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Especial |
Daniele Costa
Contato




*Todas os filmes visto por este autor:
4 meses, 3 semanas e 2 diasLust, CautionAntes que o diado saiba que você está mortoLa SeñalXXY
O Assassinato de Jesse James Pelo Covarde Robert FordA Maldição da Flor Dourada Tropa de EliteGUARDIÕES DO DIAÀ PROVA DE MORTEI’m a Cyborg But That’s OK.
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Diário do Festival
02/10/7



4 MESES, 3 SEMANAS E 2 DIAS - Ao contar a alguns amigos que eu veria esse filme e lhes dizer sua temática, um pequeno debate logo teve início. Nele, expus a minha posição: sou a favor do aborto pela liberdade de escolha individual desde que a população passe por uma reeducação sexual estrutural.

Esse é um dos temas polêmicos mais discutidos no Brasil e no mundo. Religião e ciência batem de frente diariamente, num entrevero que parece sem fim. Estima-se que, no mundo, vinte e dois milhões de abortos ilegais são feitos por ano.

A pergunta é: é justo deixar que tantas mulheres arrisquem suas vidas com métodos carniceiros por não poderem tomar uma decisão tão particular? Ou ainda, por que as mesmas foram descuidadas e não tomaram as providências necessárias para que isso não acontecesse?

Essas são duas de muitas perguntas que sempre vem à pauta nas discussões sobre o assunto. E 4 meses, 3 semanas e 2 dias não foi feito para as responder.
A intenção do diretor romeno Cristian Mungiu é apenas mostrar uma dura realidade que, mesmo sendo mostrada na Romênia de 1987, ainda é muito atual em países como o nosso, onde uma mulher tem que apelar à ilegalidade e a açougueiros para poder interromper uma gravidez.

A intimista trama foca o drama das universitárias Otilia e Gabita. Vivendo em um país onde impera um regime político fechado e repressor, as duas vêem-se numa situação desesperadora quando a segunda engravida e, sem poder ter a criança, contrata um “médico” para eliminar o “problema”.

Dotado de profunda sensibilidade e crueza, o longa possui cenas aflitas e geniais como a que mostra Otilia correndo, com os nervos à flor da pele, pela cidade escura, a fim de encontrar um lugar para despejar o conteúdo de sua bolsa.  E é esse nervosismo quase histérico que o diretor consegue captar com tanta presteza.

E ainda há espaço para o virtuosismo. O que dizer da longa tomada em que vemos a mesma, desesperada, avistando o que parece ser a última condução da noite para que possa voltar para sua amiga? Brilhante! Em certo ponto, a câmera fica absolutamente imóvel e acompanhamos Otilia descer por uma passarela para conseguir entrar no ônibus. Ao perdê-la de vista e ver o ônibus atravessando a tela somos tomados por uma sensação de tristeza indescritível. Mas o alívio vem rapidamente quando a avistamos ao longe conseguindo embarcar após correr atrás do ônibus já em movimento.

Essa cena exemplifica bem o clima do filme que é assustador. Gabita está correndo risco de vida e a urgência é passada de forma competente e vicinal.

O filme é recheado de cenas memoráveis. Uma delas é inesquecível (não sai da minha cabeça de jeito nenhum). Não ouso descrevê-la, só digo que o espectador certamente reconhecerá quando a vir.

E depois de duas horas de aflição, o filme traz um desenlace fenomenal. Sabendo que aquela ocasião mudará suas vidas e seu relacionamento para sempre, as amigas ficam frente a frente num silêncio ensurdecedor e incômodo.
Incômodo. Uma boa palavra para definir o longa de Mungiu que consegue despertar o tempo inteiro uma sensação ruim, de desajuste, que não consigo descrever bem.

O fato é que, sendo o aborto condenável ou não. É inegável que ele é um método desagradável e insólito, principalmente em situações como essa. E eu duvido que qualquer mulher o faça sem sentir uma profunda melancolia. Seja no açougueiro ou num hospital de luxo. NOTA 9,5.
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LUST, CAUTION - Lee é um cineasta marcado pelo dom da discórdia. Todos os seus trabalhos mais recentes e expressivos são alvos de opiniões contraditórias. Aclamado por muitos, odiado e desprezado por outros. Mas não é assim com todos os gênios?

Eu sei que o chamar de gênio é uma precipitação um tanto “fanzóide”, mas eu posso, seguramente, defini-lo como um dos melhores cineastas em atividade. O cara marcou o cinema com a poesia de O Tigre e o Dragão, dividiu platéias no mundo inteiro com o subestimado Hulk e, mais uma vez, marcou a sétima arte com sua obra prima, Brokeback Mountain.

Agora ele retorna, não menos notável e polêmico, com Lust, Caution, que se mostra outra pérola de uma filmografia que fica cada vez mais interessante.

O ano é 1938 quando Wang, uma jovem estudante e atriz de teatro, na China ocupada pelos japoneses, alia-se a um grupo de rebeldes com a missão de exterminar o “traidor” Sr. Yee, ministro chinês favorável à ocupação nipônica.

Infiltrada em sua casa sob o disfarce de uma jovem burguesa chamada Mak, Wang logo se surpreende com o jeito austero e misterioso do ministro e, para acelerar o cumprimento de seu dever, logo começa a seduzi-lo.

A princípio, o plano falha, mas as impressões trocadas entre os dois ficam marcadas em seus íntimos e, quando eles se reencontram em Xangai (Wang ainda sob a alcunha de Mak, agora mais envolvida com o grupo rebelde), três anos mais tarde, acabam se entregando a um tórrido e luxurioso romance.

E é justamente desenvolvendo essa ligação que Lee emprega toda a sua habitual dedicação. Uma das principais características do diretor é o modo como ele desenvolve seus personagens: sempre retratando seus sentimentos de maneira ambígua e construindo indivíduos com forte personalidade e conceitos morais amplamente influenciadores.

Assim são Wang e Yee, escravos de uma posição política desconfortável, ela tendo que vender seu corpo e sua identidade a um homem bruto e a uma célula política e ele estando preso num mundo de horror e torturas e com o peso na consciência por estar ajudando a ir contra seu país de origem (notar esse traço nele é um pouco difícil, para mim, na belíssima cena do restaurante japonês, quando Wang canta para ele, ficou evidente o amor e a saudade que ele sente pela cultura de seu país, cultura essa que ele ajuda a tentar eliminar).

E as tão faladas cenas de sexo são realmente impactantes. Não num sentido negativo. É na entrega do sexo que se encontra a força da paixão adquirida por eles. E o sexo é ardente e maravilhosamente filmado. Está totalmente dentro do contexto e é de suma importância na trama para que possamos entender o relacionamento de Wang e Lee.

Wang acaba se envolvendo mais do que deveria. E no clímax de sua incumbência é que ela percebe que a máscara de atriz havia caído há muito tempo.

Com esse material emocionante, Lee compõe um filme admirável, com o mesmo clima contemplativo de Brokeback e uma carga emocional quase tão sufocante quando o mesmo. Aliado a uma equipe perfeita. Da direção de arte à fotografia ainda somada a uma trilha sonora comovente (que eu chuto que, no mínimo, vá concorrer ao Oscar e torço para ganhar), Lee novamente nos faz sair do cinema um pouco taciturnos, totalmente envolvidos no belo arco dramático que ele traçou. NOTA 9,5.
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ANTES QUE O DIABO SAIBA QUE VOCÊ ESTÁ MORTO
- Lumet não está morto. Do alto de seus 84 anos, ele concebe o melhor filme visto por mim no Festival do Rio deste ano. Olha que não sou apenas eu que estou aclamando sua mais nova obra, ecos de aplausos vindos dos mais importantes festivais internacionais apontam o longa como um dos melhores do ano e um dos possíveis candidatos ao Oscar.

Sabe aquele ditado que diz que “tudo pode ficar pior”? É numa situação parecida que a família Hanson e seus antagonistas encontram-se no filme quando um crime aparentemente perfeito dá errado. As conseqüências serão trágicas e o castigo será rápido, numa viagem rumo ao inferno sem escalas e sem perdão.

Quebrados financeiramente, Hank e Andy vêem suas vidas desmoronarem. Hank não consegue pagar a pensão de sua filha e essa situação humilhante assola seus pensamentos a todo momento. Andy tem dificuldades em manter seu casamento e enfrenta uma dura circunstância: a possível descoberta de suas atividades fraudulentas no trabalho. O modo como eles encontram para sair desse inferno e chegar ao paraíso fará suas vidas serem jogadas num limbo de sofrimento, descobertas e catástrofes.

E é figurando essa queda livre que Lumet imprime sua genialidade. Combinado com o brilhante roteiro de Kelly Masterson, o diretor entrega-nos uma das melhores performances de sua carreira. Criando uma atmosfera de desesperança e culpa, Lumet evidencia a dor de seus personagens frente àquela horrenda transgressão com magnificência.

Usando uma narrativa não linear que serve perfeitamente para mostrar pontos de vista diferentes sob um mesmo acontecimento, o cineasta oferece-nos uma direção segura e precisa com caráter urgencial e maravilhosamente estilizada.
A tragédia da família Hanson remete um pouco à de Sonny, da obra prima Um Dia de Cão. Chega a níveis absurdos, beirando à comicidade. Onde os personagens e nós perdemos toda a esperança de redenção ou de uma reviravolta favorável.

O elenco primoroso é um dos maiores responsáveis pelo êxito de Lumet. Hoffman está melhor do que nunca na pele de Andy, adotando uma postura sempre serena, ele nos surpreende e assusta em seus momentos de fúria. Tomei desfila pelo filme exibindo uma exuberante nudez e uma admirável segurança vivendo a esposa amorosa que trai o marido com o irmão deste, Hank, que é vivido com intensidade por Ethan Hawke. Para completar o time temos Albert Finney que, apesar do exagero em certas cenas, formula o personagem que mais sofre durante o filme e consegue, facilmente, passar essa dor ao espectador.

Lumet realizou uma tragédia que é, ao mesmo tempo, épica e intimista e o nome do filme mostra-se mais que adequado: aproveite seus últimos momentos, faça as possíveis reparações, veja as merdas que você fez e goze de últimos momentos no paraíso ANTES QUE O DIABO SAIBA QUE VOCÊ ESTÁ MORTO. NOTA 10.
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Diário do Festival
29/09/07


La Señal - Na minha última resenha, ressaltei a evidente qualidade do cinema argentino que vem se solidificando como detentor da melhor e mais produtiva indústria cinematográfica da América Latina, desenvolvendo uma linguagem bem particular e apresentando trabalhos fortes, como o próprio XXY. Então, como não pude conter meu entusiasmo frente ao cinema de nossos hermanos, fui conferir mais um, La Señal.

Os atrativos eram bem sedutores: Noir situado numa época de grande importância política para o país (fim da era Péron) e ainda dirigido e estrelado pelo talentoso ator Ricardo Darín. Com esses “prós” à seu favor não poderia dar errado, não?

Deu. E, infelizmente, nem há muito que escrever sobre o longa. Não que me faltem palavras, o problema é que o trabalho de Darín, Martin Hodara (que também assina a direção) e Eduardo Mignogna é inexpressivo em demasia. Uma pena, pois desperdiça um enorme potencial.

O estreante diretor desenvolveu um “filme de gênero”. Daqueles que contém todos os elementos do estilo, mas que não adicionada nada de diferente ou interessante, além de ser feito em cima de um roteiro ralo e confuso, o que torna a experiência ainda mais decepcionante.

Está tudo lá, o anti-herói/detetive particular cheio de charme, vivido pelo próprio Darín, que, é claro, está sempre destilando sarcasmo, a femme fatalle (encarnada pela fraca Julieta Diaz), o amigo sensato, os De Sotos, o figurino elegante, os cigarros, as sombras, “o crime”, a música e o final trágico. Ou seja, tudo o que um bom Noir pede.

Só que um Noir digno de nota também pede uma trama complexa, com personagens bem construídos, o que este filme não mostra em momento algum. Fica só na mesmice, no básico, como se apenas os elementos listados acima fossem necessários para agradar aos fãs do gênero. É maçante! E eu ainda ficava na esperança de me deparar com alguma reviravolta surpreendente, que teimava em não vir.

E enquanto a sessão seguia, a sensação de perda de tempo só aumentava. Perdi a conta de quantas vezes olhei o relógio. Filme Noir não é para ser somente estiloso e bem acabado, tem que ser tenso e marcante. Esse La Señal é apenas tedioso. NOTA 4,0.
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Diário do Festival
28/09/07



XXY
- Dificilmente, eu escolho um filme apenas pela sinopse. Especialmente no festival, onde sobram propostas interessantes e faltam tempo e dinheiro para conferi-las. Então, eu acabo ficando com os filmes que badalaram nos principais festivais ou ainda, com filmes cujos diretores e atores são admirados por mim.

Porém, assim que bati os olhos sob a premissa deste XXY, interessei-me. Tanto, que me dirigi do conforto da minha casa a Botafogo às onze da noite, mesmo depois de um dia cansativo no trabalho.

Alex, construída pela talentosa atriz Inês Efron, é uma menina nascida sobre a síndrome de klinefelter que lhe confere características de ambos os sexos e tem que lidar com problemas familiares enquanto desenvolve um tenso romance com o tímido Álvaro (Martín Piroyansky).

Partindo de um ponto original e corajoso, a estreante diretora Lucia Puenzo aprofunda-se no tema com inesgotável sensibilidade. Trata Alex como mais uma adolescente passando por uma crise existencial (tão comum nesta ingrata fase da vida). Cheia de dúvidas e emoções à flor da pele que a todo momento se intensificam devido a sua situação.

Seu dilema não é muito diferente do cidadão ordinário. Num mundo onde quem foge dos padrões comportamentais ou físicos é logo taxado como freak, ou algo pior, a luta pela própria aceitação é um desafio interno, intenso e extremamente importante para a formação psicológica, visando definir o nosso papel na sociedade não sendo “apenas mais um” ou aceitando suas limitações e inabilidades, procurando sempre resgatar os pontos positivos que fazem a diferença.

Esse é o principal de muitos temas que o longa aborda de modo delicado e realista. E Alex encontra-se constantemente envolta por pessoas que vivem conflitos tão atraentes quanto os dela. Seus pais, por exemplo, vivem entre a vontade de querer afastar a menina da “hipocrisia do mundo” e a decepção por notar que esse mal inerente ao ser humano irá acompanhá-los a qualquer lugar em que pretendam estabelecer-se e até mesmo dentro de sua própria casa.

Seu pai, Kraken – vivido pelo intenso e expressivo Ricardo Darín, é uma das figuras mais profundas de Puenzo. Biólogo dedicado e apaixonado por sua profissão, vê com pesar o afastamento da filha e sua inutilidade em ajudá-la a fazer a escolha certa, sofrendo, juntamente com Alex, como se todos os seus problemas fossem da responsabilidade dele.

Até Suli, a mãe, que, aparentemente, parece tomar mais distância e precaução com relação ao problema, aos poucos vai mostrando-se extremamente terna e cuidadosa. Personagens opostos aos pais de Alvaro. Frios e distantes, não têm sequer a sensibilidade para conhecer as dúvidas e enfrentamentos que assolam as idéias do rapaz. 

Na soma de todos esses êxitos, a diretora aplica seu talento de forma discreta, normalmente acompanhando o fluir da trama sem grandes intervenções, o que considero um mérito. Ao lado desse estilo, a fotografia traz um aspecto multifacetal à película, colocando lado a lado paisagens áridas, praianas e verdes, num cenário que lembra solidão.

Com um desfecho realista, mas que poderia ser mais ousado (confesso que esperei um final à lá Boogie Nights), XXY mostra-se a grande surpresa do festival para mim, até agora. E expõe o incontestável avanço do cinema Argentino ao mundo. NOTA 9,0.
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Diário do Festival
28/09/07

O Assassinato de Jesse James Pelo Covarde Robert Ford - Assistir a filmes no cinema São Luiz é sempre um prazer. O Largo do Machado é um dos meus lugares preferidos da cidade. Ele condensa perfeitamente o lado antigo vindo do Centro indo de encontro ao refinamento da Zona Sul. E ainda tem a galeria Condor! Impossível resistir às esfihas da rotisseria. O dia estava agradável, meio nublado, eu estava satisfeita com as minhas esfihas, entrar no clima western foi fácil, fácil.

Mas O Assassinato de Jesse James Pelo Covarde Robert Ford não é um western, ou não pode ser, simplesmente, categorizado como tal. O filme é de tamanha complexidade que, dá-lo esse rótulo banal, seria uma afronta à excelente obra composta por Andrew Domink e Ron Hansen.

Eles nos apresentam os últimos dias de um dos maiores foras-da-lei da história estadunidense: o enigmático Jesse James. Cansado da vida transgressa e confuso com suas diretrizes, vemos o bandido aplicar seu último golpe e acompanhamos sua melancólica trajetória até que um tiro traiçoeiro tire-lhe a vida.

Ao mesmo tempo, embarcamos na psique de Bob Ford. Fã de James desde seus primeiros anos de vida, passou a infância sonhando com uma vida de grandes feitos ao lado de seu herói, mas quando sua falta de habilidade sobressai-se, começamos a notar sua ambição e, por conseqüência, seu declínio moral.

Com base nestes dois fantásticos personagens, a película flui com um forte clima melancólico e desesperançoso. Clima esse ressaltado pela pálida fotografia (uma das favoritas ao Oscar) e pela bela e tocante trilha sonora. Os planos contemplativos e silenciosos contribuem ainda mais para a formação desta aura bucólica e decadente tão importante e influente na trajetória dos personagens.

A figura de Jesse James é notavelmente encenada por Brad Pitt, que constrói o personagem envolto em mistério e com um tom muito ameaçador. A performance é contida, mas inspirada. James impõe respeito, todos os personagens parecem temê-lo e a postura de Pitt é um dos principais motivos para o sucesso dessa impressão.

Já Casey Affleck interpretando Bob Ford oferece a grande atuação do filme. O ator compõe o assassino com sensibilidade, sempre preocupado em humanizá-lo mesmo em vista de suas atitudes fracas, egoístas e mesquinhas. Ele faz com que o espectador desconfie de Ford em todos os momentos e, ainda assim, importe-se com o seu destino.

Com mais de duas horas de duração, o filme é um pouco lento e, às vezes, perde um pouco do ritmo e se torna arrastado e cansativo. Essa impressão é fruto de seu ambiente sombrio, e acho que desagradará a boa parcela do público. Contudo, à medida que o final se aproxima, o ritmo é recuperado e o interesse recapturado.

São nesses momentos, que James, do alto de sua soberania, mostra suas fraquezas e nos permite a identificação com ele, lamentando assim, seu triste fim. O filme termina num clímax mais que perfeito: o destino de Bob Ford é de uma ironia cruel e inesquecível, daquelas que nos fazem sair do cinema com um nó na garganta. NOTA 8,5.
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Diário do Festival
28/09/07

A Maldição da Flor Dourada - Minha história com este longa data de meses antes do Festival. Entusiasta do belo cinema de Yimou e da cultura milenar chinesa, eu vi, com pesar, a estréia do filme ser adiada por duas vezes e, por um momento, cheguei a pensar que ele seria lançado diretamente em DVD.
Felizmente, o filme foi um dos primeiros confirmado para o Festival 2007 e, logo que os ingressos foram postos à venda, garanti o meu.

Só que, dessa vez, eu me decepcionei um pouco com o Yimou. Fui ao cinema esperando ver algo além de belos figurinos, cenário e fotografia. Esperava, acima de tudo, toda a poética e filosofia chinesa mostrada em filmes como Herói e O Clã das Adagas Voadoras e, principalmente, seu lado político, mas não encontrei.

O que vi foi uma trama batida, mas bem conduzida. Isso graças ao talento da bela Gong Li e do imponente Chow Yun-Fat, que interpretam, respectivamente, imperatriz e imperador e, praticamente, levam o filme nas costas.

Os acontecimentos dão-se na véspera de um importante festival chinês. Logo no início do longa, percebemos que o Imperador já vem tramando para deixar sua consorte louca e ela, enquanto isso, organiza uma rebelião para o tirar do poder. Intriga política que é envolvida por trágicos dramas familiares que aos poucos vão se tornando mais relevantes que o próprio trono imperial.

É uma tragédia abarrotada de clichês que mescla momentos realmente emocionantes com outros que acabam desviando para o melodrama. E, à medida que o longa avança, esse defeito só se mostra mais forte, culminando num final já mais do que conhecido nas tragédias shakesperianas.

Entretanto, o esmero aplicado nos detalhes técnicos ainda impressiona com figurinos e cenários luxuosos que retratam a despropositada opulência da realeza imperial. E, de fato, é tudo meio exagerado, mas se aplica perfeitamente no contexto histórico: a dinastia Tang foi uma das mais ricas da China, o que justifica, por exemplo, a absurda quantidade de serviçais no palácio.

No entanto, a utilização desse claustrofóbico cenário palaciano acabou relegando a segundo plano um dos principais atrativos dos filme de Yimou: a fotografia. Mesmo que a visão de Pátio Imperial tomado por crisântemos seja deslumbrante, ela não se compara com os quadros que o diretor compôs na cena do embate entre Neve Voadora e Lua, por exemplo.

As cenas de batalha e de luta são, também, inferiores tendo em vista seus outros filmes. Os únicos momentos de real destaque dão-se em razão da ameaçadora presença da guarda secreta imperial. Essa sim, quando entra em ação, remete às originais e bem elaboradas coreografias utilizadas por Yimou.

Mas, mesmo apresentando essas imperfeições, A Maldição da Flor Dourada ainda oferece um bom cinema. Em nenhum momento, o filme torna-se cansativo ou chato e, por mais que a história não traga nada de novo, acompanhar os personagens e seus jogos de intriga proporciona um entretenimento interessante. NOTA 6,0.
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Diário do Festival
26/09/07

Tropa de Elite - "Numa guerra, há heróis dos dois lados."

Não, não nessa aqui...

Aqui não há heróis. Aqui nós temos seres humanos brutalizados dos dois lados da batalha enquanto a elite discute os problemas da sociedade com um baseado na mão.

Aqui nós temos uma polícia mal armada, mal paga e mal escolhida que faz as escolhas erradas.

Nossa força policial "de elite", anticorrupção, usa táticas ditatoriais de tortura para punir os bandidos que não são os principais culpados pela situação em nos encontramos. Essa força de elite, que se diz se basear na estratégia, acredita que o melhor meio de se combater o tráfico é guerreando com os bandidos para tirar suas armas.

E finalmente temos a nossa querida burguesia "politicamente engajada", criadora de ONGs e que realmente se importam com os meninos do morro. Bem, só se importam até aquela vontade de "apertar um" bater, porque quando ela vem e o cidadão precisa comprar seu bagulhinho, ele não pensa no que o tráfico implica na vida desses mesmos meninos que eles defendem?

Tropa de Elite tem alguns diálogos fracos e situações tipicamente clichês (mulher do policial fodão grávida, patricinha envolvida com fodido etc), mas mostra com coragem e competência algumas das muitas realidades dessa briga. E mesmo que a mesma já tenha sido explorado com mais eficácia em obras como “Notícias de uma Guerra Particular” ou até mesmo maravilhoso documentário “174”, de José Padilha, sua força se mostra justamente pelo tom popular do filme, ou seja, vai agradar porque além de tudo é um filme de ação.

O efeito câmera na mão dá um tom de guerrilha ao filme que tecnicamente mostra-se muito eficiente. A cenografia é um primor e a fotografia não fica atrás. Voltando à direção, Padilha cria boas cenas de conflito com muita tensão e cenas fortes, sem apelação e sem covardia. Um ótimo trabalho.

O maior destaque está com o brilhante Wagner Moura, o ator confere tanta convicção ao personagem que mesmo quando condenamos alguns de seus atos entendemos o que o implica a agir assim, e de certa forma, até o perdoamos. Expressivo e com uma presença fabulosa em tela, Moura se consolida de vez como o melhor ator brasileiro da geração... disparado!

Um filme memorável que, certamente, desagradará a muitos pela sua visão um tanto fanática sobra a guerra do tráfico. Eu particularmente, encaro esta visão como mais uma das bravas críticas que o filme faz ao "sistema".

Pra finalizar... achei um puta filme e indico uma conferida.

Uma cena ficou muito marcada pra mim:

No final do filme, os riquinhos fazem uma passeata pedindo paz porque um dos seus foi vitimado pelo conflito.
O pacífico Matias (André Ramiro), emputecido, diz algo do tipo:

"A elite só se incomoda com a violência quando perde um dos seus. Ninguém faz passeata pedindo paz quando um policial é morto. Quando vejo uma porra dessas, me dá vontade de fuzilar esses filhos da puta."

Outra do Matias que é demais:

"Vocês riquinhos, do alto dos seus apês, nas suas faculdades caras não sabem nada da realidade, sabem apenas o que lêem e vêem nos seus jornaizinhos."

É fácil ser engajado assim, não? NOTE 8,0.
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Diário do Festival

26/09/07


GUARDIÕES DO DIA
- “Por que eu não fiquei em casa?” Esse foi o único questionamento que esta catástrofe conseguiu despertar em mim. O nome da bomba é GUARDIÕES DO DIA.

Eu nem havia criado grande expectativa acerca desse filme, na verdade, a premissa já não me agradava. Mas o fato do filme ser russo e estar na mostra MIDNIGHT minimizou um pouco do medo e eu me dirigi até com bom humor ao Palácio (cinema lindo!) numa quente tarde de domingo.

Porém, infelizmente, me deparei com uma continuação (eu não sabia disso até então) de um filme estúpido, uma espécie de Anjos da Noite cossaco. Na trama (pfff) um assassinato desencadeia a quebra de uma trégua milenar entre seres sobrenaturais. Bem e mal se enfrentam nas ruas de Moscou. De diferente só o “Moscou”, né?

Pronto, agora é só colocar todos os clichês do gênero, retirar toda a lógica, coerência e o bom senso, jogar tudo numa lata de lixo e sacudir à exaustão. O resultado desta mistureba tornou-se a pior sessão de cinema da minha vida (e olha que eu sou sobrevivente de uma sessão de A Liga Extraordinária).

E tem mais, para piorar a situação, o filme ainda é dublado EM INGLÊS!! E com direito a sotaque russo e tudo! Nem preciso dizer o quão canastrona essa dublagem é. E prometo que, daqui por diante, não mais reclamarei das dublagens brasileiras.

Contar as cenas ridículas do filme é uma tarefa hercúlea e lembrá-las, é doloroso. Uma delas é particularmente grotesca: quando o mocinho embarca naquele clichê batido de “procurar arquivos secretos na internet para ajudar a solucionar o mistério” algo inusitado acontece: uma janelinha bem familiar aparece no canto da tela mostrando que o vilão Zavulan (olha o nome) está online no MSN. Isso mesmo!! Ele aproveita que o personagem Anthon está online e ameaça-o via messenger!! Só faltou usar o miguxês, e confesso que me diverti com a idéia: “preparE-sI...AnthON...VUxXxe iRaH kAihh......”......

Nesse momento, eu cheguei a pensar que poderia encarar o filme como trash, mas não dá, ao que parece o diretor, Timur Bekmambetov, leva-se a sério. Será que ele realmente acha que seus cortes rápidos e que o excesso do artifício da câmera lenta são suficientes para fazer com que as cenas de ação sejam eficazes? Na verdade, a direção aqui é irrelevante (assim como roteiro e elenco, aliás), Bekmambetov  parece querer apenas uma desculpa para jogar na cara do espectador um sem número de efeitos especiais (que não são mais do que meia boca) em tomadas totalmente despropositadas. Vide a cena do “pití” dado por uma morena fatal a bordo de um possante vermelho. Constrangedora!

Antes de finalizar, só me resta prometer mais uma coisa. Comprometo-me a, a partir de hoje, não mais criticar as novelas brasileiras que usam como tema o sobrenatural. Essas são um milhão de vezes mais bem realizadas do que esta bomba.

Assim sendo, é melhor esperar a próxima novela de vampiro do que perder tempo com tamanho lixo. NOTA 0.

Ainda bem que um certo diretor que amo estava lá para salvar o meu dia...
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À PROVA DE MORTE - Ao procurar a palavra cool na wikipedia, por exemplo, o primeiro dado a ser mostrado deveria ser uma grande e nítida foto de Quentin Tarantino. Desculpem o clichê, mas vai ser cool assim no inferno!!!
           
Ele entende do riscado, disso ninguém pode discordar. E À Prova de Morte é uma divertida e bem filmada homenagem ao cinema que o inspirou.

É incrível, ele não consegue não ser brilhante. Mesmo com a proposta de fazer um filme trash que remete às antigas grindhouses, Tarantino mostra, como sempre, um cinemão de qualidade indiscutível.

O filme retrata, em duas partes visivelmente distintas, a sede de sangue de Stuntman Mike (vivido por Kurt Russel, ao mesmo tempo divertido e assustador), que sempre está atrás de “namoradas” para exterminar com o seu carrão “à prova de morte”. Mas sua sorte muda de lado quando se depara com garotas tão duronas quanto ele.

E que garotas! As meninas esbanjam sensualidade e descontração com performances seguras e convincentes. Mas não pensem que o filme adota uma postura machista, pelo contrário, o diretor faz questão de mostrá-las como mulheres fortes, com traços de personalidade bem definidos e um vigor invejável. Poderosas (e lindas) em seus shortinhos, as oito deusas desfilam pela película, sempre proferindo os tão famosos (e adorados) diálogos triviais característicos de Quentin.

Esses, já não são mais tão brilhantes como em seus primeiros filmes (mais precisamente em Cães de Aluguel e Pulp Ficton), mas ainda são dignos de nota. Tarantino sabe como ninguém transformar uma típica conversa de bar em base para um roteiro de cinema! E sem falar nas imperdíveis referências à sua obra: como no momento em que Jungle Julia está escolhendo uma música no jukebox e percebemos que Mirislou passa rapidamente entre as alternativas, ou quando o celular de Rosário Dawson toca ao som de Twisted Nerve.

Outro destaque que não pode ser deixado de lado é a já clássica cena da perseguição. Eu nunca fui muito fã dessas perseguições em alta velocidade com carros turbinados, mas essa é, no mínimo, eletrizante. Os movimentos de câmera aqui interferem diretamente no desenvolvimento da ação e em nenhum momento o ritmo é quebrado. É uma pena que o clímax do entrevero entre Mike e as meninas tenha sido um tanto previsível e até sem graça.

Mas este é apenas um pecadilho que não passa nem perto de comprometer o resultado final do filme. Em uma palavra: COOL!! NOTA 8,0.

P.S.: Já estou à procura da trilha sonora, nem preciso dizer que a compilação é maravilhosa, né?
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Diário do Festival

24/09/07

Começando o diário...

No meu primeiro dia de festival, só pude conferir um filme. Não quero soar melodramática, mas tenho que dizer: que droga de vida! Ou falta tempo ou (geralmente) falta dinheiro! Então a gente se vira como pode, pára de chorar e faz o máximo pra ver a maior quantidade de filmes possível. Vou esforçar-me para ultrapassar a minha cota do ano passado, que foi de 10 filmes. Assim sendo, começarei este diário. E posso dizer que comecei com o pé direito – I’m a Cyborg But That’s OK.


Park é um dos um dos grandes nomes da safra de diretores da atualidade. Isso é um fato. Seu estilo marcante, dotado de uma poética de violência urbana, já deixou marcas na sétima arte, principalmente, com a sua aclamada trilogia sobre a vingança. E é justamente desta visão e estilo que o consagraram que ele foge neste seu mais novo filme.

Foge sim, mas não tanto. O preciosismo milimetricamente elaborado, as cenas irreverentes e, é claro, a violência, ainda se fazem presentes nesta excêntrica história de amor.

Nela, a apática Young-goon acaba num manicômio por achar que é uma ciborgue. Nestas condições, ela se priva até de se alimentar (tem medo que a comida estrague suas engrenagens) e numa tentativa de carregar suas energias quase acaba provocando a própria morte. Seus delírios são intensos e suas conversas com máquinas de refrigerante (máquina de chá, na verdade), lâmpadas, relógios e telefones são hilárias. No entando, Young-goon tem uma missão: restituir à sua avó a velha dentadura que foi esquecida por ela no momento em que os temidos “homens de branco” levaram-na.

Para onde? Para o manicômio, ora! Por quê? A senhora achava que era uma ratazana e passava o dia roendo rabanetes em companhia de outros roedores.

Aqui, a loucura é tratada com uma inventividade brilhante! A própria Young-goon passa por uma espécie de crise existencial por não saber o sentido de sua existência, o porquê dela ter sido construída. E mais, a menina-ciborgue ainda tem que lidar com um caminho moral árduo e estranho: os sete pecados capitais dos ciborgues, que são: compaixão, tristeza, inquietação, hesitação, divagação, culpa e gratidão. Sendo a compaixão o pior dos pecados.

Os outros personagens não são menos profundos: da menina que observa tudo através de um espelho ao homem, incrivelmente polido, que anda para trás e acha que é o culpado por TUDO de mal que acontece a seu redor, todos são notáveis. Com essa gama de personagens fantásticos fica impossível não cativar o espectador.

Outro personagem que merece destaque é Park Il-sun, vivido pelo cantor pop Rain. Considerado pelos médicos esquizofrênico e anti-social, o rapaz oscila entre momentos de encantadora doçura e rompantes de agressividade inusitados. Ele divide com ela traumas parecidos, vindo do âmbito familiar. Sua curiosidade e seu estranho “dom” são seus grandes destaques. Il-sun acredita que é capaz de roubar a personalidade e as perturbações dos outros pacientes. E nas tomadas em que o vemos realizar esse feito a diversão é garantida. Quando Young-goon pede para ele roubar sua compaixão, o rapaz se encanta com a moça e passa a cuidar dela.
 
A relação dos dois se desenvolve de forma natural e bela. A química existente entre os atores torna tudo mais fácil. Aproveitando que eu entrei neste quesito, quero ressaltar o talento de todo o elenco. Todos estão estupendos! Eu fico pasma em ver, nas produções coreanas, como os atores são expressivos e envolvidos. Su-jeong Lim, que vive Young-goon, e Rain formam o casal do ano!

Para completar a sucessão de méritos, tenho poucas palavras sobre a direção de Park. Sua técnica me conquistou completamente e aqui ele exibe uma ótima forma. Quando retrata os devaneios dos pacientes, a inventividade que ele soma ao seu inegável talento nos brinda com tomadas oníricas e cheias de beleza e bizarrices com destaque às cenas do massacre (tinha que ter, senão não é Park) e a da viagem de Young-goon musicada por Il-sun.

Enfim, aqui vemos um Chan-Wook trabalhando sobre uma abordagem diferente, inusitada e não menos interessante que as de seus outros filmes. Sua estética de cores fortes sempre em contato direto com a trama é mantida, assim como seu estilo como um todo. Novamente, ele faz um belo trabalho por trás das câmeras (sou fã, não tem jeito).

O filme ganhou o prêmio Alfred-Bauer, em Berlim na categoria de obra inovadora. Acho que não seria possível justiça maior. De fato este prêmio foi para ótimas e merecidas mãos.
NOTA 8,5



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Especial |
Paulo Marinho
Contato




*Todas os filmes visto por este autor:
O AcompanhanteMorte no Funeral4 Meses, 3 Semanas e 2 DiasSmiley Face Hairspray – Em Busca da Fama O Preço da CoragemSavage Grace
The Brave ONETropa de EliteEntrevistaSempre BelaA Cortina de Açúcar
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Diário do Festival
04/10/07 - último dia

Último dia do festival. Uma pena. Já estou com saudades, vou sentir falta dessa correria, mas ainda tenho um filme para assistir, O acompanhante. Hoje, estranhamente, o pipoqueiro da esquina não apareceu, provavelmente já faturou o que julgava ser suficiente e resolveu não dar as caras para descansar da maratona que se iniciou no dia 20 de Setembro. Justo.

Vamos ao filme:




O Acompanhante
(The Walker) de Paul Schrader (o mesmo de Gigolô Americano e City Hall) conta a história de Carter Page III (Woody Harrelson, ótimo) um acompanhante gay de senhoras da alta sociedade, que, por força do trabalho, torna-se habitué de óperas, jantares em restaurantes luxuosos, teatros  e jogos de carta.

Carter vê-se envolvido em um crime de assassinato quando Lynn, a esposa de um senador (Kristin Scott Thomas, apática e sem brilho, como de costume), encontra o seu amante morto e pede que ele a ajude. Isso por que Carter resolve assumir que foi a primeira pessoa a encontrar o corpo do amante e assim poupar Lynn do constrangimento de ter que assumir que era uma adúltera.

Só que esse gesto de bondade terá um preço e Carter se torna o principal suspeito do assassinato. Uma vez suspeito, Carter é abandonado pelos amigos e só contará com a ajuda de seu namorado Emek (Moritz Bleibtreau, de Corra Lola, Corra) para provar a sua inocência.

Não se pode dizer que O Acompanhante seja ruim, mas o diretor não soube aproveitar a força do seu elenco e desperdiçou talentos como Lauren Bacall (cujo personagem, se tivesse mais peso na história, poderia até mesmo render mais uma indicação ao Oscar para a veterana atriz, tamanho é o seu talento), Lily Tomlyn (totalmente desperdiçada), Ned Beatty e Willen Dafoe (merecia mais). Também não soube explorar o próprio roteiro, que às vezes soa muito confuso, é extremamente lento, arrastado, isso sem falar da péssima fotografia. Uma pena.

A surpresa fica por conta de um surpreendente Woody Harrelson (normalmente alucinado e agitado como em Assassinos por Natureza e ED TV), contido no papel de um gay da alta sociedade de família tradicional, o que seria um prato cheio para atores mais afetados tornarem-se caricatos. Nas mãos de Woody, que leva a personagem com seriedade e elegância, é garantia de uma ótima interpretação. Pensando bem, estou falando de Larry Flint, então não é surpresa alguma. NOTA 6,0.

Bom, no balanço geral, o Festival foi um sucesso, não vi todos os filmes que gostaria de ter visto devido à lotação da sala (O Assassinato de Jesse James pelo covarde Robert Ford; À Prova de Morte; Planeta Terror); vi algumas porcarias (Sempre Bela); pude constatar o que eu já sabia que seria sucesso (Hairspray, Tropa de Elite, 4 Meses, 3 semanas e 2 dias); tive algumas gratas surpresas (Smiley Face, Morte no Funeral, Entrevista); também tive algumas decepções (Savage Grace, O Preço da Coragem), enfim, assim foi o festival para mim.

Espero que tenham gostado do meu diário e aproveito, antes de me despedir, para agradecer aos amigos Francci Lunguinho, Fabrício Mohaupt, Francisco Carbone e Daniela Costa a oportunidade de cobrir um evento dessa importância na companhia de vocês. Meu muito obrigado e até breve!
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Diário do Festival

02/10/07

E chega mais um dia do Festival do Rio, e dessa vez não vi o Pipoqueiro da esquina devido à hora que cheguei para ver o primeiro dos três filmes que iria ver nesse dia: Morte no Funeral; 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias e Smiley Face. O primeiro filme foi exibido no Festival, mas devido à lotação da sala, não pude assisti-lo quando foi exibido, e eis que surgiu a chance de vê-lo em uma cabine de imprensa. Não dispensei a oportunidade e como eu já disse anteriormente, já que ele foi exibido no Festival, resolvi incluí-lo no meu diário. O segundo foi o ganhador da Palma de Ouro em Cannes 97 e o terceiro uma grata surpresa. Sabe aqueles dias que você percebe que o dia rendeu? Esse dia 02 foi assim...



Morte no Funeral
(Death at a funeral) é uma comédia de erros que conta a história de uma família dividida por ciúmes, segredos e confusões que se encontra por ocasião da morte do Patriarca da Família. Não é nada que vá mudar a nossa vida, mas sabe aquele filme que faz você se sentir mais leve? Totalmente descompromissado? E feliz? Assim é esse filme, você já viu, ouviu e até riu com as mesmas piadas (Algumas dignas do Programa Zorra Total da Rede Globo!). Mas se retirarmos apenas algumas cenas que apelam para a escatologia desnecessária, O filme é garantia de boas risadas porque, estranhamente, as mesmas piadas funcionam no filme, fazendo dele uma grata surpresa!

Eu adorei o filme, desde a abertura (simples, original e eficiente) até os créditos finais com os costumeiros erros de gravação! O Roteiro é batido, trata de inveja entre irmãos, sogros que não aceitam seus genros, pílulas trocadas, alucinógenos, a viúva que descobre a traição do marido após a sua morte, o tio ranzinza e mal-humorado, enfim, um amontoado de clichês! O diferencial desse filme é a direção franca e experiente de Frank Oz (de Será que ele é?) que resolveu apostar todas as suas fichas na escalação do elenco para contar o mesmo feijão com arroz. A direção dos atores é impecável, Frank deve ter se divertido muito durante as filmagens, pois isso fica claro na tela: Mathew MacFadyen (de Orgulho e Preconceito) esbanja charme e bom humor na pele de Daniel, o irmão “patinho feio” da história que dá a volta por cima no final; Rupert Graves (de V de Vingança) mostra-se muito a vontade no papel de Robert, o irmão bem sucedido da família; Jane Asher (Musa inspiradora de várias canções dos Beatles – entre elas Honey Pie e All My Loving – e também ex-noiva de Paul McCartney) há muito não dava as caras nas telas do cinema e mostra que ainda é competente no papel de Sandra, a matriarca da família; Peter Dinklage (de Vira-Lata) mostrando-se cada vez mais versátil na tela do cinema como Peter, o discreto amante gay; Peter Vaughn (de As Montanhas da Lua) esbanjando bom humor no mal-humorado personagem Tio Alfie; e Alan Tudyk (guardem esse nome, de Eu, Robô), são dele as piadas mais engraçadas do filme! No papel de Simon ele é, de longe, a melhor coisa que vemos no filme!

Enfim, o filme na verdade é bem meia boca, mas, quer saber? O cinema precisa de filmes assim porque o público precisa de filmes assim!

Frank Oz parece saber disso! Que Bom!!!! NOTA 8,0.
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4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias (4 luni, 3 Saptamani si 2 zile) da Romênia foi o ganhador da Palma de Ouro em Cannes nesse ano de 2007. E ao assistir ao filme, você tem a certeza de que a palma está em boas mãos!

O Filme é fantástico, tem uma trama aparentemente simples, porém é polêmico, é forte, é realista, é pesado, é emocionante, é digno de Oscar (que virá em Fevereiro, se houver justiça nesse mundo!!!)

O filme do Romeno Cristian Mungiu, além da excelente direção, roteiro, tem uma fotografia bonita, com atores bonitos e fala, sobretudo, sobre amizade, e faz pensar!

O ano é 1987 e a história fala sobre a amizade de duas colegas de quarto, em uma república de faculdade, Otília (Anamaria Marinca, simplesmente perfeita no papel da melhor amiga) e Gabita (Laura Vasiliu, competente, mas ofuscada pelo brilhante trabalho da colega Marinca).

Gabita está grávida e decide abortar e, para isso, conta com a ajuda de Otília, que embora não partilhe da mesma opinião da amiga, não poupa esforços para ajudá-la, desde mentir para seu namorado (Alexandru Potocean) para conseguir dinheiro emprestado até mesmo cumprir uma exigência do médico que atende pela alcunha de Dr. Bebe (Vlad Ivanov), que irá fazer o aborto (o que é ilegal no seu País).

O aborto é sempre um tema forte e passível de discussão, e já foi discutido em diversos filmes, mas nunca de uma maneira tão franca e sincera como nesse.
Anamaria Marinca fez um excelente trabalho e já foi escalada por Francis Ford Coppola para atuar no filme Youth Without Youth e terá uma bela carreira pela frente.

Assim também como torcemos pelo diretor Cristian Mungiu, afinal de contas, uma pessoa que faz um filme como esse (sem exagero algum) merecedor de todos os prêmios existentes no mundo, não pode parar por aqui, merece muito mais.

Em minha opinião, é, sem dúvida, o Melhor filme do Festival de Cinema do Rio desse ano! NOTA 10.
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Smiley Face - (ainda sem título aqui no Brasil), do diretor Gregg Araki, é uma comédia que soa extremamente familiar a qualquer pessoa que vá assisti-la! Foi uma delícia assisti-lo e confesso que não tinha muita expectativa quanto ao filme e me surpreendi.

O Diretor (o mesmo de Splendor) não se decidiu entre fazer uma comédia descerebrada ou uma comédia mais suave com um pequeno toque de humor negro, e ficou no meio termo. Mas isso não tira o mérito do filme, que faz lembrar em alguns momentos de Cara? Cadê meu carro?, só que num tom mais sério.

O filme conta a história de Jane (Anna Faris, de Todo mundo em Pânico), uma aspirante a atriz desempregada e sem talento, que vê no vício da maconha a sua única fonte de felicidade. Um dia, Jane, tomada por uma fome inexplicável, resolve devorar pelo menos uma dezena de bolinhos que se encontravam na geladeira do apartamento que divide com Steve (Danny Masterson), seu colega de quarto, um nerd totalmente careta.

Só que os bolinhos não eram tão inocentes assim e Jane, totalmente alucinada, tem que cruzar a cidade para encontrar um traficante que ameaçou roubar a sua “melhor cama do mundo” no festival da Maconha, fazer um teste pra uma vaga de atriz e ainda repor os bolinhos que comeu.

A partir desse ponto, o filme fica muito engraçado, é impossível não se identificar com algumas cenas das alucinações de Jane (afinal, quem já viu algum amigo “viajando” alguma vez, entende perfeitamente o que eu estou falando) que se mete em confusões e mais confusões. Contar mais do filme é como tirar doce da mão de uma criança, pois o grande segredo é o inusitado das cenas.

O grande trunfo do filme tem um nome: Anna Faris. Apesar de que em alguns momentos você lembra de Cindy Campbel (personagem que a marcou na série Todo mundo em Pânico), ela carrega o filme nas costas, e não mostra nenhum sinal de cansaço por isso, pelo contrário, está muito a vontade num papel que em mãos erradas poderia pender para o caricato. Mérito dela que se mostra, assim, uma atriz cada vez mais promissora e, se bem dirigida, terá uma bonita carreira pela frente.

O filme tem um bom elenco de coadjuvantes: Adam Brody (de The O.C); John Krasinski (de Licença para Casar); Danny Trejo (de Con Air); Danny Masterson (de Prova Final); John Cho (de Madrugada Muito Louca). Mas nenhum deles é páreo para Anna Faris pelo simples fato do filme ser dela. E somente dela! NOTA 7,5.
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Diário do Festival

26/09/07

Mais um dia de Festival. Hoje, com as bilheterias lotadas. Nunca o pipoqueiro da esquina faturou tanto. Devido ao trânsito, cheguei com um atraso de 5 minutos à exibição do Filme Hairspray – Em Busca da Fama, uma pena que hei de reparar quando o filme entrar em circuito no dia 05 de outubro.

Bom, mas vamos ao filme. Como disse, cheguei atrasado e, ao entrar na sala escura e lotada, deparo-me com a figura de John Travolta na tela, melhor dizendo, Edna Turnblad, mãe da protagonista do filme, a rechonchuda Tracy Turnblad. Impossível não esboçar um sorriso só ao ver a figura do ator travestido na personagem.

Continuando, o que eu vi na tela hoje permanecerá na minha mente por muito tempo, o filme é excelente! Sabe aqueles filmes simpáticos que fazem você sair do cinema com um sorisso de orelha a orelha?

O filme fez-me lembrar Grease – Nos Tempos da Brilhantina (musical que adoro), só que é muito superior. O elenco está em estado de graça, mais à frente, eu faço questão de citar um a um. Por hora, atrevo-me a dizer que Hairspray – Em Busca da Fama é o melhor musical em muitos anos, superior mesmo a Moulin Rouge e até mesmo a Chicago, na minha opinião!

Mérito do Diretor Adam Shankman, o mesmo que fez bobagens como Operação Babá e Doze é Demais, que deve ter se divertido muito durante as gravações, por que isso se percebe na tela! É nítido, ele foi de um bom gosto e de uma sutileza desde a escolha do elenco até a escolha do cenário, passando pela excelente coreografia e, é claro, na escolha das músicas (acredite, é impossível não cantarolar as músicas, elas grudam na cabeça e inevitavelmente você irá pegar-se balançando a cabeça ou mesmo batendo com o pé no chão ao ritmo delas – Eu fiz isso). Enfim, posso afirmar que Adam Shankman fez um excelente trabalho e está perdoado pelas bobagens do passado.

E o elenco? Ah, que elenco: Nikki Blonsky (Tracy Turnblad, impecável, entrando pela porta da frente do cinema, tomara que sua anatomia, um tanto quanto “rechonchuda” não a limite e a rotule e a impeça de tentar novos caminhos no cinema); John Travolta (de Pulp Fiction, perfeito, parece que nasceu para o papel de Edna Turnblad, tamanha a desenvoltura do ator, que canta, dança e representa com uma leveza que você esquece que ali está um ator envolto em roupas de enchimento e com quilos e mais quilos de maquiagem); Michelle Pfeifer  (de O Feitiço de Aquila, mais linda do que nunca, é a vilã da história, Velma Von Tussle, diretora da emissora que faz tudo para atrapalhar a carreira da novata Tracy); Christopher Walken (de A hora da zona Morta, competente como sempre e também como você nunca o viu antes, leve, simpático, sorridente no papel do patriarca da família Turnblad); Amanda Bynes (de Ela é o cara, comumente insossa, surpreende na pele da melhor amiga de Tracy, Penny); Zac Efron (De High School Musical como Link, interesse amoroso de Tracy, simpático); Queen latifah (como Maybelle, apresentadora do programa O Dia do Negro, contida e sensível, impossível não se emocionar na hora do solo em que ela canta uma música Gospel); James Marsden (de X-Men, Corny Collins, apresentador do programa  que tem o seu nome,  é ele quem descobre Tracy e a convida a fazer parte do programa, esbanjando simpatia); e mais Britanny Snow (de Operação Babá, Amber, a filha de Velma, invejosa e trapaceira); Elijah Kelley (de 28 dias, Seaweed, filho de Maybelle e interesse romântico de Penny); Allison Janney (de Happy,Texas, como a mãe de Penny, faz, junto com Amanda Bynes, uma das cenas mais engraçadas do filme) , os veteranos Jerry Stiller e Paul Dooley, a participação de Ricky Lake (a Tracy do filme original), do Diretor John Waters, e até mesmo o diretor, o compositor e o roteirista do filme, respectivamente Adam Shankman, Marc Shaiman e Scott Wittman,  não quiseram ficar de fora e descolaram uma ponta bacana.

Resumindo tudo, é um filme feito para divertir e que cumpre bem o seu papel e, como se não bastasse, ainda nos faz pensar sobre o preconceito racial.
Enfim, um filme para se guardar na memória.

Vale ressaltar que Hairspray – Em Busca da Fama é uma adaptação da peça teatral homônima que, por sua vez, foi uma adaptação do filme Hairspray – e éramos todos jovens do diretor maldito John Waters (Cry Baby, Mamãe é de morte). NOTA 10,0.
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Diário do Festival
26/09/07

O Festival continua a todo vapor, embora nesse dia eu já não tenha visto tantas filas na bilheteria, as salas não estão tão cheias, mas o pipoqueiro da esquina continua faturando uma graninha! Hoje assisti a dois filmes: O Preço da Coragem (A Mighty Heart) de Michael Winterbotton e Savage Grace (ainda sem tradução no Brasil) de Tom Kalin, e sai bastante animado com os filmes vistos.

O Preço da Coragem - é o filme adaptado do livro escrito por Marianne, esposa do jornalista Daniel Pearl, seqüestrado e posteriormente assassinado por terroristas no Paquistão, Oriente médio.

Pode-se falar que o filme é quase um documentário encenado, que conta, passo a passo, o empenho de Marianne, grávida de seis meses, em tentar encontrar o Marido, Daniel, que foi degolado por terroristas paquistaneses e teve sua morte filmada e lançada na internet.

Filmes baseados em histórias reais são sempre mais difíceis de filmar, pois não existe muito espaço para “licença poética”, o diretor fica preso à verdade, e se por ventura quiser sair dela, pode estragar tudo.

Não é o caso de O Preço da Coragem, o filme é uma bela homenagem à família Pearl, com a direção firme e, digamos assim, seca de Wintebotton (de Neste Mundo). A impressão que temos é de que realmente estamos assistindo a um documentário, e, se não fosse a presença de Angelina Jolie como Marianne e alguns poucos atores conhecidos (Dan Futterman – Finalmente num papel importante, como o Jornalista Daniel Pearl, e Will Patton),  não saberíamos que estávamos assistindo a um filme.

É impressionante a entrega de Jolie, mesmo com uma peruca ridícula, Angelina não consegue ser feia nunca e ali você consegue perceber que existe uma atriz madura e consciente do seu papel, passando a frieza e fragilidade nos momentos corretos, muitas vezes apenas com a força de um olhar.
Meu único senão para o filme é que é um pouco longo. Se tivesse uns quinze minutos a menos, seria impecável.

Uma curiosidade, a verdadeira Marianne Pearl resolveu escrever o livro para apresentar a seu filho o pai que ele jamais iria conhecer. NOTA 9,0.
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Savage Grace - será conhecido por ser o filme que finalmente dará o Oscar de melhor atriz a Julianne Moore (isso se existir justiça divina!). Ela é, desde já, a minha preferida, e merece, não só por tudo que já fez no cinema (As Horas, Boogie Nights, Fim de Caso, O Mapa do Mundo – tudo bem, ela já fez Evolução e Nove Meses, mas ela precisava pagar o aluguel, ora bolas!), mas também pela sua interpretação de Bárbara Daly Baekeland, protagonista do filme em questão. Savage Grace é uma dramatização da história ocorrida em 17 de Novembro de 1972, quando Bárbara foi assassinada por seu próprio filho, Tony, em um luxuoso apartamento londrino, um caso que ficou marcado como uma das grandes tragédias americanas da história.

O filme conquistou o Festival de Cannes na quinzena dos produtores e não é só sobre a história de uma mãe que tem uma relação incestuosa com o filho e foi assassinada pelo mesmo, mas também é sobre a família como instituição moral e formadora de seres humanos.

O filme tem cenas chocantes, em especial a que se vê a relação sexual entre os personagens Bárbara, seu filho Tony e seu amante gay. Bastante forte!

Não é um filme fácil de ser assistido, é polêmico (Homossexualismo, incesto), pesado, forte, e por vezes muito, mas muito arrastado, cansativo até! Eu diria.
Mas é um filme que não deve deixar de ser visto também, além da história é um filme de atores. E Julianne Moore vai ganhar o Oscar por esse filme.

E vocês agora devem estar me perguntando: Mas então? Vale ou não vale a pena? Sim, vale. Por tudo que já foi dito aqui, você não irá se importar com algumas cenas arrastadas não é mesmo? NOTA 7,0.
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Diário do Festival
25/09/07

O Festival funcionando a todo vapor, filas na bilheteria, salas bastante cheias e o pipoqueiro da esquina faturando uma graninha! Nesse dia, só pude assistir a um filme: The Brave One, de Neil Jordan, que aqui no Brasil ganhou o título de Valente. E até que valeu a pena.

The Brave One - está sendo comparado ao filme Desejo de Matar, só que com saias. Só que eu acho que ele é bem mais que o antigo filme de Charles Bronson.

Nesse filme, a radialista Erica Bain (Jodie Foster) e seu namorado David (Naveen Andrews de Lost) são atacados por um bando de arruaceiros logo no início do filme, resultando na morte do namorado e deixando Erica em estado de coma.

Erica então, ao sair do coma, procura a polícia para saber se eles já têm pistas do seu agressor, mas eles não têm informação alguma. Ela terá que aguardar, mas que ela não se preocupe, pois eles estão trabalhando no caso, dizem. Cansada da inércia policial, Érica resolve se tornar uma espécie de Vigilante da Lei, uma justiceira, e começa a empreender rondas noturnas no encalço do seu agressor, e ai de quem cruzar o seu caminho e ela julgar culpado. Dá-se então início a uma série de assassinatos que desperta a atenção da polícia, em especial o policial Mercer (Terrence Howard).

Contar mais do filme só iria estragar a história, o filme é impactante, a cena da morte do namorado de Erica é impressionante, uma das mais fortes que eu já assisti.

Neil Jordan mostra que está em ótima forma na direção firme desse filme, a exemplo de Traídos pelo Desejo, Jordan consegue imprimir sua marca, seja na direção das cenas de assassinato, seja nas horas de humor (sim, você consegue rir em algumas cenas, principalmente nas cenas que o ator Nicky Katt - como o policial parceiro de Mercer - participa.), seja na direção de atores.

Terrence Howard está impecável e Jodie Foster, embora eu sinta saudades de uma Jodie um pouquinho mais leve, menos densa, mais bem humorada, dispensa comentários! (inclusive, fala-se em uma certa estatueta dourada, embora eu ache meio exagerado.)

Enfim, o que se poderia esperar da dobradinha Neil Jordan/Jodie Foster?

Um filme pra ficar na memória, claro! NOTA 8,0.
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Diário do Festival
19/09/07

Tropa de Elite - Dez Horas da manhã de uma quarta-feira, uma sala de cinema lotada de jornalistas ansiosos para que se inicie a sessão do filme que abrirá oficialmente o Festival do Rio 2007. Curioso não? Digo curioso pelo fato de que pelo menos 70% das pessoas presentes já tinham assistido ao filme em questão. Assistido? Como assim? Não é inédito nos cinemas? Assistido no conforto da sua casa, com uma bacia de pipoca ao lado, numa cópia pirata! Cópia Pirata? Ahn! Então você deve estar falando de Tropa de Elite, não? Sim, estou falando não só de Tropa de Elite, estou falando nada mais, nada menos, do melhor filme já visto e produzido por aqui. Exagero? Não, com toda certeza não! O filme é vibrante, é visceral, é um filme feito para homens, mas que as mulheres, com certeza, irão gostar e que vai ficar para sempre marcado na nossa memória.
           
A História do filme? O Filme passa-se no Rio de Janeiro e o ano é 1997. No coração de uma guerra com muitas frentes de batalha, o Capitão Nascimento (Wagner Moura, como você nunca viu, o ator está simplesmente perfeito, impecável melhor dizendo!) da Tropa de Elite da Polícia Militar do Rio de Janeiro precisa encontrar um sucessor para deixar o Batalhão e mudar de vida ao lado da mulher, prestes a dar a luz ao seu primeiro filho. Juntam-se ao Capitão Nascimento dois aspirantes a oficial da PM, Matias e Neto (respectivamente André Ramiro e Caio Junqueira – Excelentes); Uma jovem idealista (Fernanda Machado – Correta, além de linda); Um garotão da zona sul que vende maconha na faculdade (Paulo Vilela – Competente); Um chefe do tráfico de um morro vizinho à residência onde o Papa ficarará hospedado (Fábio lago); policiais corruptos (entre outros Marcelo Valle; Milhem Cortaz – uma grata surpresa!). Enfim, uma gama enorme de personagens que se entrelaçam e contam a história do melhor filme já visto e produzido por aqui (não, eu não vou me cansar de dizer isso – O filme é excelente!).
           
Talvez por eu residir no Rio de Janeiro, o filme soe tão familiar, pois tudo que está ali na tela, você já viu, ou já ouviu dizer que acontece de fato! A corrupção, a hipocrisia, a violência, o tráfico, a intolerância, e tantos outros fatos... Mas voltemos ao filme, a direção de José Padilha (Ônibus 174) é segura, firme, o efeito câmera na mão dá um tom de guerrilha ao filme que tecnicamente mostra-se muito eficiente. Isso sem falar na direção dos atores, que também se mostra muito competente, não existe ali, um ator que você possa dizer: “Esse é muito ruim” (Nem Maria Ribeiro como a esposa do Capitão nascimento? Tudo bem, me enganei, existe uma!).

Se pudesse, daria nota mil para o filme, mas como já foi estipulado que nossa cotação não pode exceder o dez, terei que ficar na nota dez mesmo, mas é pouco! Que fique registrado!
           
O filme entra em circuito nacional no dia 12/10 (teve seu lançamento adiantado por causa da Pirataria, não que eu ache, especificamente no caso de Tropa de Elite, que isso irá afetar a sua bilheteria, até porque Tropa de Elite é um filme para ser visto no Cinema, na tela grande, com todo o aparato de som e imagem). Então, termine de ler essa resenha aqui e corra até o cinema mais próximo da sua casa para reservar o seu ingresso porque senão...
TROPA DE ELITE
OSSO DURO DE ROER
PEGA UM PEGA GERAL
TAMBÉM VAI PEGAR VOCÊ.

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Diário do Festival
18/09/07

Nesse dia, foram quatro filmes programados para a imprensa, relacionados ao Festival do Rio 2007, infelizmente, só pude assistir a três: Entrevista (Interview), de Steve Buscemi, Sempre Bela (Belle Toujours), de Manoel de Oliveira e A cortina de Açúcar (El telón de azúcar), de Camila Guzman. E, com exceção ao filme Sempre Bela, o resultado foi bem animador. 



Entrevista conta a história de Pierre Beders (Steve Buscemi), um conceituado jornalista de política. Ele é designado para entrevistar Katya (Sienna Miller, linda!), uma famosa e bela atriz de novelas, e fica muito ofendido com isso, pois está acostumado ao mundo da política mundial;  ter de lidar com uma pessoa mais conhecida pelas fofocas nos tablóides do que pelo talento é um pouco demais para ele. É nesse choque de dois mundos diferentes, no entanto, que os dois encontram uma conexão mais profunda. Durante o período de um dia inteiro, eles trocam revelações e ofensas, em diálogos repletos de sarcasmo, intriga e tensão sexual.  

O filme é uma delícia de se assistir, não fosse um pequeno porém, pelo menos 85% do filme passa-se em um único cenário! E isso faz com que algumas piadas se tornem cansativas! Mas é só isso! No mais, o filme é relativamente curto (81 min.), com interpretações vigorosas dos dois protagonistas. Com destaque maior para Sienna Miller, mostrando que não é apenas mais um rostinho bonito no meio da multidão. E vale lembrar também que Entrevista é uma refilmagem do longa-metragem homônimo (2003) de Theo Van Gogh, cineasta holandês assassinado em 2004.
Enfim, uma bela Homenagem de Steve Buscemi à Robert Altman, a quem o filme é dedicado.
NOTA 8.
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Sempre Bela é a continuação de A Bela da tarde e também é uma homenagem de Manoel de Oliveira a Luis Buñuel. O filme conta o reencontro em Paris de Henri Husson (Michel Piccoli, revivendo o mesmo personagem do filme original) e Séverine Serizy (agora interpretada por Bulle Ogier, depois da acertada recusa de Catherine Deneuve), 38 anos após os fatos do filme original terem ocorrido. Ela o evita a todo custo, mas ele insiste em encontrá-la. Henri promete revelar um poderoso segredo, algo que Séverine há muito deseja saber, e a convence a jantar em seu hotel. Lá, ela pergunta o que ele revelou a seu marido, quando este estava mudo e paralítico. Mas Henri não quer dizer se falou ou não sobre a prostituição de Séverine. Para ele, o jantar é apenas outra forma de exercer seu sadismo. Assim é a história de Sempre Bela, a primeira vista uma história impactante. Mas tão rasa quanto um pires. Em minha opinião, Manoel de Oliveira já deveria estar aposentado há tempos, de tão chatos que são os seus filmes! No caso especial deste, ele é tão monótono que eu quase dormi nos primeiros 15 minutos de exibição. É um emaranhado de nada com nada, diálogos rasos, pobres, tomadas aéreas diurnas e noturnas de Paris exibidas à exaustão, assim como o close de uma estátua de Joana D´Arc, permeiam toda a exibição, enfim, uma total perda de tempo e dinheiro. O que me causou realmente espanto porém, foi ver a reação das pessoas ao término da exibição, foram tantos “OOOOOHs” e “OOOOOHs” que eu me senti um verdadeiro alienígena, seria eu um completo ignorante sem capacidade de perceber se o filme é bom ou ruim? Pergunto isso por que se para eu não ser considerado um ignorante eu tiver que gostar de Manoel de Oliveira, sim, eu assumo, sou um ignorante!!! E Se não fosse apenas por uma cena durante o jantar eu daria nota 0 para o filme, mas como tem essa cena, e ela é realmente linda, eu elevo um pouco a minha nota.
NOTA 1.
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A Cortina de Açúcar é uma reflexão sobre a Revolução Cubana a partir do retrato íntimo da primeira geração de cubanos nascidos depois de 1959. A diretora Camila Guzman volta a Havana, onde viveu a infância, e traça uma radiografia dos tempos áureos do regime e da posterior desilusão provocada pela crise econômica e política, pós-queda do Muro de Berlim. Nas ruínas da sua ex-escola, ela procura pistas dos antigos colegas de classe, os mesmos com quem dividiu os sonhos de infância e que, como ela, saíram do país depois de verem os seus ideais arruinados. Premiado em 2007 nos festivais de Buenos Aires, Cinéma du Réel Paris e Toulouse. Assim é a sinopse de Cortina de Açúcar, e como se pode perceber, é auto-explicativa. A diretora Camila Guzman mostrou ter uma sensibilidade acima da média, e você percebe isso na tela, a cada tomada, uma dose de nostalgia, o lirismo impera durante a exibição inteira, muito bom!
NOTA 7.

     
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