
Fotos: Divulgação

Paul Haggis é um sujeito de sorte. Começou sua carreira cinematográfica apadrinhado por ninguém menos que Clint Eastwood, no multipremiado Menina de Ouro (onde sobrou indicação ao Oscar para ele). Dois anos depois, ele voltaria a ser indicado ao Oscar por outro filme do seu padrinho, Cartas de Iwo Jima, além de ressucitar James Bond cheio de dignidade em 007 – Cassino Royale. Entre isso tudo, sua vida deu uma guinada inacreditável quando se tornou o grande vencedor do Oscar 2005 com Crash, derrotando o mais que favorito BrokeBack Mountain. O que deveria ser motivo de sua glória máxima tornou-se, a cada dia que passava distante da festa da premiação, um equívoco tão absoluto que a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas parece constranger-se cada vez mais daquele resultado. Seu nome, antes visto como uma estrela ascendente e brilhante, passou a ser associado a adjetivos pouco elogiosos como ‘enganação’ e ‘farsante’, além de ter sido acusado de ter ingressado na carreira de diretor totalmente despreparado. E o pior de tudo: cada uma dessas acusações soa totalmente verdadeira a cada vez que se revê Crash, um dos maiores engodos que Hollywood atreveu-se a incensar. Agora chegamos a No Vale das Sombras e – pasmem! – Haggis surpreende a indústria mais uma vez com um filme maduro, sóbrio e importante, tudo o que seu laureadíssimo filme não era.
Confesso que fui assisti-lo com restrições absurdas (fui um dos mais ardorosos detratores de seu trabalho) e, até por isso, sinto-me na posição vantajosa de elogiá-lo tão abrangentemente. Primeiro, porque No Vale das Sombras é talvez o drama mais discreto do ano, um compêndio de situações tratadas com a maior discrição possível, sem estardalhaço, sem ‘drama mexicano’ embutido. O filme é tão triste e impactante talvez por ser tão seco e na medida, nunca melodramático. E a trama tem tudo que poderia tornar essas características indispensáveis. Um jovem soldado volta do Iraque e liga para seus pais, desesperado para voltar para casa. Logo após isso, ele desaparece e é dado como desertor pelo exército americano. Seu pai, também um veterano de guerra, sai em busca de ajuda para encontrá-lo, na base do exército onde ele deveria estar e na polícia local, que não parece disposta a cooperar. Até uma ossada suspeita ser achada e uma policial discriminada pelos colegas resolver investigar ao seu lado.

Haggis escreveu um roteiro sóbrio e honesto e cobrou isso também do elenco. Acabou conseguindo interpretações valiosas de seu trio de protagonistas. A mãe vivida por Susan Sarandon é quem transmite as emoções mais claras do longa e até nela há economia; por isso talvez seja ainda mais emocionante e pungente. Charlize Theron é a policial cansada da perseguição na própria corporação, que passa o empenho exato que decide ter para poder provar seu valor como profissional, ao mesmo tempo em que acaba colocando seus próprios valores como mãe à prova diante do amor tão intenso do pai vivido por Tommy Lee Jones, o grande nome do filme. Nos acostumamos a ver Jones explosivo e irrascível em cena, com seu rosto de pedra ligado a homens durões e implacáveis. Ele continua durão, isso é verdade, mas dessa vez o que vemos em seu rosto é uma desesperança e um despreparo muito grande, alguém que sabe que algo está errado, mas não teme em descobrir a verdade, seja ela qual for. As sequências onde temos conhecimento da religiosidade de Jones também falam muito de seu personagem e interpretação, com certeza na lista de melhores atuações da temporada.
O único pecado que Haggis cometeu foi de atribuir cenas completamente dispensáveis à personagem de Theron, onde ela precisa ser ‘heroína de ação’ em alguns momentos, e vítima de clichês femininos na delegacia onde trabalha. Não fosse por isso, estaríamos diante de um dos longas mais fortes dos últimos tempos. Ainda assim, somos brindados com cenas fenomenais, como o encontro de Sarandon e Jones em um hospital e a desconcertante descoberta final de Jones. Aliás, fique atento ao filme do início ao fim, e tenha ao final uma aula de como dar uma rasteira na platéia e tornar um ótimo filme num filmaço. Obra de Paul Haggis, um homem que, pelo visto, ainda vai nos surpreender muito.
Cotação para este filme:
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