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Especial |
Francisco Carbone
Contato




*Todas os filmes visto por este autor:
Jogo de CenaO Escafandro e a Borboleta A Era da InocênciaDesejo e ReparaçãoLust, CautionParanoid ParkO Clube de Leitura Jane AustenAntes que o Diabo saiba que Você está MortoA Floresta dos LamentosA Via LácteaEm Paris4 Meses, 3 Semanas & 2 DiasO Preço da CoragemDeserto Feliz  • Tracey DespedaçadaImpério dos SonhosLa Señal  • Planeta TerrorNascido e Criado  • Like a VirginO Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert FordSavage GraceZoofiliaI’m not ThereSem FôlegoO Expresso DarjeelingXXYTrabalho de Homem Mulher na PraiaEu não quero Dormir SozinhoValenteA Culpa é do Fidel! O Preço a PagarSombras Elétricas • Medo da Verdade • Sonhando Acordado • A Felicidade dos Sakai Hallam FoeSíndromes e um Século • Uma Moça Dividida em Dois • Nome Próprio  Propriedade Privada • Silenciosa Luz • Um Jogo de Vida e Morte • À Prova de Morte • O Sol  • Irina Palm • Mundo Livre
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Diário do Festival
03/10/07 - Dia 13

Chegamos ao penúltimo dia do Festival do Rio. Quer dizer, penúltimo dia para o fim do Festival; para mim, é o último dia de fato. Questões que independem da minha vontade obrigaram-me a perder o último e importante dia onde serão exibidos dois vencedores de Berlim esse ano (O Casamento de Tuya e O Outro). Mas vamos começar o diário de hoje com as críticas aos dois últimos filmes do Festival. São eles:



Jogo de Cena
– Eduardo Coutinho está de volta, e é incrível como o mestre do documentário nacional não perde seu vigor, trabalho após trabalho. Dois anos após a aula de cinema chamada O Fim o e Princípio, que partia de idéia alguma para cair de pára-quedas na realidade de uma cidade de desvalidos, ele nos presenteia com um dos projetos de metalinguagem mais interessantes dos últimos tempos. Armado de um anúncio no jornal pedindo que mulheres comuns fossem contar suas histórias de vida a ele, Coutinho recebe e ouve oitenta e três mulheres, seleciona vinte e três dessas e arma, com atrizes profissionais, um jogo onde elas interpretam essas histórias. Só que, em dado momento, perdemos a noção de quais dessas histórias são das próprias atrizes e quais são encenações. Grandes mulheres como Marília Pêra, Andréa Beltrão e Fernanda Torres emprestam seus talentos ao lado de outras também grandes mulheres, só que anônimas. O resultado é nunca menos que fenomenal, e Coutinho mais uma vez nos entrega uma obra de qualidade indiscutível, contando dessa vez com nossa interação, já que entramos na brincadeira de adivinhar o que é real ou não, transformando o cinema mais uma vez com seu talento de enormes proporções. NOTA 10.
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O Escafandro e a Borboleta – a minha despedida deliciosa do Festival é simplesmente com o vencedor do prêmio de direção esse ano em Cannes, um longa maduro de Julian Schnabel (de Basquiat e Antes do Anoitecer), sempre um diretor premiado, mas que chega ao ápice do reconhecimento aqui. Mesmo que um passo atrás de seus longas anteriores, há de se louvar a eterna busca por coerência no cinema de Schnabel, preocupado desde sempre com os rumos das vidas de grandes nomes contemporâneos. A príncipio um grande artista plástico, não foi de se estranhar que sua estréia na telona fosse com a vida de um, o grande pintor e apadrinhado de Andy Wahrol, Jean Basquiat. Depois de passar a limpo a vida do poeta cubano Reynaldo Arenas em Antes do Anoitecer, ele chega ao universo de Jean-Dominique Bauby, editor-chefe da Elle francesa, que um dia sofre um tipo de paralisia que acaba com sua vida, limitando seus movimentos ao simples piscar de olhos. Com o cérebro funcionando mesmo assim, ele desenvolve uma técnica com sua enfermeira e, a partir de piscadas relacionadas ao alfabeto, escreve um livro sobre sua história, O Escafandro e a Borboleta. Uma história de vida impressionante, comparada ao protagonista de Mar Adentro, Bauby queria morrer, já que não podia viver com dignidade. E, aliados a técnicos invejáveis (a fotografia de Januzs Kaminski é impressionante), Schnabel constrói um sensível longa em prol da vida, cujo curto arco dramático é o único defeito numa vida breve, mas corajosa e emocionante. Schnabel tira o máximo disso, e se eleva cada vez mais como realizador. NOTA: 9.

E assim foi mais um Festival do Rio, pessoal. Foram 48 filmes pra mim (ufa!), dos quais tentei passar o máximo de informação pra vocês, cobrindo as tendências do Festival, focando filmes imperdíveis e dispensáveis, e estreitando um laço de confiança com vocês que espero manter nos meus próximos textos aqui no site. Espero ter agradado bastante, embora não almeje a unanimidade, já que ninguém é unânime. Mas, se apenas uma parte tiver se divertido e se inteirado do universo do Festival (e do cinema em geral), por alguns breves momentos, meu serviço terá concretizado-se. Informar e entreter são as minhas metas.

Depois de duas semanas de brigas com gerentes, corre-corre entre bairros, ingressos disputados a tapas, filas intermináveis, amizades aproximadas, muita conversa e muitos fotogramas depois, posso afirmar que me diverti muito. E também assisti muita coisa boa (muita coisa excelente, para falar a verdade), filmes que voltarão a ser comentados aqui (por mim ou pelos companheiros Francci Luguinho, Fabrício Mohaupt, Paulo Marinho e Daniele Costa) quando do seu lançamento em circuito normal. Por ter assistido tanta coisa boa, prometo que meu próximo texto será uma espécie de “premiação” ao que de melhor eu assisti no Festival desse ano.

Um abraço a todos, obrigado aos que leram e curtiram os textos e críticas e até breve, com as novidades de sempre aqui no Crônicas Cariocas. Até breve.
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Diário do Festival
02/10/07 - Dia 12

Esse ano, o Festival, de cara, teve um sabor um pouco mais apetitoso. Ao abrir o jornal, confirmei o que se desenhava e me extasiei. Vejamos: vencedor do Urso de Ouro em Berlim: O Casamento de Tuya (ok!); vencedor da Palma de Ouro em Cannes: 4 Meses, 3 Semanas & 2 Dias (ok!); vencedor do Leão de Ouro em Veneza: Lust, Caution (ok!). Os vencedores dos 3 maiores festivais de cinema do mundo estão no nosso modesto Festival, fato esse que eu não lembro de ter acontecido nenhuma outra vez.

Um olhar mais atento, no entanto, mostra graves problemas no ‘setor dos festivais’ aqui no nosso, esse ano. Berlim livrou a própria cara, afinal Yella (melhor atriz, para Nina Hoss) tentou vir e ficou preso na alfândega (um dos únicos seis filmes desse ano, e o único com peso real), mas cadê melhor ator (Konstantin Lavronenko, de Izgnanie), melhor atriz (Do-Yeon Jeon, de Secret Sunshine), melhor roteiro (Do Outro Lado) e o prêmio especial do júri (Persepolis) de Cannes desse ano? E cadê o melhor diretor (Brian DePalma, de Redacted) de Veneza esse ano? Esses filmes, mais Onde os Fracos não têm Vez (irmãos Coen), Conduta de Risco e No Vale das Sombras (Paul Haggis), também do circuito dos Festivais, ficaram a ver navios por aqui. Por quê?

Respostas podem ter muitas, desde o fato de que alguns desses filmes podem não ter sido comprados ainda (sendo que a maioria já foi) ao fato de que alguns deles estão presos para a Mostra de São Paulo, a verdade é que Ilda Santiago, a responsável pelo ‘elenco’ do nosso querido Festival, poderia bem ter sido mais empenhada, já que eu tenho certeza que saber que eles existem, ela sabe. Na verdade, o grande choque é com Cannes mesmo, na qual muita coisa nem tentou vir, de um Festival que já terminou há mais de 4 meses...  Prefiro acreditar que foi tudo uma tremenda e infeliz coincidência, e, ano que vem, as coisas voltem ao normal.

Bem, passemos então às críticas dos filmes desse 12º dia de Festival. São eles:

A Era da Inocência – e quem disse que ótimos diretores não podem errar feio? Denys Arcand tem um Oscar em casa, ganho pelo seu longa anterior As Invasões Bárbaras, um grande filme. Grandes também são O Declínio do Império Americano, Jesus de Montreal e tantos outros. Já li várias entrevistas dele em que diz que gosta de colocar títulos de passagens históricas em seus filmes pra que uma metáfora sobre as passagens possa encaixar perfeitamente em dado momento da trama. Mas, e se ele resolvesse também jogar algumas cenas de seus filmes nas datas representativas dos títulos? Isso acontece com esse seu novo filme, e os resultados são constrangedores. Humor típico do Zorra Total e personagens cretinos o tempo todo, o filme ainda se arrisca a ser um plágio vagabundo de Beleza Americana. Nem vendo dá pra crer. NOTA 1.
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Desejo e Reparação – de acordo com muita gente importante, estamos diante do vencedor dos principais Oscars do ano que vem, incluindo melhor filme. Assistindo ao filme, percebemos que tantos críticos, estudiosos da história da Academia e ‘palpiteiros’ escolados de plantão podem realmente estar certos. Esse é o segundo longa de Joe Wright para cinema, e o anterior (Orgulho e Preconceito) já tinha muitas pretensões e quase chegou lá, concorrendo a quatro Oscars secundários. Mas se sobrava pretensão a ele, ficava claro como também sobrava talento em Joe, um artesão em formação, mas com aguçado olho de autor. Isso, imerso em temas tão clássicos quanto um romance de Jane Austen, fez o mundo prestar atenção nele. Ele está de volta, com a adaptação do livro de Ian McEwan, de acordo com muitos, o principal romance do novo século. Aqui, o romance entre um simples jardineiro e a herdeira de uma família com pedigree britânica é interrompido pelas intrigas criadas pela caçula da família, uma criança de 13 anos, cheia de veneno e também apaixonada pelo rapaz. Como estamos em plena Segunda Guerra Mundial, ele é mandado para frente de batalha no front depois de acusado de um injusto estupro. Ao longo das décadas, tentarão consumar seu amor, ao tempo que a menina arrepender-se-á e tentará consertar o que fez. Narrativa clássica, mas que repete o vigor e a mão cheia de estilo de um autor da nova geração britânica, o filme merece aplausos sim, muitos. Com a menina Saoirse Ronan incendiando e dominando cada cena na tela, não sobra muito para Keira Knightley e James McAvoy. Mas sobra muita propriedade a Joe Wright, um nome a brilhar ainda mais no futuro. E o futuro pode ser agora. NOTA 9.
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Lust, Caution – Ang Lee já venceu qualquer amargura que poderia ter com a derrota de BrokeBack Mountain no Oscar de filme (ele levou o dele de direção), e entrega um longa ainda voltado ao amor absoluto, dono de uma elegância formal e técnica como há muito tempo não víamos. Mais uma vez vencedor de um Leão de Ouro em Veneza (que ele já tinha arrebatado juntamente na história de amor entre os cowboys), Lee volta à Taiwan natal com a trama de uma estudante ligada a espiões especialistas em desmascarar grandes políticos canalhas. Ela acaba servindo de espiã ao tal grupo, envolvendo-se com um desses líderes, durante os anos 50. O que se segue é uma história de desejo e obsessão, um amor carnal extremamente forte, em cenas que estão provocando o mundo todo (com um certo exagero na área mais pudica do público). O que fica claro, mais uma vez, é a mão delicada de Lee em assuntos do coração, com um roteiro muito bem desenvolvido, no qual Lee confia tão cegamente que parece não se dar conta de como é necessário abrir mão de excessos, às vezes. Acaba entregando um filme pelo menos 40 minutos maior do que o necessário, o único senão de uma obra sensível e pungente, mais uma história de paixão e entrega vinda das mãos de um cineasta que está se tornando um mestre do gênero. NOTA 9,5.

Vou ficando por aqui, pessoal, já esperando pelas próximas críticas, ou seja, pelas próximas atrações do Festival. Um abraço grande e bom 'últimos dias de maratona cinematográfica’ a todos.
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Diário do Festival
01/10/07 - Dia 11

Faltam apenas três dias para o fim do Festival e a saudade já toma conta dos cinéfilos de plantão. Sempre haverá reclamações (muitas delas a respeito dos filmes não trazidos pela organização), mas sempre sobrarão, também, excelentes filmes, que às vezes não fazíamos idéia de quão bons seriam.

Mas uma curiosidade que me intrigou esse ano foi o quanto eu, particularmente, tive que sair do meu fluxo normal pra ver o que eu queria. Explico: geralmente a minha ‘rota Festival’ fica restrita a Botafogo, Centro e Largo do Machado; esse ano, Copacabana, Ipanema e Leblon entraram intensamente no cardápio, e poucos foram os dias em que não precisei ir mais longe no meu caminho habitual. Isso fez que os “custos” do Festival aumentassem de maneira considerável. Espero que, para o ano que vem, finalmente as novas salas de Botafogo e da Gávea tenham aberto, possibilitando que ainda mais filmes façam parte desse evento que tanto ansiamos.

Antes disso, é claro que vamos precisar da garantia de que o Festival acontecerá no próximo ano, pois, depois que a confusão da verba da Prefeitura instaurou-se, ninguém sabe se um novo patrocinador irá entrar de vez, se Furnas se firmará como parceiro constante, se teremos menos apreensão e mais tranqüilidade em 2008, porque esse ano foi estressante.

Enquanto isso, a Central de Ingressos começa a esvaziar de vez, somente 3 caixas atendem agora, e mesmo O Amor nos Tempos do Cólera já começou sua venda. Ou seja, o clima de despedida já impera mesmo. Antes disso, deixo vocês com as três críticas dos filmes assistidos no 11° dia de Festival pra mim. São eles:



Paranoid Park
– Gus Van Sant sempre investigou a juventude americana e, desde o fim dos anos 80, esse é seu foco principal. Dos rebeldes sem causa que roubavam farmácias por conta do vício em comprimidos (Drugstore Cowboy), aos jovens que agridem com sua prostituição assumida (Garotos de Programa), o assunto é o seu forte. No fim dos anos 90, explodiu com o sucesso Gênio Indomável, que lhe deu sua única indicação ao Oscar; pouco antes tinha revelado ao mundo que Nicole Kidman era muito mais que a esposa de Tom Cruise (na ocasião) em Um Sonho sem Limites (para mim, ainda seu melhor filme). Depois de dois fracassos merecidos em seqüência (a inexplicável refilmagem de Psicose e Encontrando Forrester, que também parece uma refilmagem, só que de... Gênio Indomável!!!), Sant resolve reinventar-se e solta uma bomba na indústria chamada Elefante. Com a Palma de Ouro em Cannes numa mão e um super cacife como realizador independente na outra, ele continua a mesma trajetória aqui em Paranoid Park, de estrutura semelhante. Dessa vez, um jovem skatista provoca acidentalmente um acidente com um segurança da linha ferroviária, que o mata. A câmera segue a vida desse menino, que não está disposto a assumir um acidente, e seus hábitos cotidianos, como a paixão pelo skate, e seu despreparo com todo o resto. Infelizmente, a força de Elefante continua presa ao filme, e aqui Van Sant só retoma um assunto que pode render eternamente, sem o mesmo impacto ou brilho. Apenas, uma sensação de mais do mesmo. NOTA 7,5.
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O Clube de Leitura Jane Austen – se faltava um título para a vaga de ‘filme fofo do Festival’, ela pode ser preenchida por esse longa adorável, daqueles que você assiste numa Sessão da Tarde chuvosa e fica rindo, todo bobo, com o clima de descontração e prazer que emana dele. Trata-se de uma comédia romântica com ‘multi-plots’, ou seja, daqueles filmes com vários personagens que interagem, mas também de histórias de vida completamente distintas, e acompanhamos todas elas. Vemos a formação de um grupo de discussão da autora britânica, criado com o intuito de amenizar corações. Tem a solteirona que acabou de perder um grande amor, seu cachorro; a viúva que já se casou seis vezes no passado, mas ainda procura um 7o amor; a bibliotecária que acaba de ser abandonada pelo marido; sua filha lésbica, inconstante em suas paixões; uma professora certinha, que precisa reacender o fogo em seu casamento; e o único homem do grupo, um jovem milionário que na verdade está interessado na bela solteirona. O elenco é repleto de caras conhecidas: Maria Bello, Kathy Baker, Amy Brenneman, Maggie Grace, Emily Blunt e Hugh Dancy são os protagonistas. E, às custas de um roteiro quadrado, mas delicioso, saímos do cinema cantarolando canções deliciosas (inclusive a inesquecível Save Me, de Aimee Mann) e buscando na literatura de Jane Austen respostas para os nosso pequenos problemas amorosos. Delicioso. NOTA 8.
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Antes que o Diabo saiba que Você está Morto
– Sidney Lumet, o veterano e grande diretor, autor de clássicos indiscutíveis como Rede de Intrigas, Um Dia de Cão, 12 Homens e uma Sentença, O Veredicto e indicado ao Oscar por todos esses sem jamais levar, assina seu melhor filme em 20 anos. E põe melhor filme nisso, já que o longa honra com muita folga sua tradição de policiais tensos, crus e de matéria-prima extremamente rica: simplesmente o ser humano. Dessa vez, ele joga seus protagonistas num ‘efeito dominó’ de tragédias, dignos das mais angustiantes peças gregas. Os irmãos Andy e Hank estão com problemas financeiros (o primeiro precisa cobrir o desfalque que deu no próprio trabalho; o segundo, não consegue manter sua ex-esposa e filha com o que ganha). Andy, a cabeça pensante da dupla, monta um plano aparentemente sem riscos para isso: assaltar a joalheria da família, que tem seguro e na qual ninguém sairia perdendo. Com Hank responsável pela parte prática (o assalto em si), tudo começa a desmoronar, já que o conhecido que ele arruma pro serviço sujo atira e mata sua mãe. Quando o pai deles pede justiça a qualquer preço, suas vidas irão colidir nas mentiras, dramas do passado, angústias mal resolvidas e acertos de contas que virão pelos motivos errados. O elenco é, ao lado do roteiro, algo impressionante, como Lumet sempre nos proporcionou. Phillip Seymour Hoffman está impecável, talvez ainda melhor que em Capote, onde venceu o Oscar, como o articulado e imprevisível Andy; Ethan Hawke vê seu nome finalmente atrelado a uma excepcional interpretação como o angustiado Hank; Albert Finney tira de letra o pai da família, mais um grande momento seu; e até o pequeno papel de Marisa Tomei, a esposa de Hoffman, vem em um momento seguro, forte e maduro. Como é bom ver mestres em forma, e ainda sentindo o cheiro de um careca dourado que injustamente nunca veio... NOTA 10.

Despeço-me de vocês, prometendo voltar amanhã com o recentíssimo vencedor do Leão de Ouro em Veneza, o grande Ang Lee e seu aguardado Lust, Caution. Abraço a todos e até amanhã.
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Diário do Festival
29/30/09/07 - Dias 9 e 10

Hoje fui à única sessão de gala do Festival que me propus a ir, a de Deserto Feliz. Artistas não faltavam na porta do Cine Palácio, praticamente todo o elenco estava lá; além de ser sempre muito bom ver confraternização no nosso cinema. O diretor Paulo Caldas fez um discurso um tanto confuso e acanhado, onde ficou claro como ele é melhor diretor que orador. O Festival vai caminhando ao final, e vemos que alguns filmes nacionais não devem passar em branco pelos jurados, como o próprio Deserto, Estômago, Mutum, A Casa de Alice e, se não houver má vontade, ainda pode surgir algo para O Signo da Cidade, a surpreendente estréia atrás das câmeras do outrora galã global Carlos Alberto Ricceli. Espera-se, também, que o júri e também o público esqueçam (de preferência para todo o sempre) A Via Láctea. Mas falamos dele (e também de Deserto Feliz) logo abaixo.

O fim de semana, aliás, teve exemplares da categoria dos ‘excepcionais’, e também na categoria ‘lata de lixo’. Mas opiniões são tão relativas, e, aqui no Festival, assistimos às mesmas pessoas odiarem e amarem um mesmo filme na mesma proporção. No fim das contas, cinema é isso aí... paixão arraigada que se define em socos e pontapés. Já ouvi, nessa temporada, discussões acaloradas sobre os mais variados assuntos, além da fauna de personagens que só o Festival nos proporciona. São amantes incondicionais de Brian DePalma, pessoas que só querem reclamar das coisas e por aí vai.

Deixo com vocês as críticas dos sete filmes assistidos por mim entre sábado e domingo, espero que vocês gostem. São eles:

A Floresta dos Lamentos – vencedor do Grande Prêmio do Júri (espécie de 2o. lugar de um Festival) de Cannes desse ano. Bela obra, poética e leve ao mesmo tempo, um filme todo feito no ponto certo. Uma jovem acompanhante de idosos precisa resgatar um deles quando ele se embrenha pela mata adentro (que fica nos quintais do asilo onde ele vive). O filme é de uma sensibilidade incrível, que acompanha essa trama da jovem em busca do senhor e que acaba sendo uma escolha muito sábia do roteiro. Somente o fato de a segunda metade ser muito arrastada, onde poderia haver uma edição. Tirando isso, a diretora Naomi Kawase está de parabéns, por mais esse petardo oriental. NOTA 8.
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A Via Láctea – é uma pena perceber que, num ano tão especial para o nosso cinema (como já repeti tantas vezes), onde 85% do que foi lançado no circuito eram de filmes no nível entre “obra-prima” e “excelente”, temos de passar o Festival ao lado de algo que pode perfeitamente ser definido como horrível. A diretora Lina Chamie, em seu segundo longa (depois do igualmente pretensioso e insuportável Tônica Dominante), mostra-nos como pode ser pedante o término de uma relação. Marco Ricca leva um fora de Alice Braga e passa o filme inteiro tentando reatar com ela e o grande impedimento é o trânsito de São Paulo, que os afasta e que provoca no personagem delírios estéticos (traduzidos de “poesia”), muita falação e um banho de referências modernas que enchem de tédio e matam qualquer intenção maior. NOTA 1.
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Em Paris – o que eu jurava que seria uma comédia romântica passada na capital francesa e estrelada por dois jovens atores dos mais bonitos e talentosos da atualidade (Romain Duris e Louis Garrel) mostrou-se, na verdade, palco de um óbvio desfile de situações depressivas e amarguras expostas. Os rapazes citados são irmãos diametralmente opostos: enquanto Louis só quer saber de sexo, nenhum compromisso e se divertir all day long, o personagem de Romain está de cama desde que terminou com a namorada e sua família tenta mobilizar-se para que o provável suicídio não se concretize. Mesmo que nas seqüências de Louis permaneça um humor típico dos anos 60 (e as referências à estética adquirida por Richard Lester nos longas dos Beatles sejam gritantes), o que prevalece no fim das contas é a tristeza de Romain. Ao fim, tudo acaba descendo “quase redondo”, o que faz do filme uma diversão ligeiramente fácil, mas nunca facilmente ligeira. NOTA 6.
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4 Meses, 3 Semanas & 2 Dias – pronto, o grande momento (na opinião de muitos) do Festival do Rio 2007 chegou. O vencedor da Palma de Ouro em Cannes geralmente está a nossa disposição na mostra carioca com 90% de certeza, e esse ano a Romênia mostrou a força definitiva que vinha desenhando-se ao longo da década. Depois de flertes com a consagração definitiva em anos anteriores (A Morte do Sr. Lazarescu e À Leste de Bucareste, mais especificamente), o diretor, com apenas um longa anterior no currículo, Christian Mungiu, mostra um domínio técnico/narrativo digno de mestres do cinema, tomando todas as decisões certas ao longo dos 105 minutos mais angustiantes do ano. Otília é uma jovem que não vai pensar duas vezes antes de ajudar a amiga Gabi a se livrar de uma gravidez não-desejada. Como na Romênia de hoje quase tudo é conseguido na ilegalidade (e o filme mostra como elementos essenciais para uma vida normal – sabonete! – precisam ser contrabandeados), um aborto é algo tão normal, e, ao mesmo tempo, tão arriscado, mostra o filme. A jornada que Otília irá enfrentar em apenas um dia por uma amizade tão unilateral (o que só acentua a grandiosidade de uma personagem já clássica) é digna de todos os aplausos, prêmios e reconhecimento a que se tem notícia. Que o cinema de Mungiu não nos abandone, pois já dá pra ansiar seu próximo longa com avidez. NOTA 10.
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O Preço da Coragem – Angelina Jolie à parte (e bota “à parte” nisso), o diretor britânico Michael Winterbottom continua fazendo os mesmos longas politicamente engajados de sempre. Mesmo que aqui tenha sido apadrinhado pela máquina hollywoodiana e pelo casal vinte do cinema na atualidade (Brad Pitt e sua esposa são os produtores), ele praticamente não fez concessão. Mas, vai saber onde a massa do bolo desandou e transformou seus habituais interessantíssimos jogos estéticos/dramatúrgicos em drama convencional, com direito a batidas cenas de ação. Talvez o dinheiro, ao final, tenha imposto seu preço, e tudo tenha ficado esquema padrão e convencional. E quanto a Jolie? Bem, alguém a ludibriou no meio do caminho, já que sua personagem praticamente observa o filme acontecer. Chances no Oscar? Nunca. NOTA 6.
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Deserto Feliz – ai, que alívio. Depois do susto que foi A Via Láctea, o cinema nacional volta ao bizarro ano de 2007, onde tudo é magnífico. Agora, é sério: eu estou com muito medo do ano que vem, pois se tudo o que é lançado esse ano é tão superlativo assim, o que me aguarda 2008? Antes disso, o foco é o novo filme do festejado Paulo Caldas, diretor do incensado O Prisioneiro da Grade de Ferro, qe estréia na direção de filmes de ficção com um estudo da falta de oportunidades no Nordeste de hoje, que leva mulheres (jovens e mais velhas) a optarem sem susto pela prostituição. Jéssica é uma delas. Depois de passar uma vida de cão sendo violentada pelo padrasto no interior de Pernambuco, resolve dar um basta e viver do seu corpo sim, mas no centro de Recife. Dividindo apartamento com outras duas garotas de programa (uma delas vivida pela brilhante Hermila Guedes), ela irá envolver-se com um turista alemão em busca de um lugar ao sol (leia-se uma viagem sem volta à capital alemã). Um elenco impressionante (Magdale Alves, João Miguel e Zezé Motta estão também incríveis), uma fotografia vigorosa e uma montagem fantástica transformam o filme em mais um excepcional longa nosso nesse ano tão cheio de grandes filmes. E tentem esquecer de Nash Laila, a protagonista tão decidida, cheia de vida e esperança, doce e batalhadora aos 15 anos. NOTA 10.
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Tracey Despedaçada – ao final da sessão, conseguia-se imaginar o quanto de divisão no público esse filme irá causar. A ala ‘muderninha’ irá encantar-se com a narrativa literalmente fragmentada; outros se irritarão em acompanhar, depois dos primeiros vinte minutos, mais uma hora de um longa com a montagem toda em quadrinhos pela tela. É isso mesmo, o filme passa MUITO longe de ser convencional e nos apresenta ao menos mais uma grande interpretação de Ellen Page, especializando-se nos papéis mais difíceis para garotas da sua idade atualmente. A trama mostra a personagem-título tendo que lidar com o desaparecimento do irmão caçula que ela hipnotizou e transformou num cachorro; os pais mais histéricos que se tem notícia; uma psicóloga bizarramente vivida por um homem; um namoro com um punk de butique; sua solidão e depressão nada internalizadas. Um prato cheio para qualquer atriz? Sim, mas a estética do filme se impõe a tudo, e apenas o vislumbre de uma grande interpretação salva-se num filme que poderia ser um curta de 10 minutos e, aí sim, seria merecedor de todos os aplausos. NOTA 2.
 
Assim foi o fim de semana. Nessa segunda, mais 4 filmes serão encarados por mim, agora que podemos começar a visualizar a reta final do Festival (onde somente O Amor nos Tempos do Cólera ainda resta a liberar para venda). Um abraço a todos, e até amanhã, pessoal.
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Diário do Festival
28/09/07 - Dia 8

O Festival começa a animar e já dá pra sentir saudades desse ano tão complicado. O início, ou melhor, lá atrás, em meados de agosto, nem tudo parecia tão tranqüilo assim. Há mais ou menos um mês e meio, foi anunciado que a tão famosa venda antecipada, bem como sua central de ingressos tradicional, localizada no Espaço de Cinema, não aconteceria esse ano. Um princípio de desespero generalizado tomou conta dos freqüentadores habituais. Afinal, o que seriam de nós, ratos de Festival, se tivéssemos todos que depender exclusivamente da compra pela internet e gastar ao menos mais R$1,50 por cada ingresso pago? Imaginem alguém nos meus moldes, que devo fechar o Festival contabilizando mais de 50 títulos assistidos, ter que arcar com mais essa despesa, além das dúvidas que sempre nos cercam na compra?

Foram momentos desanimadores, que só pioraram quando a Prefeitura teve que cortar a liberação da verba destinada ao Festival, já que uma das sócias do Grupo Estação (organizador da Mostra), Adriana Rattes, está empossada como Secretária da Cultura do Rio, ficando, portanto, o Festival impedido de receber verba pública. Logo, veio o apoio de Furnas, mas para o ano que vem parece que muita coisa irá mudar. Só rezemos para que, ainda assim, estejamos aqui, reclamando da falta de organização, das filas, dos ingressos esgotados, dos gerentes das salas de exibição, dos atrasos, enfim, reclamemos do Festival, e não da falta dele.

O dia ontem foi longo, galera, então começo já a remeter minhas resenhas, já que cinco filmes assistidos merecem ser apresentados. São eles:

Império dos Sonhos – David Lynch. Nunca é fácil chegar a essa sessão, nunca é fácil terminá-la. Mais uma vez, o mestre do bizarro mostra suas garras, mais afiadas que nunca. Vamos ao que eu talvez tenha pego no ar: Nikki Grace é uma atriz subestimada que nunca teve seu talento reconhecido devidamente. Quando finalmente consegue o roteiro dos sonhos e começam os ensaios, vem a saber que, na verdade, trata-se de um remake de um longa polonês nunca finalizado, já que seus protagonistas morreram durante as filmagens. A partir desse momento, começamos a acompanhar quatro vertentes da trama: a vida de Nikki durante as filmagens; a trama do filme sendo rodado; o filme não-finalizado polonês; e a trama real que inspirou o roteiro original. Pois se vocês estão achando complicado aqui no papel, não tem idéia de como isso é apresentado na tela. Desconexão é a palavra-chave, ainda mais quando algo parecido com uma maldição começa a assombrar os atores da produção atual, que parecem assombrados pelo passado. Bem, o que podemos tirar de concreto? Laura Dern, talvez no papel mais desafiador de sua carreira, voltando à batuta de quem sempre a elegeu musa. De resto, é dado o conselho a quem sempre entra de cabeça num Lynch: relaxem e gozem (ou saiam da sala, como fazem tantos e tantos espectadores). NOTA 8.
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La Señal – depois de conferir o trabalho de Ricardo Darín ator, chegou a vez de testar suas habilidades atrás das câmeras, nesse longa que é sua estréia na direção. Ele escolheu um ‘filme de gênero’ para tanto, no caso o film noir, já que é mais que sabido que a Argentina natal do ator não produz típicos produtos hollywoodianos; mas foi essa a opção de Darín, que presta aqui sua homenagem a um dos gêneros mais americanos por excelência. Está tudo lá: a dupla de detetives, a mulher fatal, os mafiosos locais, o contexto político em pano de fundo (aqui, é o momento da última fase da doença de Eva Perón), tudo muito bem encaixado e amarrado pelo roteiro. As piadinhas típicas também estão contextualizadas, e Darín ainda nos oferece seu habitual esmero como ator no papel central. O final mais amargo que o costume e a atmosfera acertadíssima são a cereja de um bolo saboroso, feito para saborear com o mesmo prazer com que foi produzido. NOTA 9.
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Planeta Terror – esse é o filme que se encaixa em À Prova de Morte na dobradinha GrindHouse, imaginada pelos companheiros Quentin Tarantino e Robert Rodriguez. Na visão do mexicano, a brincadeira em torno dos títulos trash dos anos 70 vai fundo no gênero terror/sacanagem, mostrando o mundo como o conhecemos dominado por humanos transformados em zumbis que apelam para uma carnificina desenfreada, depois de expostos a um gás mortal. A trama que une tudo a uma pitada de ficção científica também funciona à perfeição, exagerada e absurda a um só tempo. O elenco, que une a nata da indigência cinematográfica a novos talentos descobertos, também é um achado: de Freddy Rodriguez e Josh Brolin a Jeff Fahey e Michael Biehn, absolutamente todos brilham. Mas nenhuma estrela é mais brilhante que Rose McGowan, excepcional como Cherry Darling, a ex-stripper transformada em máquina de matar com uma metralhadora no lugar da perna direita. O fato de que Rodriguez não abandona a tosqueira da produção na metade o faz melhor um grama que o longa de Tarantino, mas ambos compõem uma dobradinha de respeito em qualquer sábado com os amigos. Diversão de primeiríssima. NOTA 10.
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Nascido e Criado – Pablo Trapero foi o grande vencedor do Festival de Gramado desse ano com esse tratado sobre a dor da perda, nunca menos que magnífico. Não tendo nenhuma cena dispensável e funcionando em praticamente tudo a que se propõe, Trapero realiza seu meu melhor filme (e deixa os festejados Do Outro Lado da Lei e Família Rodante bem longe) e mostra finalmente porque Walter Salles o admira tanto. A beleza da abertura dura pelos 15 minutos iniciais: o retrato de uma família feliz na capital Argentina, um casal jovem e sua filhinha mostram que a ‘família do comercial de margarina’ pode sim existir. São bonitos e tem a vida inteira pela frente. Até um acidente de carro... Um salto no tempo e o novo cenário é a gelada divisa com a Patagônia, inóspita e digna da tristeza que um deles sente. Somos jogados lá como o personagem, nada sabemos como ele. E aos poucos tomamos conhecimento do quadro geral. A dor é palpável, assim como a vida que nos obriga a renascer. Merecedor de todos os elogios que vierem, Nascido e Criado termina na hora certa (ah, como poucos cineastas conseguem isso...), no limiar entre a redenção e o abismo final. NOTA 9,5.
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Like a Virgin – sabe o sorriso no rosto que insiste em não ir embora mesmo com o término da sessão? Like a Virgin proporciona isso, uma viagem a um universo nada explorado pelo cinema, como a descoberta da homossexualidade (ou transexualismo, no caso), ainda na juventude. O adolescente Oh Dong-Gu tem uma obsessão: Madonna. É ela sua referência desde criança, é por ela que ele descobriu o que o futuro o reservaria, e é nela que se espelha ao decidir trocar de sexo. Para conseguir a fortuna a pagar na operação, Dong-Gu mata-se de trabalhar no cais do porto. Até o dia que apontam nele potencial como lutador de algo similar ao sumô (sem a pressão da necessidade de ser obeso). Dong-Gu, com seus quilinhos a mais, precisa vencer suas barreiras para alcançar um sonho a princípio bizarro, mas que aos poucos vai revelar-se a porta para que ele cresça como ser humano. Com isso, o filme que se mostrava uma deliciosa sátira sobre a confusão dos ‘gêneros’ a que um adolescente pode passar hoje em dia, acaba se transformando num dos estilos de filme que mais são caros a mim: a saga de um ‘perdedor’, num mundo contrário a ele. Se não fosse o viés extremamente dramático imposto por algumas cenas com seu pai (um alcoólatra violento), a saga de Dong-Gu seria ainda mais feliz. Do jeito que ficou, diverte e emociona na medida (e ainda faz cantar e dançar na hilariante seqüência final). NOTA 7.

Bem, assim foi mais um dia de Festival, meus amigos. Peço desculpas a todos, pois o Diário de amanhã (dia 9) não será postado, mas volto no dia 10 com todas as informações a que vocês têm direito. Um abraço.
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Diário do Festival
27/09/07 - Dia 7

O Festival chega à sua metade e mais filmes foram liberados hoje (já estou com ingressos de Lust, Caution e Antes que o Diabo Saiba que Você está Morto). Mas, pela primeira vez, vi uma Fila de verdade durante essa edição (assim mesmo, com F maiúsculo). Foi hoje, na sessão de I’m not There (que comento abaixo); uma fila como eu poucas vezes presenciei no Odeon, gigantesca mesmo, dando voltas e voltas pelas ruas do Centro do Rio.

Aliás, hoje foi o dia da fila. As 2 sessões de hoje do filme O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford também foram enormes, e a sessão de Zoofilia também foi concorrida (todos com comentários abaixo). A questão que fica disso é que vemos atrasos nos inícios das sessões e muita gente impaciente, querendo arrumar confusão com gerentes, atendentes e afins, pessoas que estão lá para nos ajudar, pagando por problemas que, na verdade, são de ninguém. O que precisa é haver mais paciência, mais compreensão de que filmes bons, filmes esperados, serão concorridos mesmo, sempre. Fico imaginando como estará amanhã a fila que enfrentarei para ver Império dos Sonhos, de David Lynch.

Esse é um ponto que fica cada vez mais positivo a cada ano que passa no Festival: como as pessoas são solícitas, prestativas mesmo, dispostas a tentar solucionar qualquer problema (e olha que às vezes ouço uns bem cabeludos por lá). Esse ano, por mais que existam sempre estressados e tipos impacientes, vejo que a calma está fazendo-se mais presente, o que só pode ser justificado pelo fato de que o grupo desse ano foi realmente escolhido a dedo.

Agora vamos às resenhas de hoje, um dia extremado mesmo: foram dois filmes que saem do Festival para tornarem-se clássicos do cinema e duas bombas inomináveis. Eles são:
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O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford
– juro que eu não esperava; aliás, acho que ninguém no mundo esperava. E, aos poucos, do Festival de Veneza pra cá (de onde saiu com um merecido prêmio de ator, para Brad Pitt), o culto em relação a esse filme só faz crescer, um culto que se mostra totalmente merecido. Sabe quando temos certeza de estar diante de algo inesquecível? Lembro de sentir isso na primeira sessão de O Aviador, de Moulin Rouge, de Closer, de Clube da Luta... isso volta a acontecer aqui, nesse faroeste clássico, onde o fora-da-lei Jesse James vê-se às voltas com a preparação de um último assalto a banco e precisa contar com a ajuda dos irmãos Ford. Robert é um deles, um fã incondicional de James, um rapaz com caráter em formação (ou seria ‘em destruição’?), que vê seu sonho virar realidade quando o lendário bandido o escolhe como novo comparsa. Seus sonhos de grandeza para essa amizade vão ser o pivô de todas as tragédias que virão a seguir. Se Pitt está na melhor interpretação de sua vida, Casey Affleck compõe um Robert de extrema delicadeza de detalhes, o personagem do ano. Na verdade, o elenco todo merece aplausos, assim como o roteiro irretocável, que constrói diálogos memoráveis e personagens humanizados, numa rede de situações incrível. A fotografia já nasce clássica, assim como toda a parte técnica. Faz o seguinte? Pára de ler essa crítica e corre pra ver se há mais sessões do filme, que é muito mais do que “o melhor filme do Festival”. NOTA 10.
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Savage Grace – ultimamente a única coisa que conseguimos sentir por Julianne Moore é pena. De grande atriz com interpretações antológicas em filmaços do calibre de As Horas, Boogie Nights, Magnólia, Fim de Caso e Longe do Paraíso, a estrela de bombas-relógio, como Evolução, Os Esquecidos, Marie & Bruce, O Vidente (estréia de hoje do circuito nacional, um dos piores filmes do ano) e agora essa coisa, pretensiosa até dizer chega, o filme mais cafona do Festival, com trilha constrangedora e um elenco semi-amador, Julianne sobra nesse circo de horrores, em que uma família pra lá de problemática vai pelo ralo mesmo quando a mãe começa a ter um caso com o filho (é isso mesmo que vocês estão lendo!), gerando uma tragédia iminente desde o princípio. Os pontos positivos são as belas paisagens espanholas, e os cenários naturais do filme, além da beleza de todo elenco. Pobre Julianne... que Fernando Meirelles a tire do limbo com seu Cegueira. NOTA 2.
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Zoofilia – “docu-drama” de tintas reais, que trás uma bizarrice inacreditável como tema: homens que sentem prazer mantendo relação sexual com cavalos. O assunto, apesar de desconfortável, seria interessante, até como estudo da natureza humana, mas a estrutura escolhida pelo diretor é um desastre. Uma narração medonha de todos os envolvidos, uma trilha sonora ininterrupta e irritante ao extremo e cenas ‘dramatizadas’ no mínimo risíveis, marcam um filme que seria desagradável de qualquer maneira, mas que acaba se tornando ‘inassistível’ pelo viés que seria mais fácil de resolver. NOTA 1.
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I’m not There – um filme? Não. Um estudo de personagem? Também não. Uma alegoria musical excêntrica? Tampouco. Como definir então o novo longa metragem do diretor Todd Haynes? Uma experiência sensorial e emotiva, uma viagem sem volta a uma cabeça pensante e atuante, um delírio barroco áudio-visual, algo sem precedentes. Definição e crítica ‘propriamente ditas’ não cabem aqui, já que o que vemos são seis atores diferentes em todos os aspectos (uma criança negra, uma mulher, um jovem semi-desconhecido, um galã cinqüentão, dois jovens atores talentosos) serão Bob Dylan. É isso mesmo, a obra de Haynes é uma jornada pelo universo do cantor de folk/pop/rock/música de protesto americano, um dos artistas que mais influenciam até hoje o referencial musical ianque e que é mostrado aqui em facetas múltiplas. Do poeta de uma geração ao dono das atitudes mais polêmicas no showbizz dos anos 60, do drogado alucinado ao homem romântico, do cantor popular e bem sucedido ao artista de vanguarda em constante metamorfose, Dylan é todos. E agora também é um longa que não se discute, não se defende, que ‘dá a cara pra bater’, um filme corajoso, tecnicamente impecável, com um roteiro que deve ter sido construído cena a cena e com uma antológica Cate Blanchett em cena. I’m not There talvez seja o filme-ícone desse Festival 2007. NOTA 10.

Fico por aqui, já ansioso por nosso encontro de amanhã, galera. Abraço a todos e continuem tendo um excelente Festival (eu estou tendo).
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Diário do Festival
26/09/07 - Dia 6

Resolvi antecipar para hoje um tema que só entraria aqui, na pauta do diário, na semana que vem, por conta de um fato presenciado hoje. Retornando à semana passada, durante a exibição de Nome Próprio, eis que o diretor Murilo Salles resolveu dar as caras na sessão pra conferir as primeiras reações ao seu grande filme. Acompanhado da atriz Rosane Holland, ele viu o público delirar com seu longa-metragem. Dito isso, chegamos ao dia de ontem, quando, antes da exibição do filme XXY, tivemos a ilustre presença do maior ator argentino da atualidade na sala, o astro Ricardo Darín. Simpaticíssimo, super simples e com genuíno orgulho de seu filme, Darín falou sobre como a liberdade de escolha é primordial pro indivíduo, tema do filme. Ainda espero ver Darín mais uma vez, tendo em vista que ele também veio divulgar sua estréia na direção, La Señal.

O tema estava guardado para semana que vem porque, com certeza, eu ainda veria outras estrelas nas sessões de seus filmes, como na projeção do também brazuca Deserto Feliz, na qual farei parte semana que vem. Mas Darín merece um adiantamento. Mas o importante é vermos como o Festival continua situando-nos bem diante do mercado internacional. Sempre recebemos grandes nomes do cinema mostrando seus novos longas (esse ano também temos o multi-laureado Bille August, que trouxe seu Goodbye Bafana à cidade), só provando que, mesmo pouco, temos algum prestígio ao redor do mundo. No passado, já vimos pessoas do calibre de Alejandro Gonzáles Iñarritu, Ralph Fiennes, Rachel Weisz, Irene Jacob, Danny Glover, e tantos outros mostrando-nos que, de alguma forma, nós somos vistos. Esse ano, rendemos até matéria no prestigiado Hollywood Reporter, jornal impresso sobre o entretenimento americano que nos focou por conta da nossa plataforma de pré-estréias.

Para o ano que vem, será que veremos desfilar pelas nossas salas a beleza alva de Julianne Moore, no possível lançamento de Cegueira por aqui? É cruzar os dedos. Mas enquanto o ano que vem não chega, é rezar pra vermos ainda esse ano o talento irretocável de Javier Bardem, o protagonista do filme-encerramento O Amor nos Tempos do Cólera.

Hoje assisti a mais quatro produções, todas bem interessantes, no que foi o dia mais regular do Festival até hoje. Vamos a elas:

Sem Fôlego – o diretor Kim-Ki Duk  é um relativamente novo queridinho meu. Eu o descobri como a maioria das pessoas, através de Primavera, Verão, Outono, Inverno e Primavera, sua obra já icônica desde o título. Seguiram-se à sua filmografia regular o também clássico Casa Vazia e os ótimos O Arco e Time. Ele está de volta com longa novo, e algo parecido com o seu Casa Vazia, aqui muito mais pop, no entanto. Um condenado à morte começa a receber visitas de uma mulher jovem mal casada e deprimida, que é tocada pelas suas constantes tentativas de suicídio. Eles se apaixonam perdidamente e, à primeira vista, revelando o ciúme do marido dela, que fará de tudo para reconquistar a esposa que sempre traiu. O filme tem três ou quatro cenas musicais que são a cara do projeto todo: vibrantes, ligeiramente amargas, ao mesmo tempo animadas e muito divertidas. Com um elenco excepcional, Sem Fôlego só peca no fim, quando um personagem muda tão radicalmente que fica difícil de engolir. Mas, até o desfecho, o filme é honesto com sua base, nunca deixando de ser mais ou menos do que se propôs, ou seja, apenas uma história de amores. NOTA 8,5.
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O Expresso Darjeeling – Festival do Rio 2007

O Expresso Darjeeling – novo filme do jovem diretor cultuado Wes Anderson, que tem no currículo Três é Demais, Os Excêntricos Tenenbaums e A Vida Marinha de Steve Zissou, infelizmente fica na categoria de degrau mais baixo de sua carreira. O filme é ruim? Jamais! Pois Anderson é excelente realizador e tem mão firme pra dirigir a jornada de 3 irmãos (Adrien Brody, Owen Wilson e Jason Schwartzmann) para encontrar o amor mútuo perdido durante uma viagem de (também) auto-conhecimento pela Índia. Com pequena participação de Anjelica Huston e um Bill Murray “veloz” em cena, Darjeeling tem visual fantástico, uma direção de arte primorosa, fotografia caprichada, cenas divertidíssimas e um elenco em forma. Tudo a serviço de coisa alguma, com Anderson parecendo mais preocupado em encarar a cadeira de diretor, dessa vez. O resultado final pode estar longe de ser perfeito, mas diverte pacas. OBS: Reparem no curta exatamente anterior ao filme, estrelado por Schwartzmann e Natalie Portman. O curta sim, ele é simplesmente inesquecível. NOTA 7,5.
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XXY – a diretora Lucía Puenzo é filha de Luiz Puenzo, diretor do grande A História Oficial, único filme latino da história a ter um Oscar de estrangeiro, há mais de 20 anos. Em seu primeiro longa, ela mostra segurança numa história delicada e bem árdua de trabalhar. Pois bem, desenrola-se numa comunidade à beira-mar, onde um casal com uma filha recebe como hóspedes outro casal, esse com um filho. Ambos adolescentes, acabam envolvendo-se, e, na primeira tentativa de consumação de sua explosão de hormônios, vêm à tona o porquê da menina ser tão introspectiva, taciturna e arredia: ela é hermafrodita. Aí, fica claro que o segundo casal, ambos cirurgiões, foram chamados ali pelo primeiro para uma espécie de exame, onde o diagnóstico final deveria ser uma operação de definição sexual. E aí começam os problemas, já que apesar do sofrimento que a sociedade parece impor no futuro, a “menina” parece que não quer mudar nada em si. Com essa trama exposta, o filme vai fundo nos meandros de uma alma obviamente atormentada e sai de lá com interpretações acertadas de Darín (como o pai da garota) e dos dois adolescentes. O resto do elenco parece não existir em roteiro; desse erro grave nasce o maior problema do filme, que não presta atenção a nenhum outro personagem, apesar deles existirem. Situações vão formando-se totalmente aleatórias e, infelizmente, o que poderia ser um dos melhores filmes do Festival, fica apenas como uma bonita estréia de uma nova cineasta, que ainda têm muito a aprender sobre seu ofício. NOTA 7.
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Trabalho de Homem – candidato da Finlândia a uma vaga entre os cinco indicados ao Oscar de estrangeiro do ano que vem, essa agridoce trajetória de um homem pela “profissão mais antiga do mundo” é uma gratíssima surpresa. Pai de família desempregado há meses, sem o conhecimento da esposa (já que ele sai todo dia como se fosse trabalhar e fica num bar), Juhha vê-se numa situação que nunca imaginou: tentando um bico como pintor numa casa abastada, vê a dona  oferecer-se de maneira ‘sexual’ pra ele. O oferecimento de dinheiro, numa hora em que ele precisa de qualquer coisa, faz que ele não pense duas vezes; a partir desse momento, ele começa a oferecer “esse tipo de serviço” a senhoras solitárias em busca de companhia. Aos poucos, tudo vai enredando-se, sua esposa desconfia das saídas noturnas com desculpas esfarrapadas e o filme, ao invés de perder o rumo (normal de acontecer em situações como essa), melhora e enriquece ainda mais seu roteiro, quando o casal cai em depressão e um amigo em comum começa a se envolver demais nos problemas de ambos. Com um protagonista esbanjando carisma e uma trama que te prende e não solta até o fim, o filme merece fazer bonito em seu rumo à estatueta dourada. NOTA 9.

Fico por aqui, na torcida de um dia magnífico amanhã. Afinal, com O Assassinato de Jesse James, Savage Grace e I’m not There no horizonte, só posso mesmo é salivar de animação. Até amanhã, pessoal.

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Diário do Festival
25/09/07 - Dia 5

Todo ano, um fenômeno repete-se entre os assíduos do Festival. Sempre aparece um filme que provoca resmungos e discussões em relação a sua presença na programação. O filme desse ano parece ser Stardust, de Matthew Vaughn. Explica-se: os freqüentadores acham (muito acertadamente) que deveria haver alguma lógica pra cada filme estar no Festival, mesmo que precisássemos escavar em alguns casos algo razoável. Em anos anteriores, as discussões foram muito maiores.

Entenda-se: houve uma época em que existia, no Festival, uma mostra reservada aos filmes blockbusters com lançamento próximo. Na verdade, uma desculpa para incluir o Cinemark DownTown entre suas salas e também uma boa vitrine de pré-estréias de peso das distribuidoras. Lembro de já ter visto coisas como Shaft, U-571, Cowboys do Espaço e Os Reis de DogTown com a chancela do Festival. Quando isso não acontece (e já não acontece oficialmente há algum tempo), vemos intrusos esquisitos perdidos na maratona. Ano passado, foi As Torres Gêmeas o grande foco (o filme, pra piorar sua situação, ainda estreou no meio do Festival mesmo); esse ano, Stardust é o nome.

Mas o que viria a ser um típico filme de Festival? Bem, a meu ver, seriam títulos louváveis a um Festival: 1) qualquer filme exibido em um dos três maiores festivais do mundo – Cannes, Berlim ou Veneza; 2) ser um título não-americano, com raríssimas exceções (comédias popularmente escrachadas); 3) ter um diretor já premiado em Festivais ou Oscar; 4) ter astros meio mainstream, meio contra-corrente no elenco; 5) ter genuínas pretensões artístico-intelectuais. Peguemos então 3 títulos que poderiam causar estranheza à primeira vista na programação: Valente, de Neil Jordan (um dos filmes analisados de hoje), Desejo e Reparação, de Joe Wright e o próprio Stardust.

O primeiro cai nas valas 3 e 5 (Neil Jordan tem em casa Oscar, Leão de Ouro e prêmio de direção em Berlim, além de estar cotado a prêmios); o segundo cai na vala 1 e 5 (esteve em Veneza e está cotadíssimo pro Oscar do ano que vem, além de ser baseado em obra literária incensada); e Stardust? Bem, esse, a meu ver, não cai em lugar algum mesmo, e eu tenho que concordar com os que acham no mínimo esquisito seu nome por aqui, mesmo que seja baseado em quadrinhos cultuados, o filme não passa de uma fantasia juvenil, tal qual um Nárnia da vida.
Mas essa é a típica discussão que ocorrerá todo ano, onde sempre haverá defensores das obras em questão. No mais, outro dia de filmes liberados aos poucos, e de maratona contínua. Relato agora minhas opiniões a respeito das três obras assistidas hoje:

Mulher na Praia – mais uma equivocada produção oriental (no caso aqui, coreana), que mostra uma mulher dividida entre dois homens apaixonados, o ator e o diretor de um filme em pré-produção. De repente, o foco passa a ser o diretor, e o vemos também dividido, entre a primeira garota e uma segunda, parecidíssima com ela. Ao final, transforma-se num estudo sobre o ciúme, a possessividade e a insegurança. Tudo seria válido se houvesse a coerência do início, que vai dando lugar a situações cada vez mais sem sentido e personagens cada vez mais disparatados. Uma pena. NOTA: 4.
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Eu não quero Dormir Sozinho

O Oriente então reage com a presença de um de seus maiores filhos da atualidade, Tsai Ming-Liang. Em mais uma obra-prima, o diretor malaio volta a nos mostrar seus signos preferidos: a ausência de comunicabilidade entre os seres, a vitória do tédio sobre as vidas, o amor como fonte redentora, a trilha sonora impactante, aliado a questões novas: a presença de um elemento estrangeiro, que derruba barreiras xenófobas, e o acontecimento catarse comum em seus filmes (o ‘foco de poluição’ que acaba com a vida do protagonista de O Rio; a ‘vala’ no meio da casa que acaba desestabilizando a família de O Buraco), que dessa vez atinge a população de maneira global. E os dois elementos só demonstram como a preocupação de Ming-Liang está cada vez mais abrangente. Mas seu carinho com os personagens, a explosão de força das suas imagens poéticas, a estranheza bem-vinda de seus planos, estão intocados. O mestre se mantém intacto. NOTA 10.
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Valente - a começar, dois nomes: Neil Jordan e Jodie Foster. A partir daí, meu aviso: é impossível falar mal de um filme com esses dois elementos. Dito isso e protegido pelo mantra dos fãs, o veredicto: Jodie e Neil, vocês arrebentam! Ela é uma radialista que, numa noite de passeio pelo Central Park com o namorado, é brutalmente atacada (numa das cenas mais fortes do ano). Quando acorda do coma, ele já morreu e a ela só resta a dor da saudade, o medo que nunca tinha sentido antes e o sentimento de revolta contido. Tudo isso junto a leva a comprar uma arma, e num momento de desespero, matar um assaltante numa lojinha. O que se segue é a formação de uma vigilante das ruas, que mata toda vez que ameaçada e em situações de perigo extremo. Boa discussão datada (ainda vale a pena a tal “justiça pelas próprias mãos”?), mas bem dirigida, o filme prende a atenção com uma Jodie sempre faíscante ao lado de um Terrence Howard também excelente (o policial encarregado da investigação dos crimes do ‘vigilante’). No mais, o máximo que vai ser conseguido tirar de negativo de mim é o fato de que o filme cai muito durante suas 2 horas de filme. Mas nada disso impede Jodie e Neil (um dos diretores que mais admiro) de brilharem. E tenho dito. NOTA 8.

Fico por aqui, com mais uma nota 10 na lista, e que venham mais de onde essas saíram. Um abração a todos e até amanhã.
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Diário do Festival
24/09/07 – Dia 4

Hoje, duas coisas não saíram da minha cabeça durante o dia: como as pessoas se disponibilizam para o Festival e até que ponto os imprevistos atrapalham o lazer dos outros. A primeira questão remete a mim mesmo, já que hoje eu assisti a nada menos que 6 filmes durante o dia. Isso mesmo que vocês leram, 6 filmes! Fiquei pensando em como o cinéfilo carioca encara essa maratona de 14 dias, se existem muitos malucos como eu, que tiro licença do trabalho pra poder me dedicar exclusivamente ao evento, e, também, se existem ainda mais doidos que eu, que assistem filme em cima de filme, até sair negativo pelos olhos. Como sempre é bom deixar claro: se há alguma parcela de obrigação nisso tudo (e agora de fato há, devido ao site), há um lado muito mais forte nisso, que é a minha paixão incondicional pelo cinema. O cansaço não chega a me abater, e acabo me revitalizando com o acesso a tantos e tantos filmes.

A segunda questão faz-se presente devido à temperatura, cujo declínio acompanhamos hoje. O frio intenso e a chuva fraca e ininterrupta não fez nenhuma diferença pra mim, mas será que os seres humanos normais deixaram de ir ao cinema por conta dela? Também digo isso pelo fato de ter presenciado fato ligado a isso, já que um amigo simplesmente desistiu do Festival, hoje, por conta do tempo, mesmo com ingressos comprados. Em contrapartida, as salas continuam lotadas nas sessões que conferi, além da central de ingressos também estar igual aos outros dias, cheia e ligeiramente caótica.

Depois da nota 10 de ontem, confesso que fui esperando mais do que os filmes de hoje poderiam oferecer e me decepcionei, mesmo que 3 deles tenham divertido bastante. Vamos aos de hoje:



A Culpa é do Fidel!
– produção francesa dirigida pela filha do mestre grego Costa-Gavras, Julie Gavras, que já começa na carreira carregando uma bigorna nesse sobrenome. Ela escolhe um tema político com a cara do pai (a ditadura chilena da década de 70, com a disputa de poder entre Salvador Allende e o general Franco) e envereda pela doçura, com a filha questionadora de um casal disposto a ajudar a causa latina. A menina, de apenas 8 anos, acaba se inteirando como pode sobre a revolução, e começa então a comprar a causa chilena. A pequena Anna acaba dando um show de vitalidade, quase tudo causado pela sua intérprete. Toda vez que o esperto roteiro parece querer tomar um atalho, a interpretação da menina coloca tudo de volta nos trilhos. NOTA 8.
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O Preço a Pagar – comédia tipicamente francesa, com um elenco exemplar: Christian Clavier, Nathalie Baye, Gerard Lanvin. Eles levam esse longa de apelo bem popular a um nível bem grande. O filme conta a história de um casal que já não transa mais por escolha da esposa. Quando o marido no auge do desespero retira seus cartões de crédito a fim de conseguir transar com ela, eles acabam deflagrando uma forte tensão também no lar do motorista deles, com problemas idênticos. Sem um grande roteiro (apenas ótimos diálogos), resta o elenco segurar as pontas de uma trama capenga. Vale pela diversão. NOTA 7.
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Sombras Elétricas – produção em cartaz na mostra destinada à China no Festival, o filme começa envergonhando seu país de origem. Todo calcado num melodrama fuleiro de beira de estrada, com péssimas interpretações e uma direção vagabundíssima. Quando chega à segunda fase do filme, ele melhora consideravelmente, pois até o elenco é renovado. A história em torno da amizade entre um casal de crianças durante a infância, adolescência, até se tornarem adultos. A paixão de ambos pelo cinema vai marcar todo o filme. Nada de mais ou de menos no fim das contas. NOTA 6.
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Medo da Verdade – Ben Affleck resolveu dar um tempo da enxurrada de críticas negativas e resolveu pegar no pesado saindo da frente das câmeras pra dirigir um policial honestíssimo, baseado numa obra do mesmo Dennis Lehane que também é o autor do oscarizado Sobre Meninos e Lobos. Aqui, Affleck pôs o irmão Casey como protagonista, tendo que desvendar o mistério que envolve o desaparecimento de uma menina de 4 anos. As participações maravilhosas de Ed Harris e Morgan Freeman como 2 policiais que também insvestigam o possível seqüestro e o surgimento de uma estrela desconhecida, chamada Amy Ryan (a mãe drogada da menina), revelam que Ben fez o máximo que pode em sua estréia na direção. A luz certa, o projeto certo,  a montagem precisa... é, esse estreante tem futuro... NOTA 8.
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Sonhando Acordado – depois da obra-prima Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças, o mundo estava de olho em Michel Gondry. Da mesma escola de Spike Jonze, o diretor francês não teve medo do próximo passo e foi à França natal rodar um filme bilíngüe com tintas repetidas de seu grande momento e realizou um delicioso tratado pop sobre a falta de iniciativa e o medo do ‘não’ nos relacionamentos. A identificação do público mais uma vez é imediata assim que começa na tela a história de Stéphane (um iluminado Gael Garcia Bernal), um mexicano que procura uma nova chance de emprego na Paris onde sua mãe nasceu. Lá, cai de amores por sua vizinha (Charlotte Gainsborgue) e começa a viajar em sonhos psicodélicos, onde se declarar à amada é muito mais fácil... e também mais “alucinante”. Com uma direção de arte espetacular e um elenco de coadjuvantes tão inspirado quanto a dupla protagonista (nunca percam Alain Chabat de vista), Gondry não chega ao nível de seu filme anterior (sabe-se lá o que será preciso pra isso), mas entrega mais um filme com a cara de nossa geração, cheio de “conflitos insolúveis” sobre a difícil arte de amar. NOTA 8,5.
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A Felicidade dos Sakai – encerrando o dia com o filme a ser batido na categoria “pior do Festival”. Sabe quando nada interessa, nenhuma interpretação é marcante, a trama não á atrativa a nenhum público, a parte técnica não diz nada a ninguém, a trilha sonora inexiste, onde se espera uma reviravolta qualquer em qualquer área e ela não vêm de jeito algum? Bem, estão diante de tal “jóia”. Um pai de uma família distante entre si, porém levando a vida, anuncia sua saída de casa, cujo motivo seria sua paixão por um colega de trabalho. Pintou interesse? Pois é, em mim também... e por isso, paguei o preço do tédio absoluto. E vamos combinar que a traminha do filho adolescente rebelde e envolvido com uma taradinha da escola é um porre! NOTA 1.

Mais um dia se passou, e não vejo a hora de chegar amanhã. É dura a vida de um viciado... Até amanhã, galera, com mais comentários do festival do Rio 2007.
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Diário do Festival
23/09/07 – Dia 3

Que atire a primeira pedra quem nunca dormiu demais depois do cansaço de passar um dia inteiro de cinema em cinema e acabou perdendo uma primeira sessão de um dia qualquer. Isso é de lei, já aconteceu com todo mundo que é assíduo, e geralmente vem lá pelo sétimo, oitavo dia. Acho que aconteceu comigo em todos os anos que fui ao Festival, e isso nem é uma novidade. Mas eu confesso que me assustei quando, ao invés de acordar às 8:00 da manhã hoje, só levantei às 10:00!
           
Como disse no início do texto, isso é mais que normal, mas acabou acendendo a luz alerta em mim quando isso aconteceu no terceiro dia. O que deveria querer dizer? Será que estou tão cansado que não estou agüentando o ritmo do que mais gosto de fazer? Será que o Festival desse ano está mesmo decepcionante como muitos estão dizendo (em matéria de programação)? Não encontrei a resposta, mas antes de pensar nela, tratei de voar para Botafogo, onde acabei perdendo somente os primeiros 20 minutos do primeiro filme de hoje (já avisado, então).
           
E hoje foi um dia de extremos no Festival. Apareceu, enfim, o filme nota 10 tão aguardado; em compensação, também apareceu um favorito pro lado obscuro. O mais engraçado é constatar que eles prometiam exatamente o oposto. De qualquer maneira, tirando o filme nota 10, foi um dia bem abaixo do esperado, com decepções a granel.
           
Enquanto isso, na central de ingressos, a balbúrdia nossa de cada dia continua, com a galera concentrada em saber quando poderemos comprar ingressos pro trio mais aguardado do ano, os vencedores de Berlim, Cannes e Veneza, nenhum dos 3 ainda liberados. No meio disso tudo, vamos encontrando velhos conhecidos, amigos que não vemos com freqüência, rostos de sempre, todos unidos pelo evento máximo entre os cinéfilos cariocas, que nem parece, mas só está começando.
           
E vamos a análise dos 5 filmes assistidos hoje pelo resenhista em questão:

Hallam Foe – típico exemplar do filme de ‘rito de passagem’, em que geralmente vemos um adolescente em processo de crescimento, interior e exterior. Aqui, o herói, Hallam Foe, desconfia que sua madrasta tenha matado sua mãe há 2 anos, por isso foge de casa. Ao conseguir emprego num hotel, acaba se enamorando da moça que trabalha na área de Recursos Humanos. E depois de vigiá-la, conseguir engatar um romance com ela e receber a visita do pai, sua vida obviamente vai mudar. Mas até melhorar, ainda ficará muito pior. O filme típico, como disse, acaba agradando na sua despretensão, mas é óbvio que a grande interpretação de Jamie Bell (de Billy Elliott), como o protagonista, leva o filme ao caminho certo. NOTA 7,5.
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Síndromes e um Século – guardem esse nome (sabe-se lá como): Apichatpong Weerasethakul. Guardaram? Pois bem, então fujam do nome desse senhor caso estejam a fim de ver um filme. Já se você quiser passar 2 horas na frente da tela grande em busca de existencialismos datados, imagens estáticas e chatíssimas e um grandíssimo NADA acontecendo, esse é o cara. E pensar que ontem eu vi um filme que, em tese, teria as mesmas características com resultados infinitamente superiores (Silenciosa Luz). Sinal de que não é por ser cabeça que um filme pode ser bom. Só não se pode negar coragem e personalidade a ele; isso o filme tem de sobra. A trama? Bem... alguém viu por aí? NOTA 2,5.
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Uma Moça Dividida em Dois – Claude Chabrol costuma bater ponto no Festival. Há 2 anos, lançou A Dama de Honra; ano passado, trouxe A Comédia do Poder; e agora, vem com essa farsa de suspense dramático. O diretor tão festejado, com tantos grandes títulos no currículo, já não tem mais tanto poder para apresentar hoje em dia. Assim como em seus longas anteriores, aqui ele fica mais na vontade de entregar um bom trabalho. Elenco ele tinha: a bonitinha Ludivine Seigner, o jovem talentoso Benoît Magimel e o grande contemporâneo de Chabrol, François Berléand (astro de seu filme anterior também). Aqui, acompanhamos uma jovem moça da previsão do tempo sendo cortejada por dois opostos: um senhor escritor consagrado e um jovem herdeiro entediado e metrossexual. Aos poucos, o drama romântico vai dando lugar ao suspense rasgado, com interpretações afetadas de todo elenco e cortes bruscos que fazem lembrar novelas mexicanas. Muito talento e pouco resultado. Já faz mais de 10 anos que entregou um último filmaço (Mulheres Diabólicas), e ainda não foi dessa vez que a inspiração voltou. NOTA 6.
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Nome Próprio – num ano tão magnífico para o nosso cinema, não surpreende nada saber que o melhor filme do Festival (até agora) é nosso. Por onde começar a lista de elogios? Bem, são tantos superlativos que fica difícil relacionar: Clarah Averbuck criou um misto de alter-ego e autobiografia praticamente impossível de ser filmado. Pois Murilo Salles (o homem por trás de Como Nascem os Anjos e Seja o que Deus Quiser!) conseguiu o impossível: algo absurdamente cinematográfico e tangível de um universo tão literário. A ajuda de Leandra Leal é também absurda, também extraordinária e também vivaz, real. No trabalho de sua vida, Leandra é Camila, uma jovem escritora às voltas com o fim de um relacionamento, bebedeiras, muita depressão, solidão e só o computador como arma pra focar tanta fúria incontida. É lá onde Camila despeja seu talento. E o público, maravilhado, aplaude o êxtase de uma experiência única. Pra quem já amou, pra quem nunca amou e pra quem acha que amar é fácil. Ou seja, pra todos nós. NOTA 10.
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Propriedade Privada – pobre filme que viria após Nome Próprio. O escolhido foi mais um típico exemplar de rito de passagem, esse ainda mais dolorido que Hallam Foe, com um jovem francês que não consegue libertar a própria mãe a novos relacionamentos por complexos, culpas e ressentimentos antigos. Nadinha novo, já vimos essa trama em inglês, português, italiano, espanhol... aqui, o talento da diva Isabelle Huppert é mais uma vez comprovado, como se ainda precisássemos de provas. Os irmãos Jéremie & Yannick Renier também contribuem para um filme agradável de assistir e com um final que vale a pena esperar, onde toda a mesmice do roteiro vai embora e uma paulada autoral vem na cabeça. NOTA 8.

Vou ficando por aqui, já aflito por mais. Depois da aula de cinema (e também de sensibilidade e juventude) de Murilo Salles e seu Nome Próprio, que venham outras notas 10. Um abraço e até amanhã, pessoal.     
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Diário do Festival
22/09/07 – Dia 2

Chegar na central de ingressos e não conseguir comprar entradas para o filme que você tanto gostaria de ver. Felizmente, nunca passei por isso (afinal, como bom rato de festival, estou ligado 24 horas por dia no que foi ou não liberado pra venda), mas conheço muita gente que sofre por perder vagas nas sessões de filmes que estavam em suas prioridades. Muitas coisas já esgotaram, e a maioria delas está entre os grandes e esperados filmes do ano (Império dos Sonhos, de David Lynch, é só um deles).
                      
Mas com uma oferta de mais de 300 títulos, não é possível que não se ache nada para repor no lugar desses medalhões esgotados. Em primeiro lugar, é quase certo que os filmes esgotados serão exibidos o mais rápido possível no grande circuito; em segundo lugar, é sempre bom procurar filmes pelos quais não temos certeza de sua volta. Hoje mesmo eu assisti a um filme que, a despeito de ter levado um prêmio no Festival de Cannes desse ano e de ser excelente, não está sendo badalado e tem toda cara de desaparecer depois do Festival, é uma produção mexicana e se chama Silenciosa Luz. Pesquisas pra saber do que se tratam e de onde vêm esses filmes são essenciais pra não perder obras que podem ser a grande sensação de uma mostra, ao mesmo tempo de servir pra que conheçamos o cinema de diferentes países, além de diferentes autores.
                      
Quanto à confusão por conta de compra dos ingressos, aos poucos isso vai se esgotando, e já conseguimos ver cada vez mais organizados e calmos cada um dos atendentes da organização. Ao contrário do que sempre falam, acho que esses rapazes estão sempre dispostos a nos ajudar, e olha que muitas vezes dúvidas não nos faltam.
                     
Mas agora vamos ao trio de filmes que conferi hoje, que melhoraram e muito o nível do Festival:

Silenciosa Luz – de cara, uma curiosíssima produção mexicana, completamente falada em alemão, o longa do diretor Carlos Reygadas saiu de Cannes esse ano com o Prêmio Especial do Júri (dividido com o francês Persepolis), e agora conferimos o quão merecida foi essa premiação. O diretor resolveu focar sua lente numa comunidade ‘menonita’ que vive no México (religiosos com desígnios próprios, contra as leis dos homens ou de Deus), e mais precisamente numa numerosa família. Johan (o pai da família) descobre-se apaixonado por outra mulher. Enquanto tenta viver esse amor e se desvencilhar das amarras do casamento, vemos Reygadas criar os mais belos planos dos últimos tempos (e a abertura, em particular, só encontra vestígio em beleza e fascínio na de Contato, de Robert Zemeckis), um raro auteur latino-americano com ares totalmente europeus, onde se encontra muito de Bergman em seu longa. Um filme essencial, mas infelizmente de apreciação intelectualizada, tente abrir seus sentidos a esse grande filme. NOTA 9.
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Um Jogo de Vida e Morte – suspense com tintas teatrais óbvias, remake de um longa de 72 com Laurence Olivier e Michael Caine protagonizando um embate antológico, o filme ganha roupagem moderna nas mãos de Kenneth Branagh, que volta a ficar atrás das câmeras. A adaptação da peça foi feita pelo genial escritor e dramaturgo Harold Pinter, e Caine volta ao filme, dessa vez no papel do homem mais velho, tendo o seu papel anterior sendo vivido por Jude Law (que já tinha feito um remake de Alfie, que Caine também já tinha imortalizado). A trama é básica: o mais jovem está tendo um romance com a esposa do mais velho. Quando o mais velho sugere um jogo entre eles na tentativa de reaver a amada, o mais jovem topa e ambos embarcam num caminho sem volta, onde puxadas de tapete serão obrigatórios. Caine é um grande ator e entrega algo à sua altura em interpretação; o espelho reflete em Law, que também está ótimo. Mas a frieza com que Branagh conduz o filme não nos faz envolver em momento algum, tornando tudo fake, exagerado e quase caricato (e os cenários espalhafatosos só contribuem pra isso). Fica o duelo entre 2 grandes atores, e seus diálogos rascantes muito bem proferidos. NOTA 7.
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À Prova de Morte – Quentin Tarantino está de volta, e como fez falta. Longe dos cinemas desde o fim da saga Kill Bill, o diretor cult/pop/transgressor/moderno (e mais muitas combinações de elogios) nos recebe com mais que um filme novo, mas sim uma idéia: recriar as sessões conhecidas nos EUA como grindhouses, nada mais que as antigas dobradinhas sexo/violência em sessão dupla nos cinemas, tão conhecida da juventude da década de 70. O projeto naufragou entre o público americano (muitos dizem que por causa da duração de mais de 3 horas) e o filme acabou sendo dividido em 2 partes, este, À Prova de Morte, e Planeta Terror, dirigido pelo chapa de Tarantino, Robert Rodriguez (que confiro semana que vem). Aqui, o homem que cunhou muito do que foi a cara do cinema independente nos anos 90 entrega tudo que ele já mostrou anteriormente, incluindo aí seus defeitos. Às custas de muito blábláblá, vemos um serial killer diferente vivido por Kurt Russell, que prefere matar suas vítimas usando seu carro como ferramenta, ou seja, atropelando-as ou dilacerando-as como for, a bordo de seu carango. Até o dia que encontra um grupo de meninas tão malucas quanto ele. Tarantino mostra que está longe de perder a forma com seqüências automobilísticas espetaculares, nos divertindo muito com sua cultura pop e com as brincadeiras com o gênero slasher (esses filmes de terror dos anos 70, com banhos de sangue); a própria exibição é um achado, com tudo que uma cópia de filme da época devia ser. Pena que, lá pelas tantas, ele esqueça da brincadeira e resolva fazer um filme bem feito, com montagem, fotografia e trilha sonora de primeira, saindo da brincadeira que ele mesmo se propôs. Não destrói nem deve tirar dele o título de filme mais divertido do Festival... e quer saber? Tarantino a gente se amarra até com defeitos. NOTA 9.

Bem, o Festival está melhorando, consideravelmente até. E que nesse domingo, que está prometendo, se cumpra o que mais queremos ver: o aparecimento do filme nota 10. Um abraço e até amanhã.
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Diário do Festival
21/09/07 – Dia 1

Parece que foi ontem que assisti a Um Casal Perfeito, meu último filme do Festival do Rio 2006, o evento que pára a vida do cinéfilo carioca e pelo qual eu, particularmente, passo o ano esperando. A oferta de títulos,o contato com cinematografias que não dão as caras com freqüência no circuito e a certeza de estar de frente da nata do cinema mundial de cada ano fazem que qualquer um sinta-se extasiado. Esse ano, temos os vencedores dos 3 maiores festivais de cinema do mundo (Berlim, Cannes e Veneza), o melhor do cinema independente americano, produções com pretensões oscarizáveis, isso quando o filme em questão não é isso tudo.

Como semp re, o meu Festival de cada ano começa um pouco antes que na sexta-feira habitual da largada cinematográfica. Quatro dias antes, eu costumo passar horas sentado numa calçada em busca dos tão sonhados ingressos para cada tesouro que a tela grande guarda; mesmo com a venda começando somente ao meio-dia, geralmente eu chego bem cedo pra ser um dos primeiros da fila (e isso também tem a ver com uma tradição formada nesse sentido). Pois bem, mesmo sabendo que esse ano eu estaria respaldado pelo Crônicas Cariocas, escrevendo aqui e trazendo tudo sobre o Festival a vocês, resolvi manter a tradição da fila, até pra também acompanhar o suplício de todo ano (alguma confusão, alguns atrasos, alguma tensão). Mas nada que não seja absolutamente fascinante, a meu ver, com tudo já fazendo parte da magia do Festival.

Hoje, ao chegar para o meu primeiro dos catorze dias do evento, vi que tudo continua igual na Central de Ingressos. Os mesmos velhos rostos conhecidos, os mesmos flashes dos repórteres, a mesma balbúrdia, a mesma apreensão em torno dos filmes liberados pra venda. O festival continua o mesmo... ainda bem.

Agora deixo aqui as dicas do meu primeiro dia de Festival, com os 3 primeiros filmes assistidos:

O Sol – produção russa, dirigida pelo mestre Aleksander Sokurov, mas completamente falada em japonês (e um pouco também em inglês) contando os últimos dias da trajetória do Imperador Hirohito, ao fim da Segunda Grande Guerra. Os jovens japoneses, já desacreditados, são incentivados pelo líder a permanecerem nos campos de batalha, já que os EUA ainda estão de olho na execução dele. Sua solidão, sua extrema dependência, toda a sua idiossincrasia é mostrada sem retoques por Sokurov, que também assina a majestosa fotografia e trata o Imperador com a mesma reverência (e ao mesmo tempo simplicidade e sinceridade) que já tinha feito com Adolph Hitler em Moloch. Imperdível. NOTA 9.
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Irina PalmMaggie é uma mulher solitária, uma britânica que vive das reuniões com vizinhas e do amor incondicional que alimenta pelo neto doente. Quando os médicos anunciam que sua cura estaria num hospital australiano, Maggie resolve mais uma vez sacrificar-se sem pudores, ao aceitar um emprego num bordel masturbando clientes. A trama, que caberia num curta metragem de 15 minutos, é esticada além dos limites do bom senso, o que vai banalizando suas boas intenções iniciais. A sobriedade de Marianne Faithfull num papel difícil, porém carismático, segura as pontas num filme em que nada de novo é mostrado sobre a habitual prática britânica de produzir conceitos – desempregados feios que fazem striptease (Ou Tudo ou Nada), velhinha que planta maconha pra ganhar dinheiro (O Barato de Grace), velhinhas que resolvem posar nuas por uma boa causa (As Garotas do Calendário), etc – que rendem, no máximo, nossa simpatia. NOTA 5.
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Mundo Livre – outro grande mestre no mesmo dia, dessa vez é o vencedor da Palma de Ouro do ano passado, Ken Loach (por Ventos da Liberdade). Mas ao contrário do russo Sokurov, Loach comete aqui uma escorregadela nada habitual, às custas de um roteiro que, apesar de premiado agora em Veneza, apela para todo tipo de clichê ao se desenrolar. Angie foi demitida de uma agência de recrutamento de imigrantes para emprego. Como é decidida e empreendedora, resolve montar sua própria agência em sociedade com uma amiga. Mas a posterior possibilidade de lucro rápido e fácil faz que ela abandone seus ideais e se torne uma pessoa cada vez mais egoísta e inconseqüente. O grito de alerta para com os dramas urgentes da sociedade (marca registrada do diretor) estão aqui, mas, dessa vez, ele os aplica de forma pobre e gratuita. Mesmo assim, ao lembrar do filme, o que ficará é a lembrança da força de uma personagem transgressora e ímpar, dotada de uma força cênica incrível e que merecia mais do roteiro, mas que consegue sobreviver sozinha e marca o filme. NOTA 7.

Esse foi o primeiro dia do Festival. Se não começou consagrador, pelo menos esteve longe de merecer pedradas. Que venham mais 10, 20, 30, quantos filmes forem, e eu estarei aqui trazendo as novidades do Festival pra vocês e contando tudo sobre os filmes exibidos. Um abraço e bom Festival.