O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford
Fotos: Divulgação/Warner

Já faz mais de um mês que eu tive contato com esse filme, indo conferir a performance de Brad Pitt somente, tão elogiada e premiada no Festival de Veneza. À primeira vista, o filme não me chamava atenção alguma. Eu era indiferente à trama (os últimos dias do fora-da-lei Jesse James), tinha implicância com o elenco (e desde quando Casey Affleck é sinônimo de qualidade?) e o gênero nunca esteve como um dos meus favoritos (embora considere Os Imperdoáveis um dos melhores filmes da década passada). Além disso tudo, estava achando muito exagerada a comoção com a volta do faroeste, que na verdade não passa de marketing vagabundo, já que apenas esse e Os Indomáveis (ainda inédito por aqui e com Russell Crowe no elenco) são faroestes de verdade (There will be Blood é um épico sobre a formação da ganância do povo americano e Onde os Fracos não têm Vez é um ‘thriller’ criminal dos irmãos Coen). Dito isso, resolvi embarcar com o coração mais aberto possível ao que eu lia ser um ‘filme intimista, de longa duração e com ritmo lento como a brisa que sopra no prado’. Ao fim de 2 horas e 40 minutos de projeção, meu queixo está perdido em algum lugar da sala de exibição. Afinal, eu tinha ou não acabado de ver o melhor filme do ano, quer dizer, dos últimos anos?
Quando lemos o nome de Andrew Dominik na ficha técnica, é difícil de acreditar que algo tão substancioso tenha vindo de um cineasta com apenas um mero filme no currículo, anteriormente. O filme em questão se chama Chopper e revelou ao mundo Eric Bana, numa narrativa implacável cheia de explosões de violência. Talvez somente o talento nato justifique como ele chegou até aqui, numa atmosfera quase onírica que impregna seu novo filme. Com a ajuda preciosa de uma das mais espetaculares equipes técnicas do ano, o diretor consegue equiparar-se a um totem cinematográfico da envergadura de Terrence Malick, um dos melhores e mais reclusos cineastas contemporâneos, que elevou o cinema à mais pura poesia em imagens em obras como Além da Linha Vermelha e Dias do Paraíso. Pois Dominik equilibra a sensibilidade visual de Malick a um roteiro arrojado e cheio de camadas, na verdade uma alegoria para o mundo do culto às celebridades em que vivemos hoje.
Jesse James, na verdade, talvez tenha sido o primeiro pop-star da história, na verdade, um bandido refugiado endeusado por tablóides sensacionalistas e tratado como um semideus pela população. Ex-soldado que ficou sem rumo como tantos outros após a Guerra da Secessão, James acabou vivendo à margem da sociedade, roubando bancos e locomotivas. Percebemos, no entanto, que ele já criou uma nova realidade: a de espelho da própria mitificação. Cada vez mais imerso na futilidade que é ser um astro, James toma para si a própria fama e passa a viver um reflexo do que os jornais atestam que ele é. E dá-lhe violência despropositada, truculência desmedida e gestos cada vez mais gratuitos, na ânsia de corresponder o mais rápido possível à imagem que criaram dele (não tendo como educadamente ‘convidar paparazzis para o seguir por onde ele fosse’, ele chafurdava na própria fama).

Isso tudo até aparecer Robert Ford, o jovem irmão de um dos braços direitos de James. Prestativo e comunicativo, Ford tenta chamar a atenção sempre para si, mas não consegue ser mais que um chato pretensioso, um fã ardoroso de Jesse James e um observador contumaz. Quando a máscara de herói ilibado começa a cair em frente a Jesse, Ford não agüenta a pressão de idolatrar um ser humano com defeitos e qualidades e começa a se preparar para o título do filme.
Sendo bem direto, duvido algum dedo apontar numa direção definitiva sobre qual dos três é o melhor do elenco do filme, se Brad Pitt, Sam Rockwell ou Casey Affleck. Enquanto Pitt entrega-nos uma maturidade imensa na pele de um atormentado anti-herói, com arroubos de destemperança aqui e ali, Rockwell continua sua caminhada rumo a se tornar o ‘melhor ator que ninguém sabe quem é’ de todos os tempos, também em estado de graça como o irmão de Robert Ford. Mas é Affleck quem desponta para o estrelato com sua interpretação. Um homem vacilante, sempre no meio do caminho de suas ações, um semblante vivo no início que vai dando lugar a uma melancolia diante do inevitável confronto com seu ídolo de pano, uma alegria incontida dando lugar a uma decepção tão clara que só mesmo um disparo poderia salvá-lo (e, talvez na sua cabeça doente, mitificar Jesse pra sempre). O resto do elenco tem pouca participação, mas todos estão no limiar da perfeição (Sam Shepard, Jeremy Renner, Paul Schneider, Mary-Louise Parker, Zooey Deschanel). E, como disse no início, o primor técnico é simplesmente emocionante (Nick Cave compôs os temas mais tristes do faroeste; Patrícia Norris tem trabalho genial em figurino e direção de arte; a montagem de Dylan Tichenor e Curtiss Clayton é simplesmente primorosa), mas é a fotografia de Roger Deakins o ponto máximo das categorias técnicas do filme. Luzes moldadas por mãos divinas, um posicionamento de câmera invejável e o festival de cores pálidas dão-nos o que há de melhor em fotografia desde que Robert Richardson concebeu O Aviador. Eu desafio algum cinéfilo conseguir esquecer da formidável cena do assalto ao trem, um verdadeiro ‘portfólio’ sobre tudo o que se deve fazer para construir algo sublime.
Mas, se o roteiro não estivesse a altura, tudo iria por água abaixo. Mas Dominik parece não conhecer limites ao talento, e prova ser um excelente diretor e também roteirista, com diálogos estupendos e cenas impressionantes, cada pequena parte contribuindo para o magnífico quadro geral.
Quanto a responder a minha própria pergunta inicial, vou tirar um mês para pensar bem nisso. O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford é um marco, sem sombra de dúvida. Mas em seu encalço temos Maria Antonieta, o filme mais emblemático do ano. A briga vai ser boa, mas algo já pode ser dito: Jesse James tem a seu favor uma humanidade de sentimentos só comparável no gênero justamente a Os Imperdoáveis, o já citado clássico de Clint Eastwood. E estar na companhia de Malick e Eastwood é algo desejado por dez entre dez novatos; Andrew Dominik está lá.

Mais sobre este filme na página sobre o Festival do Rio 2007
Daniele Costa
Francisco Carbone
Cotação para este filme:
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