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Título do Filme: A Via Láctea
Título Original: A Via Láctea
País de Origem: Brasil
Duração: 85 Minutos
Data de Estréia: 02/11/2007
Gênero: Drama
Produtora: Girafa Filmes
Distribuidora: Europa Filmes
Direção: Lina Chamie
Roteiro: Lina Chamie & Aleksei Abib
Elenco: Marco Ricca, Alice Braga, Fernando Alves Pinto
Acesse o site oficial do filme: www.avialactea.com.br


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francisco carbone »

rosquinhamabel@hotmail.com

» Rio de Janeiro, 29 de outubro de 2007

A VIA LÁCTEA

Foto: Divulgação/Marcos Camargo

Nem sei por onde começar essa resenha. Primeiro, preciso dizer aqui mais uma vez, que o ano de 2007 foi realmente primoroso para o cinema nacional em todos os aspectos. Estamos, inclusive, fechando-o com um sucesso sem precedentes, o fenômeno Tropa de Elite, que depois de ter sido aclamado pela crítica, pelos retratados e pelo ‘público informal’ (que comercializou incessantemente suas cópias piratas), consegue um estrondoso sucesso de bilheteria de fato, já chegando, nesse momento, a um milhão e meio de espectadores.  Além dele, a grande quantidade de excelentes e tão diferentes filmes num mesmo ano deve encher-nos de orgulho (obras tão distintas quanto O Cheiro do Ralo, Querô, Cão sem Dono e Baixio das Bestas, entre tantas outras). Acho que tão cedo não cansarei de exaltar 2007... pronto, agora que a ‘seda já foi rasgada’, posso começar a esculhambação.

Saiba, caro leitor, sobre que tipo de filme você está lendo no momento: do pior tipo possível, ou seja, o pretensioso. Já no primeiro instante de A Via Láctea, conseguimos visualizar suas intenções, as de nos enrolar com tanta linguagem empolada para que, numa espécie de sessão de hipnose, acabamos convencidos de se tratar de uma grande obra. Não é.

A trama básica é a seguinte: um casal de namorados parece ter ficado com o relacionamento por um fio depois de uma boba discussão por telefone. Heitor (Marco Ricca, nada a fazer), que ama Julia (Alice Braga, nada a fazer e meio) de maneira incondicional, não quer passar nenhum segundo em agonia, e trata de ir fazer as pazes imediatamente, partindo até seu trabalho. Só que eles são moradores da cidade de São Paulo, aquela metrópole cujo trânsito está entre os mais caóticos do mundo (aliás, que desserviço a São Paulo é o filme), e Heitor terá trabalho triplicado pra chegar até sua amada. Simples assim? Nada disso.

O filme simplesmente se resume aos devaneios de Heitor durante o caminho, na qual o engarrafamento não irá cessar durante todo o dia. Nesse instante, a agonia que começa a se fazer presente é a nossa, quando Heitor cismar de divagar poemas mil; de Fernando Pessoa a Machado de Assis, tudo é citado nos pensamentos de Heitor. Poemas também de sua autoria (no caso, Marco Ricca é o autor mesmo) também ilustram os grafismos que o filme insiste em ter o tempo todo por todo o canto da cidade. Entendam: os poemas são obviamente belíssimos, mas não resistem ao ridículo da situação em que o filme os coloca.

De repente, achando que não estava irritante o suficiente, o filme vai ganhando contornos psicológicos (e risíveis) a respeito da vida de Heitor, tudo pra justificar, mais tarde, um desfecho batido e que qualquer espectador médio matará ainda nos primeiros vinte minutos. O incrível é ver alguém inteligente e bom ator como Ricca envolver-se com o projeto a ponto de ser produtor. Ai, só de lembrar cada cacoete cretino do filme, dá uma raiva muito grande de tudo (não pode haver nada mais pavoroso do que ver Rica correr atrás de si mesmo enquanto criança pelas ruas desertas de uma São Paulo anoitecida... que simbolismo psicológico arcaico e vagabundo!).

No fim das contas há uma grande culpada por tudo ‘isso’: Lina Chamie, diretora e roteirista do projeto. Feliz da vida que deve ter ficado de ser aceita numa mostra paralela em Cannes desse ano com essa nulidade, Chamie passa o tempo todo querendo promover suas inexistentes qualidades de ‘autora’, numa construção rasa de personagens e num caráter onírico do filme que só causa risos. Imersa em pretensão desde a estréia (no igualmente patético Tônica Dominante), não dá nem para desejar boa sorte em projetos futuros para a diretora. Seu pedantismo como realizadora e sua certeza em estar fazendo uma “obra de arte” é tão gritante e arraigado que dificilmente haverá alguma mudança radical em seu estilo. E pior: tão certa ela parece estar de ser uma grande diretora, que também dificilmente nos livraremos dela tão cedo.

Resta-nos lamentar que tal engodo ganhe as telas de cinemas, mas desafio vocês a se aventurarem por tamanho lodaçal. Eu conheço uma meia-dúzia de ‘gatos pingados’ que se atreveram a elogiar isso, sabe-se lá como. Posso ser um rabugento... de qualquer maneira, já sei o que esperar do próximo longa de Lina Chamie. Fica, ao menos, o alívio disso ter sido lançado num ano tão excepcional que ele não vai resistir um mês na retina de ninguém. Simplesmente abominável.

Cotação para este filme:
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