O BÚFALO DA NOITE
Foto: Divulgação

Guillermo Arriaga sempre foi prestimoso colaborador de uma das maiores revelações da década, o diretor Alejandro Gonzáles Iñarritu. Roteirizou seus filmes e mantinha com o diretor uma dupla que pareceria que se tornaria marcante no novo século no cinema. Mas, quando Babel foi bizarramente alvo de uma saraivada de críticas desabonadoras, criticando o último filme da trilogia que também incluíam os neoclássicos Amores Brutos e 21 Gramas, algo na parceria e também na amizade desandou. Ou seja, o próximo filme de Iñarritu não será escrito por Arriaga (e confesso que muito anseio pra conferir a nova rota do diretor mexicano a partir disso).
E por que esse falatório todo? A questão acima se justifica no fato de que O Búfalo da Noite é baseado num livro de Arriaga e roteirizado também pelo próprio. A direção foi entregue ao praticamente novato Jorge Hernandez Aldana, que montou um jogo de personagens rico e interessante a partir de um livro que deve ser, no mínimo, excepcional. Pena que todas as aparentes qualidades no que diz respeito ao cuidado para com os personagens parecem ter ficado no livro somente. Esse talvez seja o único defeito do filme, pena que talvez seja uma das coisas mais graves que podem acontecer a um filme. E que pega pelo pescoço justamente a área que Arriaga cobre, o roteiro. A pergunta que não quer calar: por que quando seu talento parecia que iria estar tão ofuscante, ele resolveu ‘tirar férias’? Por que ele conseguiu entregar seu roteiro com a maior quantidade de problemas, quando adaptava o próprio livro?

Vamos à trama: Manuel e Gregório são amigos desde a escola, com uma adolescência passada lado a lado e tudo a que ela tem direito, inclusive pactos de amizade eterna. Ao conhecer Tânia, também no colégio, Gregório começa com ela um romance testemunhado por Manuel, que em breve terá Tânia em sua cama, criando um triângulo que será secreto por pouco tempo. Em breve, Gregório tentará suicídio e será internado num manicômio pelos pais. Ao sair, o casal Manuel e Tânia já será mais que consumado, e não demorará para o rapaz completar o que tentou da outra vez. Ao morrer, o legado de Gregório ao casal será o tormento de ter ou não causado sua morte, o que os fará enlouquecer tanto quanto a ele. Dito assim, tudo parece maravilhoso, não? E até é, quando depende exclusivamente dos talentos de Diego Luna, Liz Gallardo e Emilio Echevarría, ou da fotografia de Hector Ortega.
Felizmente, filmes precisam de roteiros, mas o de O Búfalo da Noite perde-se diversas vezes, tornando o filme inviável por vários momentos. Alguma cenas em particular parecem perdidas na produção, sem nenhuma razão de existir ou mesmo conexão com o todo. O cuidado é óbvio, mas todo o problema estava na gênese, que é o roteiro. Aldana faz o que pode e mostra segurança num projeto que poderia lançar seu nome de maneira forte no mercado, mas acaba se mostrando equivocado.
Mas o problema ainda mais grave de O Búfalo da Noite talvez atenda pelo nome de O Passado, já que o filme guarda muitas semelhanças de conceito, textura, intenções e motivações com o longa de Hector Babenco, que está na crista da onda. E Babenco deveria soltar foguetes, porque Búfalo melhora ainda mais o que já era magnífico no longa dele. Sobra em O Passado tudo o que falta em Búfalo da Noite: coerência, personagens bem delineados e elipses excelentes, outra coisa que o longa de Aldana tenta fazer, mas não consegue muito bem seus intentos.
De qualquer maneira, a impressão que fica não é a pior possível, mas a de um filme que poderia ser muito maior do que conseguiu ser, e que o elenco fez sua parte de maneira exemplar. Já Guillermo Arriaga, precisa urgente de reciclagem. Antes que Iñarritu comece a rir de sua cara.
Cotação para este filme:
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