O PASSADO
Foto: Divulgação

Hector Babenco não conseguiu superar a dor que suas lembranças trazem a ele. Na primeira tentativa, quando concebeu o subestimado Coração Iluminado, sentiu-se ignorado por público e crítica. Realmente, seu filme não foi bem ou mal falado; simplesmente não foi falado, por ninguém. Uma injustiça com um filme delicado que não encontrou seu público e acabou caindo no abismo do esquecimento. Na época, recuperando-se de uma operação na medula óssea, Babenco nunca se recuperou do desgosto de ver seu filme autobiográfico ser incompreendido.
Mas a vida continua, e o diretor de obras-primas como Pixote, O Beijo da Mulher-Aranha e Lúcio Flávio precisava de uma maneira de recuperar o gás. Ao ser tratado por Draúzio Varella, acabou tendo contato com seu livro Estação Carandiru, o relato do médico sobre os dias em que viveu na penitenciária, palco da maior chacina do país, que terminou com 111 mortos. A princípio, Babenco não sabia se conseguiria, mas logo levou às telas um dos maiores sucessos de sua carreira, o controverso Carandiru, aprovado por mais de cinco milhões de espectadores e selecionado pelo país à vaga de melhor filme estrangeiro no Oscar de três anos atrás. Com um sucesso na bagagem e em posse do livro de Alan Pauls (que não saía de sua cabeça), Babenco resolveu voltar a mexer em signos do seu passado, pra exorcizar o fato de ter visto Coração Iluminado naufragar. E assim, nasceu O Passado.
Depois de ler o livro de Pauls numa viagem, o diretor ficou obcecado com a idéia de levá-lo às telas, mas não sabia se teria como voltar a se afligir com assuntos tão pessoais. Babenco decidiu, então, brincar com instruções dadas no livro pelo próprio autor e misturou a própria nostalgia com uma dose de homenagem aos cineastas que o influenciaram, sobretudo Federico Fellini.
A história de amor de Rimini (não por acaso, a cidade natal de Fellini) e Sofia terminou. O rapaz, após doze anos, decidiu que seu amor tinha acabado e que o melhor para ambos seria continuar suas vidas em separado. Mesmo destruída, Sofia vê o amado partir e se envolver com todo tipo de mulheres ao longo de meses e meses. Vera, uma ciumenta obcecada por ele; uma senhora que ele conhece numa academia de ginástica; Carmem, mulher com quem ele compartilha a mesma profissão (são tradutores) e que pode ser um porto seguro para esse homem tão cheio de conflitos. O que Sofia não sabe é que, a seu modo, Rimini também está sofrendo por dentro, e muito. E que esse sofrimento só o torna cada vez mais ligado a ela, destruindo todos os seus novos relacionamentos.
Babenco lida de maneira exemplar com o fim do amor e as dores da perda, passeia por cada uma das etapas do término de um relacionamento e mostra que, quando um passado não é bem resolvido, teremos eternamente um problema não-solucionado sempre à espreita nos assombrando. Gael Garcia Bernal encarna bem o amante típico dos longas de Fellini, com tantas mulheres a tira-colo e, ao mesmo tempo, com a mente em frangalhos com algo que já acabou. Nenhuma das atrizes que passam pela tela tem função especial ou desempenho digno de nota, fazendo com que o trabalho de Gael seja ainda mais exemplar, atraindo todas as atenções.
No fim, Babenco acaba transformando alguns personagens atormentados em simplesmente chatos, e torcemos para que Rimini reaja e mande todos às favas. Quando o personagem demonstra total passividade, a irritação toma conta, diante de acontecimentos tão gratuitos. Isso atrapalha o resultado final, mas não tira a reflexão que o filme causa, nem sua frase símbolo sai da cabeça: “A separação também pode fazer parte de uma história de amor”. É só não deixar nada em aberto, como Rimini duramente aprende.
Cotação para este filme:
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