A Lenda de Beowulf
Fotos: Divulgação/Warner

Talvez nem os anjos do céu venham saber o quanto de má vontade eu precisei vencer para sair de casa no dia marcado para a exibição desse filme. Desde que o projeto foi anunciado, clamei aos quatro ventos que jamais veria tal coisa. O projeto anterior do outrora ansiosamente aguardado por mim, Robert Zemeckis, já tinha sido concebido na medonha ‘técnica da captura de movimentos’, na verdade, uma digitalização das filmagens com atores reais. Ou seja: filmamos a ação de forma real, com os atores em cena vestindo roupas ajustadas a fios que captam seus movimentos e os transmite a um computador. Isso faz com que seja criado um efeito que deveria ser criativo e revolucionário, mas que, na maioria das vezes, é apenas feio. A tal ‘captação de movimentos’ transforma os atores em heróis de videogame e a ação não fica nada a dever aos melhores títulos de um mero PlayStation (sem a graça e interatividade que um game tem). E se O Expresso Polar, fantasia natalina erroneamente feita dessa forma, já tinha sido uma experiência detestável pra mim (embora os rios de dinheiro arrecadados tenham dito o contrário do resto do mundo), por que haveria eu de me embrenhar mais uma vez nessa idéia mal ajambrada? A resposta: efeitos e óculos 3D.

Quando eu soube que as versões nacionais seriam exibidas em alguns poucos cinemas com a técnica empregada no original, empolguei-me tal qual uma criança. A lembrança do meu único filme em 3D na vida vinha da infância e eu tinha que repetir o feito que A Morte de Freddy tinha-me proporcionado. Pois lá fui eu na esperança de achar algo louvável além dos efeitos especiais. Afinal, Robert Zemeckis é ídolo de várias gerações com a trilogia De Volta para o Futuro e Uma Cilada para Roger Rabbit. Logo viria a consagração com os seis Oscars de Forrest Gump, afinal a crítica e o público já o adoravam desde os anos 80. O amadurecimento parece ter vindo com o sóbrio Contato, ficção científica com uma inspirada Jodie Foster pesquisando os limites do cosmos. Aí chegou seu ano sabático, em que ele resolveu lançar dois filmes, Revelação e Náufrago. Ambos estrondosos sucessos, ambos merecidamente ‘não tão bem criticados’. E talvez numa tentativa de revolucionar a própria carreira, ele concebeu O Expresso Polar. E agora, esse Beowulf.
Deixando claro que o novo é algo melhor que o primeiro, mas ainda assim a sensação de pastel de vento é enorme. De qualquer maneira, o filme é baseado no mais antigo poema nórdico, talvez escrito por volta de 500 d.C. e já na décima tentativa de levá-lo às telas. O lorde das ‘graphic novels’ Neil Gaiman se juntou ao roteirista Roger Avary (Oscar por Pulp Fiction) e criaram algo que deve ser divertido, dada a quantidade de risadas que eram dadas durante a projeção. A trama é a seguinte: na Dinamarca, pouco depois de Cristo, um rei e seus súditos são aterrorizados há tempos por uma estranha criatura. Eles precisam, acima de tudo, de um herói pra salvar seus destinos de virar comida de monstro. Das águas do oceano surge Beowulf, um grande guerreiro que vive das lendas que criam a seu respeito (e vamos combinar que ele as alimenta sempre). Ao chegar e encontrar esse quadro, Beowulf prepara-se para destruir a criatura. E isso, de fato acontece (numa das poucas seqüências movimentadas do filme), restando ao futuro rei daquele povo uma culpa muito grande em relação ao seu passado.

O caldo só não entorna de vez porque o início do filme tem um ‘quê’ de subversivo inacreditável, com palavrões de todo tipo, situações extremamente machistas e uma visão completamente estereotipada das sociedades antigas que nunca agridem, e sim divertem. O tom leve do princípio, no entanto, desaparece na segunda fase e o filme adquire um tom mais sério que evidencia seus defeitos de maneira gritante, e faz chafurdar um aspecto essencial de qualquer filme em minha opinião: o elenco. John Malkovich e Robin Wright Penn (e sua cara de princesinha virgem) estão apagados, enquanto os únicos sopros de vida vêm de Anthony Hopkins e Brendan Gleeson. Mas é em Ray Winstone que tudo é pavoroso. Na transformação do ator gordinho em um homem completamente desejável (e o filme abusa de seus dotes físicos) e no desaparecimento de qualquer traço de talento em sua voz, é justamente o grande herói do filme seu ponto fraquíssimo. E ainda tem o 3D, ele sim o responsável pelos poucos momentos de brilho do filme.
Agora é esperar que Zemeckis largue essa vida de ‘animador’ e volte a ser o ótimo diretor que já vimos em ação.
Cotação para este filme:
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