JOGO DE CENA
Foto: Divulgação/Donwtown

Sem medo de errar, faço aqui uma afirmação: se há algum nome para chamar de ‘melhor diretor do cinema nacional’, podemos dizer que atenderia por Eduardo Coutinho. De longe, o mais prolífico profissional do ramo em atividade no Brasil. O diretor consegue a proeza de realizar não apenas um filme melhor que o outro, mas produções relevantes, de alto teor contestador e cheio de vitalidade. Suas últimas obras atiraram em várias direções e o alvo foi acertado em todas as ocasiões. Do retrato sobre o tempo e sua mola inexorável em O Fim e o Princípio à jogada em cima de um reveillon revelador numa favela carioca em Babilônia 2000, aos meandros da religiosidade no nosso país em Santo Forte e um dos filmes mais aplaudidos da década no nosso cinema, Edifício Máster. E olha que nem falei do clássico dos nossos documentários, Cabra Marcado para Morrer. O mais curioso de tudo isso é que sua condição de documentarista em nenhum momento tira sua popularidade num país que sabidamente não valoriza a contento seu próprio cinema de ficção, então imaginem o que acontece aos seus documentários.

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Finalmente, chegamos então à sua nova produção, Jogo de Cena, talvez o mais perto de uma produção ficcional que Coutinho chegará um dia, para poder dizer com propriedade que ele fez talvez seu melhor trabalho, com certeza o que mais discussões irá gerar e onde seu brilhantismo fala mais alto. Um verdadeiro tributo ao feminino, gênero encarado como frágil por muitos e que aqui demonstra poder absoluto; e também um tributo à arte como há muito não se via no país. Não esquecendo que o filme joga luz também sobre discussões valorosas sobre a importância da verdade ou a versão do que a seria de verdade.
Sua proposta é aparentemente simples: Coutinho colocou um anúncio no jornal convocando mulheres de quaisquer idades, raças e classe social a contarem suas histórias de vida. Feito isso, histórias filmadas no palco de um teatro diante de uma platéia vazia, Coutinho convocou 4 atrizes para complementar seu ‘jogo’: Marília Pêra, Fernanda Torres, Andréa Beltrão e Mary Sheila. A partir disso e dos depoimentos também gravados por elas, começam os questionamentos: o que vemos de verdade na tela? Quanto têm de sincero e o que é inventado em cada uma das histórias? Teria algo de real nas ‘verdades’ de cada uma das atrizes? Onde começa o real e onde termina o inventado no que vemos? E isso são só as perguntas mais óbvias. Logo vêm a mente questões mais internalizadas: o que vale mais, a verdade ou a versão da verdade de cada um? Como podemos mover a verdade no nosso dia a dia? A verdade varia de acordo com cada pessoa?
Se fosse só por isso, o filme já seria considerado um dos melhores do ano facilmente. Mas o filme ainda tem atrativos de bônus. Primeiro, a combinação de depoimentos ricos e que prendem a atenção a cada linha de raciocínio, mulheres cheias de personalidade e humanidade e toda a riqueza de possibilidades que esses relatos serviram ao filme. Além disso, ainda temos o brilho de quatro atrizes na ponta de lança de seus ofícios, sem conseguir deixar de destacar nenhuma delas. Mas há de se louvar o aparente ‘branco’ com o qual Fernanda Torres deixa-se levar em dado momento; a emoção genuína que Andréa Beltrão passa em outro momento; a aula de técnica empregada por Marília Pêra e o espetáculo perpetrado pro Mary Sheila. E mais não se pode falar para não estragar o prazer de um filme delicioso, inesquecível, forte e importante, que parte de um universo feminino para gerar interesse em todos nós, um debate mais que bem-vindo sobre como nossa arte não tem barreiras, e como nosso material humano consegue ser ainda maior.
Cotação para este filme:
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