O PREÇO DA CORAGEM
Foto: Divulgação/Paramount

Meu apreço pela carreira do diretor Michael Winterbottom vem de longe. O primeiro filme do cara a chegar aqui no Brasil não foi o primeiro, mas vários ao mesmo tempo, num espaço de no máximo dois anos entre eles. O Beijo da Borboleta, Paixão Proibida, Desejo Você e Bem-Vindo a Sarajevo mostraram para mim um diretor multifacetado, com filmografia diversificadíssima, muita coisa pra dizer e muitas formas diferentes de dizê-las. Depois vieram também direto para vídeo (como todos os filmes dele, até então) Herança Perdida e Encontros e Desencontros (sim, ele também tem um filme com esse título no Brasil), infelizmente de qualidade inferior aos anteriores. E só depois disso tudo, ele se tornaria um fenômeno no Brasil e no mundo. Chegava A Festa nunca Termina.
Mesmo previamente premiado por alguns dos filmes que citei, somente A Festa nunca Termina determinaria o sucesso que sua carreira tomaria. O filme tornou-se um sucesso acachapante no Brasil dentro dos Festivais do Rio e São Paulo e depois no circuito isso continuou, ficando meses e meses em cartaz com sessões lotadas. A essa altura, sua carreira já tinha chegado ao ápice, pois, nesse mesmo 2002, ele ganharia o Leão de Ouro em Berlim com sua obra-prima Neste Mundo. Nada nos preparava pra assistir tal prova de talento explícito no filme que narra a fuga de dois jovens afegãos para Londres, a bordo de um navio como clandestinos, algo de uma sensibilidade ímpar.

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Depois, seguiram-se dois filmes também excepcionais, corajosos como tudo que Winterbottom fez até hoje, Código 46 e 9 Canções, um dos filmes mais polêmicos dos últimos tempos, onde um casal transa e vai a shows durante todo o filme, em cenas de sexo explícito. O posterior, Tristram Shandy, nunca chegou por aqui, mas o falatório em torno de suas também ousadas cenas de sexo sim. Winterbottom já era chegado nesse tipo de polêmica desde o início, lá atrás, em O Beijo da Borboleta e Desejo Você, essa sua faceta já tinha aparecido.
No ano passado, ele voltou a Berlim e saiu de lá com novo prêmio, dessa vez pela direção de O Caminho para Guantanamo, importante retrato sobre os desmandos da política americana, num trabalho de primeira mesmo, até hoje ainda provocando dúvidas sobre ser um documentário ou uma ficção. Agora, sua nova produção só não faz o mesmo porque Brad Pitt resolveu produzi-la e sua esposa, Angelina Jolixo, quer dizer Angelina Jolie, resolveu protagonizá-lo, pois deve ter achado a “proposta muito nobre”. Quem acreditou?
O resultado é um típico filme-denúncia de Winterbottom, que deve ter recebido recomendações pra deixar Jolie brilhar e deixou mesmo... ela brilhar seus próprios sapatos, só pode. Winterbottom resolveu adaptar a história real de Daniel e Marianne Pearl, casal de jornalistas que moram no Afeganistão quando Daniel desaparece ao entrevistar uma fonte. Marianne está grávida de seis meses e vê sua vida se transformar numa vigília a espera de notícias junto à polícia local, os chefes de Daniel e a imprensa mundial. Tudo que ela faz é esperar. O filme vai ganhando contornos hollywoodianos ao entrar em cena o agente vivido pelo ator Irfan Khan, disparado o melhor em cena. É aí que começamos a notar que Winterbottom parece ter vendido seus interesses em troca do patraocínio que nunca teve. Agora vê seu filme conquistar reconhecimento e criar falatório para o Oscar. E apesar de todo o telanto que já demonstrou ter, espero que isso aconteça no momento e pelo filme certo, o que não é o caso aqui.
Quanto à atuação de Jolie, é o que já comentei. Simplesmente Winterbottom a enganou dizendo que ela teria uma personagem oscarizável, quando só vemos a personagem participar de reuniões onde permanece muda quase todo o tempo. E para fechar sua participação ela teria duas únicas cenas em que seria exigida dramaticamente, nas quais naufraga fragorosamente. Qualquer atriz tiraria tais cenas de letra, mas estamos aqui falando de uma mulher que todo ano, merecidamente, concorre ao Framboesa de Ouro (prêmio ‘avacalhante’ que premia os piores de cada temporada). Sabe-se lá como, Jolie está sendo elogiada pelo seu ridículo trabalho aqui, tendo citações até para ser indicada ao Oscar, o que nem devemos citar como exagero, já que a palavra correta seria ‘acinte’. Mas não será o primeiro disparate da Academia, nem o último. Portanto, esperemos pelo pior.
No fim das contas, o filme em si é o mais fraco de Winterbottom, mas mesmo assim é altamente assistível, até porque seu talento ainda é evidente. Como a trama é importante e muito precisa em detalhes, o filme nunca deixa de prender a atenção, com isso dando voz a um acontecimento que com certeza muitos já esqueceram. No próximo projeto, estarei ainda ansioso com esse diretor que ainda tem muito a dizer, até porque, se sua ética saiu por uma janela nesse instante, seu talento continua no lugar de sempre.
Cotação para este filme:
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