Pedrinha de Aruanda
Foto: Divulgação

Chegar a uma casa estranha, na qual nunca se esteve antes, é sempre incômodo. Sente-se todo tipo de desconforto, não sabemos onde pôr as mãos, não sabemos como nos portar, e temos que nos manter neutros, pois a qualquer momento, podemos ser descobertos em nosso embaraço. Andrucha Waddington, o cineasta que já nos fez viajar pelas comemorações regionais (Viva São João!), pelo sertão nordestino (Eu Tu Eles) e, em seu melhor momento, pelos belíssimos lençóis maranhenses (Casa de Areia), agora nos leva a uma casa de gente simples, na capital baiana. Uma casa como essa descrita por mim, de família que não conhecemos, mas que nos acostumamos desde sempre a chamar de íntima, a casa de Dona Canô, a mãe que todos nós gostaríamos de ter, mas só Caetano Veloso e Maria Bethânia têm.
No início, Pedrinha de Aruanda não foi pensado assim. Tudo começou como um projeto pessoal de Andrucha, que filmava a estrela mais intensa da música brasileira em seu cotidiano artístico, shows, camarins, viagens... ou seja, sua turnê. Com o material pronto, o diretor recebeu o convite da própria Bethânia pra ir até a casa de sua mãe, que também é a sua. Lá chegando, o clima familiar que viveu ao lado daquelas pessoas tão públicas alertou-o que eles também têm seu momento privado, que estava sendo partilhado com ele. E que, no fundo, eles são uma família como qualquer outra (frase que acabou virando a tagline do filme).
Aos poucos, vamos vendo o documentário perder suas tintas iniciais e adquirir outras, passando do macro ao micro vagarosamente, e, quando percebemos, estamos envoltos em uma atmosfera familiar rica e intensa, onde Bethânia se vê sempre culpada por sua distância, sempre pronta a voltar à sua raiz que ela faz questão de não perder. E Dona Canô mostra-se a mola propulsora por trás dos sentimentos da filha, além de vermos nela de onde vem a cantora que tanto conhecemos. Sua expressão tão singular vem dessa mulher centenária, que criou os filhos com garra e hoje é a força vital da família.
Várias cenas comprovam a simplicidade de todas essas pessoas (que incluem bem mais que somente Caetano e Bethânia), mas uma em especial mostra a união deles, sua amizade e sua simpatia à vida: quando Caetano conta da viagem de carro de Bethânia com João Gilberto, que é descrito como ‘péssimo motorista’. Toda sua clareza, toda sua animação e seu amor, uns pelos outros, é mostrado nessa cena simples, mas cheia de significado.
Andrucha Waddington também volta a mostrar vigor numa trajetória cada vez mais consistente como diretor. Desde que estreou sete anos atrás, dirigindo a esposa Fernanda Torres em Gêmeas, sua carreira evoluiu muito. E hoje, 3 filmes de ficção e 2 documentários depois, vemos que essa evolução ainda não acabou, e que muito em breve poderemos voltar a falar dele como um dos grandes nomes do cinema nacional. Agora, focando uma família de verdade, depois de passar pelas da ficção, vemos que sua sensibilidade anda cada vez mais aflorada, adjetivo cada vez mais raro em novos diretores.
Infelizmente, apesar de todo prazer em assistir Pedrinha de Aruanda, o filme acaba valendo como registro de curiosidade da (talvez) família mais talentosa da Bahia, não trazendo nada de novo a um gênero que acabou de mostrar seu degrau mais alto nos pelo menos últimos 10 anos, a obra-prima de João Moreira Salles intitulada Santiago, filme obrigatório a qualquer um que goste o mínimo que seja de cinema. Mas fica a delícia de assistir a ídolos em momentos ‘gente como a gente’, e fazer mais sentido a genialidade de Caetano e Bethânia, quando há por trás uma mulher chamada Canô.
Cotação para este filme:
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