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Título: Maré, Nossa História de Amor
Título Original: Maré, Nossa História de Amor
País: Brasil/ 2007
Tipo: Longa / Cor
Diretor: Lúcia Murat
Roteiristas: Lúcia Murat e Paulo Lins
Elenco: Cristina Lago, Vinicius D’Black, Marisa Orth, Babu Santana, Flávio Bauraqui, Anjo Lopes, Monique Soares, Jefchander Lucas, Elisa Lucinda, Malu Galli.
Estréia no Brasil: 04/04/2008


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ERIKA LIPORACI »

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» RIO DE JANEIRO, 3 DE ABRIL DE 2008

Maré, Nossa História de Amor

Foto: Bruno Prata

Romeu e Julieta certamente é uma das histórias mais conhecidas dos últimos quatrocentos anos. E talvez seja uma das mais incompreendidas. Muitas pessoas pensam que Romeu é um cara de malha justa que fala em versos e desconhecem até o detalhe fundamental de que os dois jovens não pactuaram a própria morte e sim foram vítimas de uma série de infelizes desencontros. E o amor deles acabou sendo tão comovente e arrebatador porque a dupla morte o transformou em eternidade.

Então, talvez dentro de condições tão particulares como esta, seria possível que tal tragédia acontecesse nos dias de hoje. E Maré, Nossa História de Amor reproduz um contexto social, político e familiar que faz com que um acontecimento tão absurdo como a insana rivalidade dos Montecchio e Capuleto (ninguém nunca soube porque eles brigavam) se transporte para a atualidade. Pode existir apartheid mais violento no Brasil do que o imposto pela guerra de facções rivais no tráfico? Assim como Romeu e Julieta não tinham nada a ver com o ódio que separava suas famílias, moradores de comunidades carentes são obrigados a “escolher” um lado mesmo que não pertençam a nenhuma organização criminosa. Apenas para sobreviver.

Analídia é filha de um ex-chefão do tráfico. Embora sinta repúdio pelo pai a ponto de se recusar a visitá-lo na prisão, é uma menina marcada como pertencente ao lado “vermelho” da favela. Mesmo porque quem comanda a facção agora é seu primo, que faz com que seus soldados a vigiem. Jonatha trabalha como MC nos bailes promovidos por seu irmão de criação – o outro chefão – e sonha gravar um CD. Ele nunca se envolveu com o crime, mas também é marcado como alguém do lado “azul”. Analídia e Jonatha se encontram e se apaixonam na escola de dança que a professora de balé Fernanda instala na comunidade. Fernanda, que tem a função de Frei Lourenço nessa versão, quer integrar os jovens à sociedade através da arte e oferecer novas opções para quem não tinha nenhuma. A escola, a princípio representa um território neutro, mas é evidente que as boas intenções não bastam para que o espaço assim permaneça.

A trama é livremente inspirada na peça de Shakespeare, mesmo porque a diretora Lúcia Murat (que escreveu o roteiro junto com Paulo Lins) a concebeu como um musical. Então, no final das contas, o filme acaba tendo mais parentesco com West Side Story – musical clássico de Robert Wise que transforma a briga das famílias em conflito entre gangues de rua rivais – do que com o Romeu e Julieta original. Até mesmo o estilo vigoroso de algumas coreografias acaba nos levando a essa correlação. Destaque para a empolgante seqüência em que os jovens cantam e dançam na Linha Vermelha ao som de Minha Alma, do Rappa.

Maré, Nossa História de Amor é um filme muito bacana. Tem belas cenas de dança, uma direção de arte caprichada e, nos papéis principais, um casalzinho bem carismático que canta e dança pra valer. Aliás, Cristina Lago - a Julieta de trancinhas afro - assina duas das coreografias do longa. O elenco, formado basicamente por bailarinos e não por atores, interage muito bem com profissionais tarimbados como Flávio Bauraqui, Babu Santana e Marisa Orth. Muito interessante o primeiro número musical em que jovens das diferentes áreas, identificados pela predominância dos tons de vermelho/amarelo ou azul/verde nas roupas, convergem para uma interseção na favela. As imagens levam a crer que quando eles se encontrarem haverá algum conflito, mas o que acontece é alegria e distribuição de abraços. Este é outro aspecto original dessa versão: ao contrário dos agregados dos Montecchio e Capuleto, a garotada não tinha nenhuma rivalidade entre si. Ao longo do filme, conforme o cerco aperta, eles são separados por imposição. Outra seqüência muito boa é quando Fernanda mostra aos alunos um vídeo do balé Romeu e Julieta e depois abre o tema para discussão. As opiniões das meninas e meninos ali presentes soam tão naturais que chega a dar ao filme um tom documental nesse momento. No bom sentido.

O único senão em termos de adequação e adaptação é o artifício de Jonatha para tentar escapar da favela e da vigilância do irmão, que soa excessivamente ingênuo. Ainda mais pela idéia ter sido posta em prática com a ajuda de Fernanda, uma mulher mais vivida. Mas, no final das contas, é um detalhe insignificante num filme repleto de qualidades e que ainda tem o mérito de contribuir com esse gênero tão pouco explorado no cinema nacional, que é o musical – não confundir com biografias de músicos. Como bem disse Lúcia Murat, é incrível que o Brasil, tendo essa relação tão forte com a música e os ritmos, praticamente não produza musicais.

Outros textos, sobre cinema, teatro e muito mais no meu blog Artes & Subversão: www.artesesubversao.blogspot.com

Cotação para este filme:
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