PLANETA TERROR
Foto: Divulgação/Europa Filmes

Robert Rodriguez é um excelente diretor. Sim, quanto a isso quase não há mais dúvidas. Mas ainda não consigo ter por ele a admiração que tenho pelo seu ‘chapa’ Quentin Tarantino, por exemplo, sabe-se lá o porquê. Sua carreira é ascendente, sem sombra de dúvida, ainda mais se contarmos que ele começou naquele episódio lendário do filme produzido com 70 mil dólares (um dos mais baratos da história), chamado El Mariachi. O filme tornou-se um fenômeno no mundo todo e logo Hollywood chamava-o para uma espécie de refilmagem americana, A Balada do Pistoleiro, com Antonio Banderas e Salma Hayek no lugar dos desconhecidos do anterior (e mais o início de sua parceria com seu ator-fetiche, o incrível ‘chicano’ Danny Trejo). E aí ele conheceu Tarantino, que já tinha Cães de Aluguel e Pulp Fiction no currículo quando se associou a ele numa bizarrice sem tamanho, Um Drink no Inferno, um filme de assalto que catapultou George Clooney para fora do seriado Plantão Médico. Quer dizer, um filme de assalto até a metade, quando o elenco do filme invade um bar e se depara com um grupo de vampiros, tornando a ‘coisa’ toda numa grande prévia do que viria a ser o projeto GrindHouse.

Antes disso, Rodriguez flertou com a ficção adolescente em Prova Final (ou melhor, também maturando idéias para seu novo filme), encerrou a trilogia do herói mexicano com Era uma Vez no Oeste (com um brilhante Johnny Depp de quebra), iniciou uma trilogia para seus filhos com Pequenos Espiões e filmou um roteiro dos próprios rebentos (!!!!) em SharkBoy e LavaGirl. Comecei a olhá-lo de maneira diferente há dois anos, quando ele nos mostrou o que seria capaz de verdade ao realizar um sonho pessoal e levou à tela grande a adaptação da HQ Sin City, um dos projetos mais fascinantes a dar as caras na tela grande em 2005. A perfeição empregada pelo projeto em dupla com o criador Frank Miller foi tanta que a continuação está a caminho, e não houve crítico no mundo que não abaixou a cabeça para ele, um misto de quadrinhos e cinema de altíssima qualidade, onde não há espaço para descrições, apenas aplausos.
O projeto GrindHouse foi criado em parceria com Tarantino para homenagear um tipo de cinema produzido e exibido nos anos 70, quando toscas produções de ação/terror e com apelo sexual ilimitado faziam sessões duplas em cinemas populares dos centros das cidades. Geralmente, produções com recursos mínimos, onde muitas vezes faltavam mão-de-obra, mas sobrava diversão, um cinema que povoou a infância dos ‘manos’ Rodriguez e Tarantino que se juntaram para criar uma sessão dupla de filmes feitos nos moldes daquela época, incluindo aí imagem propositadamente suja, cortes absurdos na narrativa e um elenco abusando do exagero. Portanto, não estranhe nada do que você verá na tela, é tudo proposital. E, por isso mesmo, fantástico. Como a produção conjunta teria mais de 3 horas de duração, optou-se, no resto do mundo, por lançamentos em separado dos filmes (À Prova de Morte só chega por aqui no ano que vem). A única coisa que se manteve da versão original aqui é o magnífico trailer de Machete, um dos quatro trailers falsos produzidos para os filmes-conjunto e que ficariam de fora da versão separada. Pois Rodriguez manteve apenas esse.
Já a trama de Planeta Terror é um achado para os fãs: um gás tóxico é liberado acidentalmente pelo governo americano, transformando a população em zumbis. Um improvável grupo irá se formar pra sobreviver ao caos que se formará a seguir: uma dançarina de strip-tease, seu ex-namorado brigão, uma jovem esposa com seu filho, o dono de um bar podreira, um rebelde renegado, ou seja, toda a sorte de degenerados que aos poucos vão sendo abatidos um a um. O elenco é um achado, pois temos de Josh Brolin a Michael Biehn, a loirinha Marley Shelton (ótima) ao cada vez melhor Freddy Rodriguez, passando por um inspirado Bruce Willis. Mas o fato é que ninguém brilha mais que Rose McGowan, que talvez tenha o personagem-ícone do ano: a stripper Cherry Darling, que sofre por estar vivendo num inferno astral e tem sua perna decepada em meio aos ataques. Ao ganhar a metralhadora acoplada em sua perna, Cherry se transforma na heroína mais improvável e radical do ano, saindo em desabalada carreira para um final apoteótico.
Planeta Terror é isso, diversão sem limites e descompromissada do início ao fim, um dos filmes mais divertidos e talvez o mais original da temporada. Rodriguez prova, mais uma vez, ser um excelente diretor. Quem sabe eu não tenho finalmente me rendido a toda sua radicalidade?
Cotação para este filme:
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