Querô
Foto: Divulgação
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O ano de 2007 não ficará marcado como dos melhores anos para o cinema mundial, com muitas decepções, muitos projetos equivocados, muitos erros crassos em vários níveis para a Sétima Arte. Mas se existe alguma cinematografia que terminará a temporada em comemoração com certeza é a nossa. O cinema brasileiro teve um ano memorável, como ainda não havia sido visto desde a retomada, há 12 anos. O mais interessante é ressaltar que, não só de filmes excepcionais vivemos (e eles existiram, e foram muitos, como O Cheiro do Ralo, Baixio das Bestas, Não por Acaso, Cão sem Dono, Proibido Proibir), mas também tivemos pequenas surpresas e tantas coisas simpáticas (como Ó Pai, Ó, Saneamento Básico, Caixa Dois, Pro Dia Nascer Feliz). Agora vem se juntar ao primeiro grupo mais um filmaço, Querô.
Adaptado de uma peça teatral do grande Plínio Marcos, Querô mostra uma realidade barra pesadíssima na época em que foi escrita, há mais de 30 anos, e que hoje é algo infelizmente tão comum pra nós. O filme começa com o nascimento do filho de uma prostituta e sua posterior expulsão do bordel onde trabalhava. Após sua morte, o bebê é mesmo (mal) criado pela cafetina que expulsara sua mãe, onde vive toda sorte de castigos e humilhações na zona portuária de Santos, em São Paulo. Ao crescer, a marginalidade local acaba absorvendo-o e ele acaba em um das muitas sedes da FEBEM da cidade, onde só faz crescer seu ódio para com a sociedade que só o maltrata e explora. Uma explosão de fúria é o que ele se tornou. Vemos das mais pesadas cenas do ano de dentro dos ambientes que só os telejornais costumam mostrar. Tanta desumanidade e desesperança só produzem mais rancor e Querô termina numa fuga em massa, voltando para a liberdade, tentando cumprir o destino implacável que lhe foi ao mesmo tempo prometido e escolhido.
A essa altura, o impacto da obra do diretor estreante Carlos Cortez já nos impregnou e dificilmente algo mudaria opiniões já estabelecidas, como a fantástica montagem de Paulo Sacramento e a direção de arte impecável de Frederico Pinto, mas o terceiro ato, apesar de ir por um caminho familiar a quem já está escaldado com o cinema (de qualquer maneira, não vale a pena contar), conta com um ás na manga: um dos desfechos mais poderosos que o cinema nacional já viu. Isso tudo (inclusive o final) é fruto do trabalho coletivo de um diretor que sabe o que mostrar, um elenco afiado, um roteiro azeitado, e principalmente o protagonista certo.
Guardem esse nome e cobrem dos escaladores de elenco depois: Maxwell Nascimento. O garoto é muito bem coadjuvado por participações especiais de primeira (Maria Luisa Mendonça, Ailton Graça, Milhem Cortaz, Ângela Leal), mas tem uma força dramática genuína e exemplar, que sozinho carregaria o filme sem preocupação. Aliás, esse é o grande acerto do filme: sua força dramática, sua simplicidade aparente e maturidade explícita, as acertadas escolhas de um diretor estreante e muito talentoso, na qual deveremos prestar muita atenção.
Em muitos momentos, parecido com o clássico Pixote, o filme tem a seu favor uma equipe técnica invejável, disposta a continuar mantendo essa área em posição de destaque no Brasil, depois do fenômeno Cidade de Deus. Mas Querô sabe andar sozinho. A quantidade de prêmios que o filme já ganhou (em Brasília, Recife e Ceará) demonstra que o filme caminha nas próprias pernas. E vale ressaltar que um mesmo prêmio foi conquistado nos três festivais pelo filme: o de melhor ator. Ou seja, nascem dois novos talentos.
Cotação para este filme:
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