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Especial |
Daniele Costa
Contato
*Todas os filmes visto por este autor:
• 4 meses, 3 semanas e 2 dias • Lust, Caution • Antes que o diado saiba que você está morto • La Señal • XXY • O Assassinato de Jesse James Pelo Covarde Robert Ford • A Maldição da Flor Dourada • Tropa de Elite • GUARDIÕES DO DIA • À PROVA DE MORTE • I’m a Cyborg But That’s OK.
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Diário do Festival
02/10/7

4 MESES, 3 SEMANAS E 2 DIAS - Ao contar a alguns amigos que eu veria esse filme e lhes dizer sua temática, um pequeno debate logo teve início. Nele, expus a minha posição: sou a favor do aborto pela liberdade de escolha individual desde que a população passe por uma reeducação sexual estrutural.
Esse é um dos temas polêmicos mais discutidos no Brasil e no mundo. Religião e ciência batem de frente diariamente, num entrevero que parece sem fim. Estima-se que, no mundo, vinte e dois milhões de abortos ilegais são feitos por ano.
A pergunta é: é justo deixar que tantas mulheres arrisquem suas vidas com métodos carniceiros por não poderem tomar uma decisão tão particular? Ou ainda, por que as mesmas foram descuidadas e não tomaram as providências necessárias para que isso não acontecesse?
Essas são duas de muitas perguntas que sempre vem à pauta nas discussões sobre o assunto. E 4 meses, 3 semanas e 2 dias não foi feito para as responder.
A intenção do diretor romeno Cristian Mungiu é apenas mostrar uma dura realidade que, mesmo sendo mostrada na Romênia de 1987, ainda é muito atual em países como o nosso, onde uma mulher tem que apelar à ilegalidade e a açougueiros para poder interromper uma gravidez.
A intimista trama foca o drama das universitárias Otilia e Gabita. Vivendo em um país onde impera um regime político fechado e repressor, as duas vêem-se numa situação desesperadora quando a segunda engravida e, sem poder ter a criança, contrata um “médico” para eliminar o “problema”.
Dotado de profunda sensibilidade e crueza, o longa possui cenas aflitas e geniais como a que mostra Otilia correndo, com os nervos à flor da pele, pela cidade escura, a fim de encontrar um lugar para despejar o conteúdo de sua bolsa. E é esse nervosismo quase histérico que o diretor consegue captar com tanta presteza.
E ainda há espaço para o virtuosismo. O que dizer da longa tomada em que vemos a mesma, desesperada, avistando o que parece ser a última condução da noite para que possa voltar para sua amiga? Brilhante! Em certo ponto, a câmera fica absolutamente imóvel e acompanhamos Otilia descer por uma passarela para conseguir entrar no ônibus. Ao perdê-la de vista e ver o ônibus atravessando a tela somos tomados por uma sensação de tristeza indescritível. Mas o alívio vem rapidamente quando a avistamos ao longe conseguindo embarcar após correr atrás do ônibus já em movimento.
Essa cena exemplifica bem o clima do filme que é assustador. Gabita está correndo risco de vida e a urgência é passada de forma competente e vicinal.
O filme é recheado de cenas memoráveis. Uma delas é inesquecível (não sai da minha cabeça de jeito nenhum). Não ouso descrevê-la, só digo que o espectador certamente reconhecerá quando a vir.
E depois de duas horas de aflição, o filme traz um desenlace fenomenal. Sabendo que aquela ocasião mudará suas vidas e seu relacionamento para sempre, as amigas ficam frente a frente num silêncio ensurdecedor e incômodo.
Incômodo. Uma boa palavra para definir o longa de Mungiu que consegue despertar o tempo inteiro uma sensação ruim, de desajuste, que não consigo descrever bem.
O fato é que, sendo o aborto condenável ou não. É inegável que ele é um método desagradável e insólito, principalmente em situações como essa. E eu duvido que qualquer mulher o faça sem sentir uma profunda melancolia. Seja no açougueiro ou num hospital de luxo. NOTA 9,5.
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LUST, CAUTION - Lee é um cineasta marcado pelo dom da discórdia. Todos os seus trabalhos mais recentes e expressivos são alvos de opiniões contraditórias. Aclamado por muitos, odiado e desprezado por outros. Mas não é assim com todos os gênios?
Eu sei que o chamar de gênio é uma precipitação um tanto “fanzóide”, mas eu posso, seguramente, defini-lo como um dos melhores cineastas em atividade. O cara marcou o cinema com a poesia de O Tigre e o Dragão, dividiu platéias no mundo inteiro com o subestimado Hulk e, mais uma vez, marcou a sétima arte com sua obra prima, Brokeback Mountain.
Agora ele retorna, não menos notável e polêmico, com Lust, Caution, que se mostra outra pérola de uma filmografia que fica cada vez mais interessante.
O ano é 1938 quando Wang, uma jovem estudante e atriz de teatro, na China ocupada pelos japoneses, alia-se a um grupo de rebeldes com a missão de exterminar o “traidor” Sr. Yee, ministro chinês favorável à ocupação nipônica.
Infiltrada em sua casa sob o disfarce de uma jovem burguesa chamada Mak, Wang logo se surpreende com o jeito austero e misterioso do ministro e, para acelerar o cumprimento de seu dever, logo começa a seduzi-lo.
A princípio, o plano falha, mas as impressões trocadas entre os dois ficam marcadas em seus íntimos e, quando eles se reencontram em Xangai (Wang ainda sob a alcunha de Mak, agora mais envolvida com o grupo rebelde), três anos mais tarde, acabam se entregando a um tórrido e luxurioso romance.
E é justamente desenvolvendo essa ligação que Lee emprega toda a sua habitual dedicação. Uma das principais características do diretor é o modo como ele desenvolve seus personagens: sempre retratando seus sentimentos de maneira ambígua e construindo indivíduos com forte personalidade e conceitos morais amplamente influenciadores.
Assim são Wang e Yee, escravos de uma posição política desconfortável, ela tendo que vender seu corpo e sua identidade a um homem bruto e a uma célula política e ele estando preso num mundo de horror e torturas e com o peso na consciência por estar ajudando a ir contra seu país de origem (notar esse traço nele é um pouco difícil, para mim, na belíssima cena do restaurante japonês, quando Wang canta para ele, ficou evidente o amor e a saudade que ele sente pela cultura de seu país, cultura essa que ele ajuda a tentar eliminar).
E as tão faladas cenas de sexo são realmente impactantes. Não num sentido negativo. É na entrega do sexo que se encontra a força da paixão adquirida por eles. E o sexo é ardente e maravilhosamente filmado. Está totalmente dentro do contexto e é de suma importância na trama para que possamos entender o relacionamento de Wang e Lee.
Wang acaba se envolvendo mais do que deveria. E no clímax de sua incumbência é que ela percebe que a máscara de atriz havia caído há muito tempo.
Com esse material emocionante, Lee compõe um filme admirável, com o mesmo clima contemplativo de Brokeback e uma carga emocional quase tão sufocante quando o mesmo. Aliado a uma equipe perfeita. Da direção de arte à fotografia ainda somada a uma trilha sonora comovente (que eu chuto que, no mínimo, vá concorrer ao Oscar e torço para ganhar), Lee novamente nos faz sair do cinema um pouco taciturnos, totalmente envolvidos no belo arco dramático que ele traçou. NOTA 9,5.
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ANTES QUE O DIABO SAIBA QUE VOCÊ ESTÁ MORTO - Lumet não está morto. Do alto de seus 84 anos, ele concebe o melhor filme visto por mim no Festival do Rio deste ano. Olha que não sou apenas eu que estou aclamando sua mais nova obra, ecos de aplausos vindos dos mais importantes festivais internacionais apontam o longa como um dos melhores do ano e um dos possíveis candidatos ao Oscar.
Sabe aquele ditado que diz que “tudo pode ficar pior”? É numa situação parecida que a família Hanson e seus antagonistas encontram-se no filme quando um crime aparentemente perfeito dá errado. As conseqüências serão trágicas e o castigo será rápido, numa viagem rumo ao inferno sem escalas e sem perdão.
Quebrados financeiramente, Hank e Andy vêem suas vidas desmoronarem. Hank não consegue pagar a pensão de sua filha e essa situação humilhante assola seus pensamentos a todo momento. Andy tem dificuldades em manter seu casamento e enfrenta uma dura circunstância: a possível descoberta de suas atividades fraudulentas no trabalho. O modo como eles encontram para sair desse inferno e chegar ao paraíso fará suas vidas serem jogadas num limbo de sofrimento, descobertas e catástrofes.
E é figurando essa queda livre que Lumet imprime sua genialidade. Combinado com o brilhante roteiro de Kelly Masterson, o diretor entrega-nos uma das melhores performances de sua carreira. Criando uma atmosfera de desesperança e culpa, Lumet evidencia a dor de seus personagens frente àquela horrenda transgressão com magnificência.
Usando uma narrativa não linear que serve perfeitamente para mostrar pontos de vista diferentes sob um mesmo acontecimento, o cineasta oferece-nos uma direção segura e precisa com caráter urgencial e maravilhosamente estilizada.
A tragédia da família Hanson remete um pouco à de Sonny, da obra prima Um Dia de Cão. Chega a níveis absurdos, beirando à comicidade. Onde os personagens e nós perdemos toda a esperança de redenção ou de uma reviravolta favorável.
O elenco primoroso é um dos maiores responsáveis pelo êxito de Lumet. Hoffman está melhor do que nunca na pele de Andy, adotando uma postura sempre serena, ele nos surpreende e assusta em seus momentos de fúria. Tomei desfila pelo filme exibindo uma exuberante nudez e uma admirável segurança vivendo a esposa amorosa que trai o marido com o irmão deste, Hank, que é vivido com intensidade por Ethan Hawke. Para completar o time temos Albert Finney que, apesar do exagero em certas cenas, formula o personagem que mais sofre durante o filme e consegue, facilmente, passar essa dor ao espectador.
Lumet realizou uma tragédia que é, ao mesmo tempo, épica e intimista e o nome do filme mostra-se mais que adequado: aproveite seus últimos momentos, faça as possíveis reparações, veja as merdas que você fez e goze de últimos momentos no paraíso ANTES QUE O DIABO SAIBA QUE VOCÊ ESTÁ MORTO. NOTA 10.
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Diário do Festival
29/09/07

La Señal - Na minha última resenha, ressaltei a evidente qualidade do cinema argentino que vem se solidificando como detentor da melhor e mais produtiva indústria cinematográfica da América Latina, desenvolvendo uma linguagem bem particular e apresentando trabalhos fortes, como o próprio XXY. Então, como não pude conter meu entusiasmo frente ao cinema de nossos hermanos, fui conferir mais um, La Señal.
Os atrativos eram bem sedutores: Noir situado numa época de grande importância política para o país (fim da era Péron) e ainda dirigido e estrelado pelo talentoso ator Ricardo Darín. Com esses “prós” à seu favor não poderia dar errado, não?
Deu. E, infelizmente, nem há muito que escrever sobre o longa. Não que me faltem palavras, o problema é que o trabalho de Darín, Martin Hodara (que também assina a direção) e Eduardo Mignogna é inexpressivo em demasia. Uma pena, pois desperdiça um enorme potencial.
O estreante diretor desenvolveu um “filme de gênero”. Daqueles que contém todos os elementos do estilo, mas que não adicionada nada de diferente ou interessante, além de ser feito em cima de um roteiro ralo e confuso, o que torna a experiência ainda mais decepcionante.
Está tudo lá, o anti-herói/detetive particular cheio de charme, vivido pelo próprio Darín, que, é claro, está sempre destilando sarcasmo, a femme fatalle (encarnada pela fraca Julieta Diaz), o amigo sensato, os De Sotos, o figurino elegante, os cigarros, as sombras, “o crime”, a música e o final trágico. Ou seja, tudo o que um bom Noir pede.
Só que um Noir digno de nota também pede uma trama complexa, com personagens bem construídos, o que este filme não mostra em momento algum. Fica só na mesmice, no básico, como se apenas os elementos listados acima fossem necessários para agradar aos fãs do gênero. É maçante! E eu ainda ficava na esperança de me deparar com alguma reviravolta surpreendente, que teimava em não vir.
E enquanto a sessão seguia, a sensação de perda de tempo só aumentava. Perdi a conta de quantas vezes olhei o relógio. Filme Noir não é para ser somente estiloso e bem acabado, tem que ser tenso e marcante. Esse La Señal é apenas tedioso. NOTA 4,0.
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Diário do Festival
28/09/07

XXY - Dificilmente, eu escolho um filme apenas pela sinopse. Especialmente no festival, onde sobram propostas interessantes e faltam tempo e dinheiro para conferi-las. Então, eu acabo ficando com os filmes que badalaram nos principais festivais ou ainda, com filmes cujos diretores e atores são admirados por mim.
Porém, assim que bati os olhos sob a premissa deste XXY, interessei-me. Tanto, que me dirigi do conforto da minha casa a Botafogo às onze da noite, mesmo depois de um dia cansativo no trabalho.
Alex, construída pela talentosa atriz Inês Efron, é uma menina nascida sobre a síndrome de klinefelter que lhe confere características de ambos os sexos e tem que lidar com problemas familiares enquanto desenvolve um tenso romance com o tímido Álvaro (Martín Piroyansky).
Partindo de um ponto original e corajoso, a estreante diretora Lucia Puenzo aprofunda-se no tema com inesgotável sensibilidade. Trata Alex como mais uma adolescente passando por uma crise existencial (tão comum nesta ingrata fase da vida). Cheia de dúvidas e emoções à flor da pele que a todo momento se intensificam devido a sua situação.
Seu dilema não é muito diferente do cidadão ordinário. Num mundo onde quem foge dos padrões comportamentais ou físicos é logo taxado como freak, ou algo pior, a luta pela própria aceitação é um desafio interno, intenso e extremamente importante para a formação psicológica, visando definir o nosso papel na sociedade não sendo “apenas mais um” ou aceitando suas limitações e inabilidades, procurando sempre resgatar os pontos positivos que fazem a diferença.
Esse é o principal de muitos temas que o longa aborda de modo delicado e realista. E Alex encontra-se constantemente envolta por pessoas que vivem conflitos tão atraentes quanto os dela. Seus pais, por exemplo, vivem entre a vontade de querer afastar a menina da “hipocrisia do mundo” e a decepção por notar que esse mal inerente ao ser humano irá acompanhá-los a qualquer lugar em que pretendam estabelecer-se e até mesmo dentro de sua própria casa.
Seu pai, Kraken – vivido pelo intenso e expressivo Ricardo Darín, é uma das figuras mais profundas de Puenzo. Biólogo dedicado e apaixonado por sua profissão, vê com pesar o afastamento da filha e sua inutilidade em ajudá-la a fazer a escolha certa, sofrendo, juntamente com Alex, como se todos os seus problemas fossem da responsabilidade dele.
Até Suli, a mãe, que, aparentemente, parece tomar mais distância e precaução com relação ao problema, aos poucos vai mostrando-se extremamente terna e cuidadosa. Personagens opostos aos pais de Alvaro. Frios e distantes, não têm sequer a sensibilidade para conhecer as dúvidas e enfrentamentos que assolam as idéias do rapaz.
Na soma de todos esses êxitos, a diretora aplica seu talento de forma discreta, normalmente acompanhando o fluir da trama sem grandes intervenções, o que considero um mérito. Ao lado desse estilo, a fotografia traz um aspecto multifacetal à película, colocando lado a lado paisagens áridas, praianas e verdes, num cenário que lembra solidão.
Com um desfecho realista, mas que poderia ser mais ousado (confesso que esperei um final à lá Boogie Nights), XXY mostra-se a grande surpresa do festival para mim, até agora. E expõe o incontestável avanço do cinema Argentino ao mundo. NOTA 9,0.
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Diário do Festival
28/09/07
O Assassinato de Jesse James Pelo Covarde Robert Ford - Assistir a filmes no cinema São Luiz é sempre um prazer. O Largo do Machado é um dos meus lugares preferidos da cidade. Ele condensa perfeitamente o lado antigo vindo do Centro indo de encontro ao refinamento da Zona Sul. E ainda tem a galeria Condor! Impossível resistir às esfihas da rotisseria. O dia estava agradável, meio nublado, eu estava satisfeita com as minhas esfihas, entrar no clima western foi fácil, fácil.
Mas O Assassinato de Jesse James Pelo Covarde Robert Ford não é um western, ou não pode ser, simplesmente, categorizado como tal. O filme é de tamanha complexidade que, dá-lo esse rótulo banal, seria uma afronta à excelente obra composta por Andrew Domink e Ron Hansen.
Eles nos apresentam os últimos dias de um dos maiores foras-da-lei da história estadunidense: o enigmático Jesse James. Cansado da vida transgressa e confuso com suas diretrizes, vemos o bandido aplicar seu último golpe e acompanhamos sua melancólica trajetória até que um tiro traiçoeiro tire-lhe a vida.
Ao mesmo tempo, embarcamos na psique de Bob Ford. Fã de James desde seus primeiros anos de vida, passou a infância sonhando com uma vida de grandes feitos ao lado de seu herói, mas quando sua falta de habilidade sobressai-se, começamos a notar sua ambição e, por conseqüência, seu declínio moral.
Com base nestes dois fantásticos personagens, a película flui com um forte clima melancólico e desesperançoso. Clima esse ressaltado pela pálida fotografia (uma das favoritas ao Oscar) e pela bela e tocante trilha sonora. Os planos contemplativos e silenciosos contribuem ainda mais para a formação desta aura bucólica e decadente tão importante e influente na trajetória dos personagens.
A figura de Jesse James é notavelmente encenada por Brad Pitt, que constrói o personagem envolto em mistério e com um tom muito ameaçador. A performance é contida, mas inspirada. James impõe respeito, todos os personagens parecem temê-lo e a postura de Pitt é um dos principais motivos para o sucesso dessa impressão.
Já Casey Affleck interpretando Bob Ford oferece a grande atuação do filme. O ator compõe o assassino com sensibilidade, sempre preocupado em humanizá-lo mesmo em vista de suas atitudes fracas, egoístas e mesquinhas. Ele faz com que o espectador desconfie de Ford em todos os momentos e, ainda assim, importe-se com o seu destino.
Com mais de duas horas de duração, o filme é um pouco lento e, às vezes, perde um pouco do ritmo e se torna arrastado e cansativo. Essa impressão é fruto de seu ambiente sombrio, e acho que desagradará a boa parcela do público. Contudo, à medida que o final se aproxima, o ritmo é recuperado e o interesse recapturado.
São nesses momentos, que James, do alto de sua soberania, mostra suas fraquezas e nos permite a identificação com ele, lamentando assim, seu triste fim. O filme termina num clímax mais que perfeito: o destino de Bob Ford é de uma ironia cruel e inesquecível, daquelas que nos fazem sair do cinema com um nó na garganta. NOTA 8,5.
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Diário do Festival
28/09/07
A Maldição da Flor Dourada - Minha história com este longa data de meses antes do Festival. Entusiasta do belo cinema de Yimou e da cultura milenar chinesa, eu vi, com pesar, a estréia do filme ser adiada por duas vezes e, por um momento, cheguei a pensar que ele seria lançado diretamente em DVD.
Felizmente, o filme foi um dos primeiros confirmado para o Festival 2007 e, logo que os ingressos foram postos à venda, garanti o meu.
Só que, dessa vez, eu me decepcionei um pouco com o Yimou. Fui ao cinema esperando ver algo além de belos figurinos, cenário e fotografia. Esperava, acima de tudo, toda a poética e filosofia chinesa mostrada em filmes como Herói e O Clã das Adagas Voadoras e, principalmente, seu lado político, mas não encontrei.
O que vi foi uma trama batida, mas bem conduzida. Isso graças ao talento da bela Gong Li e do imponente Chow Yun-Fat, que interpretam, respectivamente, imperatriz e imperador e, praticamente, levam o filme nas costas.
Os acontecimentos dão-se na véspera de um importante festival chinês. Logo no início do longa, percebemos que o Imperador já vem tramando para deixar sua consorte louca e ela, enquanto isso, organiza uma rebelião para o tirar do poder. Intriga política que é envolvida por trágicos dramas familiares que aos poucos vão se tornando mais relevantes que o próprio trono imperial.
É uma tragédia abarrotada de clichês que mescla momentos realmente emocionantes com outros que acabam desviando para o melodrama. E, à medida que o longa avança, esse defeito só se mostra mais forte, culminando num final já mais do que conhecido nas tragédias shakesperianas.
Entretanto, o esmero aplicado nos detalhes técnicos ainda impressiona com figurinos e cenários luxuosos que retratam a despropositada opulência da realeza imperial. E, de fato, é tudo meio exagerado, mas se aplica perfeitamente no contexto histórico: a dinastia Tang foi uma das mais ricas da China, o que justifica, por exemplo, a absurda quantidade de serviçais no palácio.
No entanto, a utilização desse claustrofóbico cenário palaciano acabou relegando a segundo plano um dos principais atrativos dos filme de Yimou: a fotografia. Mesmo que a visão de Pátio Imperial tomado por crisântemos seja deslumbrante, ela não se compara com os quadros que o diretor compôs na cena do embate entre Neve Voadora e Lua, por exemplo.
As cenas de batalha e de luta são, também, inferiores tendo em vista seus outros filmes. Os únicos momentos de real destaque dão-se em razão da ameaçadora presença da guarda secreta imperial. Essa sim, quando entra em ação, remete às originais e bem elaboradas coreografias utilizadas por Yimou.
Mas, mesmo apresentando essas imperfeições, A Maldição da Flor Dourada ainda oferece um bom cinema. Em nenhum momento, o filme torna-se cansativo ou chato e, por mais que a história não traga nada de novo, acompanhar os personagens e seus jogos de intriga proporciona um entretenimento interessante. NOTA 6,0.
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Diário do Festival
26/09/07
Tropa de Elite - "Numa guerra, há heróis dos dois lados."
Não, não nessa aqui...
Aqui não há heróis. Aqui nós temos seres humanos brutalizados dos dois lados da batalha enquanto a elite discute os problemas da sociedade com um baseado na mão.
Aqui nós temos uma polícia mal armada, mal paga e mal escolhida que faz as escolhas erradas.
Nossa força policial "de elite", anticorrupção, usa táticas ditatoriais de tortura para punir os bandidos que não são os principais culpados pela situação em nos encontramos. Essa força de elite, que se diz se basear na estratégia, acredita que o melhor meio de se combater o tráfico é guerreando com os bandidos para tirar suas armas.
E finalmente temos a nossa querida burguesia "politicamente engajada", criadora de ONGs e que realmente se importam com os meninos do morro. Bem, só se importam até aquela vontade de "apertar um" bater, porque quando ela vem e o cidadão precisa comprar seu bagulhinho, ele não pensa no que o tráfico implica na vida desses mesmos meninos que eles defendem?
Tropa de Elite tem alguns diálogos fracos e situações tipicamente clichês (mulher do policial fodão grávida, patricinha envolvida com fodido etc), mas mostra com coragem e competência algumas das muitas realidades dessa briga. E mesmo que a mesma já tenha sido explorado com mais eficácia em obras como “Notícias de uma Guerra Particular” ou até mesmo maravilhoso documentário “174”, de José Padilha, sua força se mostra justamente pelo tom popular do filme, ou seja, vai agradar porque além de tudo é um filme de ação.
O efeito câmera na mão dá um tom de guerrilha ao filme que tecnicamente mostra-se muito eficiente. A cenografia é um primor e a fotografia não fica atrás. Voltando à direção, Padilha cria boas cenas de conflito com muita tensão e cenas fortes, sem apelação e sem covardia. Um ótimo trabalho.
O maior destaque está com o brilhante Wagner Moura, o ator confere tanta convicção ao personagem que mesmo quando condenamos alguns de seus atos entendemos o que o implica a agir assim, e de certa forma, até o perdoamos. Expressivo e com uma presença fabulosa em tela, Moura se consolida de vez como o melhor ator brasileiro da geração... disparado!
Um filme memorável que, certamente, desagradará a muitos pela sua visão um tanto fanática sobra a guerra do tráfico. Eu particularmente, encaro esta visão como mais uma das bravas críticas que o filme faz ao "sistema".
Pra finalizar... achei um puta filme e indico uma conferida.
Uma cena ficou muito marcada pra mim:
No final do filme, os riquinhos fazem uma passeata pedindo paz porque um dos seus foi vitimado pelo conflito.
O pacífico Matias (André Ramiro), emputecido, diz algo do tipo:
"A elite só se incomoda com a violência quando perde um dos seus. Ninguém faz passeata pedindo paz quando um policial é morto. Quando vejo uma porra dessas, me dá vontade de fuzilar esses filhos da puta."
Outra do Matias que é demais:
"Vocês riquinhos, do alto dos seus apês, nas suas faculdades caras não sabem nada da realidade, sabem apenas o que lêem e vêem nos seus jornaizinhos."
É fácil ser engajado assim, não? NOTE 8,0.
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Diário do Festival
26/09/07

GUARDIÕES DO DIA - “Por que eu não fiquei em casa?” Esse foi o único questionamento que esta catástrofe conseguiu despertar em mim. O nome da bomba é GUARDIÕES DO DIA.
Eu nem havia criado grande expectativa acerca desse filme, na verdade, a premissa já não me agradava. Mas o fato do filme ser russo e estar na mostra MIDNIGHT minimizou um pouco do medo e eu me dirigi até com bom humor ao Palácio (cinema lindo!) numa quente tarde de domingo.
Porém, infelizmente, me deparei com uma continuação (eu não sabia disso até então) de um filme estúpido, uma espécie de Anjos da Noite cossaco. Na trama (pfff) um assassinato desencadeia a quebra de uma trégua milenar entre seres sobrenaturais. Bem e mal se enfrentam nas ruas de Moscou. De diferente só o “Moscou”, né?
Pronto, agora é só colocar todos os clichês do gênero, retirar toda a lógica, coerência e o bom senso, jogar tudo numa lata de lixo e sacudir à exaustão. O resultado desta mistureba tornou-se a pior sessão de cinema da minha vida (e olha que eu sou sobrevivente de uma sessão de A Liga Extraordinária).
E tem mais, para piorar a situação, o filme ainda é dublado EM INGLÊS!! E com direito a sotaque russo e tudo! Nem preciso dizer o quão canastrona essa dublagem é. E prometo que, daqui por diante, não mais reclamarei das dublagens brasileiras.
Contar as cenas ridículas do filme é uma tarefa hercúlea e lembrá-las, é doloroso. Uma delas é particularmente grotesca: quando o mocinho embarca naquele clichê batido de “procurar arquivos secretos na internet para ajudar a solucionar o mistério” algo inusitado acontece: uma janelinha bem familiar aparece no canto da tela mostrando que o vilão Zavulan (olha o nome) está online no MSN. Isso mesmo!! Ele aproveita que o personagem Anthon está online e ameaça-o via messenger!! Só faltou usar o miguxês, e confesso que me diverti com a idéia: “preparE-sI...AnthON...VUxXxe iRaH kAihh......”......
Nesse momento, eu cheguei a pensar que poderia encarar o filme como trash, mas não dá, ao que parece o diretor, Timur Bekmambetov, leva-se a sério. Será que ele realmente acha que seus cortes rápidos e que o excesso do artifício da câmera lenta são suficientes para fazer com que as cenas de ação sejam eficazes? Na verdade, a direção aqui é irrelevante (assim como roteiro e elenco, aliás), Bekmambetov parece querer apenas uma desculpa para jogar na cara do espectador um sem número de efeitos especiais (que não são mais do que meia boca) em tomadas totalmente despropositadas. Vide a cena do “pití” dado por uma morena fatal a bordo de um possante vermelho. Constrangedora!
Antes de finalizar, só me resta prometer mais uma coisa. Comprometo-me a, a partir de hoje, não mais criticar as novelas brasileiras que usam como tema o sobrenatural. Essas são um milhão de vezes mais bem realizadas do que esta bomba.
Assim sendo, é melhor esperar a próxima novela de vampiro do que perder tempo com tamanho lixo. NOTA 0.
Ainda bem que um certo diretor que amo estava lá para salvar o meu dia...
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À PROVA DE MORTE - Ao procurar a palavra cool na wikipedia, por exemplo, o primeiro dado a ser mostrado deveria ser uma grande e nítida foto de Quentin Tarantino. Desculpem o clichê, mas vai ser cool assim no inferno!!!
Ele entende do riscado, disso ninguém pode discordar. E À Prova de Morte é uma divertida e bem filmada homenagem ao cinema que o inspirou.
É incrível, ele não consegue não ser brilhante. Mesmo com a proposta de fazer um filme trash que remete às antigas grindhouses, Tarantino mostra, como sempre, um cinemão de qualidade indiscutível.
O filme retrata, em duas partes visivelmente distintas, a sede de sangue de Stuntman Mike (vivido por Kurt Russel, ao mesmo tempo divertido e assustador), que sempre está atrás de “namoradas” para exterminar com o seu carrão “à prova de morte”. Mas sua sorte muda de lado quando se depara com garotas tão duronas quanto ele.
E que garotas! As meninas esbanjam sensualidade e descontração com performances seguras e convincentes. Mas não pensem que o filme adota uma postura machista, pelo contrário, o diretor faz questão de mostrá-las como mulheres fortes, com traços de personalidade bem definidos e um vigor invejável. Poderosas (e lindas) em seus shortinhos, as oito deusas desfilam pela película, sempre proferindo os tão famosos (e adorados) diálogos triviais característicos de Quentin.
Esses, já não são mais tão brilhantes como em seus primeiros filmes (mais precisamente em Cães de Aluguel e Pulp Ficton), mas ainda são dignos de nota. Tarantino sabe como ninguém transformar uma típica conversa de bar em base para um roteiro de cinema! E sem falar nas imperdíveis referências à sua obra: como no momento em que Jungle Julia está escolhendo uma música no jukebox e percebemos que Mirislou passa rapidamente entre as alternativas, ou quando o celular de Rosário Dawson toca ao som de Twisted Nerve.
Outro destaque que não pode ser deixado de lado é a já clássica cena da perseguição. Eu nunca fui muito fã dessas perseguições em alta velocidade com carros turbinados, mas essa é, no mínimo, eletrizante. Os movimentos de câmera aqui interferem diretamente no desenvolvimento da ação e em nenhum momento o ritmo é quebrado. É uma pena que o clímax do entrevero entre Mike e as meninas tenha sido um tanto previsível e até sem graça.
Mas este é apenas um pecadilho que não passa nem perto de comprometer o resultado final do filme. Em uma palavra: COOL!! NOTA 8,0.
P.S.: Já estou à procura da trilha sonora, nem preciso dizer que a compilação é maravilhosa, né?
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Diário do Festival
24/09/07
Começando o diário...
No meu primeiro dia de festival, só pude conferir um filme. Não quero soar melodramática, mas tenho que dizer: que droga de vida! Ou falta tempo ou (geralmente) falta dinheiro! Então a gente se vira como pode, pára de chorar e faz o máximo pra ver a maior quantidade de filmes possível. Vou esforçar-me para ultrapassar a minha cota do ano passado, que foi de 10 filmes. Assim sendo, começarei este diário. E posso dizer que comecei com o pé direito – I’m a Cyborg But That’s OK.

Park é um dos um dos grandes nomes da safra de diretores da atualidade. Isso é um fato. Seu estilo marcante, dotado de uma poética de violência urbana, já deixou marcas na sétima arte, principalmente, com a sua aclamada trilogia sobre a vingança. E é justamente desta visão e estilo que o consagraram que ele foge neste seu mais novo filme.
Foge sim, mas não tanto. O preciosismo milimetricamente elaborado, as cenas irreverentes e, é claro, a violência, ainda se fazem presentes nesta excêntrica história de amor.
Nela, a apática Young-goon acaba num manicômio por achar que é uma ciborgue. Nestas condições, ela se priva até de se alimentar (tem medo que a comida estrague suas engrenagens) e numa tentativa de carregar suas energias quase acaba provocando a própria morte. Seus delírios são intensos e suas conversas com máquinas de refrigerante (máquina de chá, na verdade), lâmpadas, relógios e telefones são hilárias. No entando, Young-goon tem uma missão: restituir à sua avó a velha dentadura que foi esquecida por ela no momento em que os temidos “homens de branco” levaram-na.
Para onde? Para o manicômio, ora! Por quê? A senhora achava que era uma ratazana e passava o dia roendo rabanetes em companhia de outros roedores.
Aqui, a loucura é tratada com uma inventividade brilhante! A própria Young-goon passa por uma espécie de crise existencial por não saber o sentido de sua existência, o porquê dela ter sido construída. E mais, a menina-ciborgue ainda tem que lidar com um caminho moral árduo e estranho: os sete pecados capitais dos ciborgues, que são: compaixão, tristeza, inquietação, hesitação, divagação, culpa e gratidão. Sendo a compaixão o pior dos pecados.
Os outros personagens não são menos profundos: da menina que observa tudo através de um espelho ao homem, incrivelmente polido, que anda para trás e acha que é o culpado por TUDO de mal que acontece a seu redor, todos são notáveis. Com essa gama de personagens fantásticos fica impossível não cativar o espectador.
Outro personagem que merece destaque é Park Il-sun, vivido pelo cantor pop Rain. Considerado pelos médicos esquizofrênico e anti-social, o rapaz oscila entre momentos de encantadora doçura e rompantes de agressividade inusitados. Ele divide com ela traumas parecidos, vindo do âmbito familiar. Sua curiosidade e seu estranho “dom” são seus grandes destaques. Il-sun acredita que é capaz de roubar a personalidade e as perturbações dos outros pacientes. E nas tomadas em que o vemos realizar esse feito a diversão é garantida. Quando Young-goon pede para ele roubar sua compaixão, o rapaz se encanta com a moça e passa a cuidar dela.
A relação dos dois se desenvolve de forma natural e bela. A química existente entre os atores torna tudo mais fácil. Aproveitando que eu entrei neste quesito, quero ressaltar o talento de todo o elenco. Todos estão estupendos! Eu fico pasma em ver, nas produções coreanas, como os atores são expressivos e envolvidos. Su-jeong Lim, que vive Young-goon, e Rain formam o casal do ano!
Para completar a sucessão de méritos, tenho poucas palavras sobre a direção de Park. Sua técnica me conquistou completamente e aqui ele exibe uma ótima forma. Quando retrata os devaneios dos pacientes, a inventividade que ele soma ao seu inegável talento nos brinda com tomadas oníricas e cheias de beleza e bizarrices com destaque às cenas do massacre (tinha que ter, senão não é Park) e a da viagem de Young-goon musicada por Il-sun.
Enfim, aqui vemos um Chan-Wook trabalhando sobre uma abordagem diferente, inusitada e não menos interessante que as de seus outros filmes. Sua estética de cores fortes sempre em contato direto com a trama é mantida, assim como seu estilo como um todo. Novamente, ele faz um belo trabalho por trás das câmeras (sou fã, não tem jeito). O filme ganhou o prêmio Alfred-Bauer, em Berlim na categoria de obra inovadora. Acho que não seria possível justiça maior. De fato este prêmio foi para ótimas e merecidas mãos.
NOTA 8,5
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