PARANOID PARK
Foto: Divulgação/IFC Films / Imovision
A angústia trazida pela culpa de um crime freqüentemente é usada como pano de fundo para contar histórias densas e altamente reflexivas. Seja na literatura, na música ou no cinema, esse tema profundo dá à obra dimensões trágicas onde nem o mais frio dos expectadores seria capaz de sair indiferente. E o diretor Gus Van Sant, (leia crítica de Francisco Carbone) sabendo disso, foi buscar no romance de Blake Nelson, a inspiração para mais uma vez estudar a mente humana acerca de um crime.
Utilizando praticamente o mesmo cenário de seu controverso filme, Elefante, a trama desdobra-se quando Alex, um adolescente de 16 anos, acidentalmente, mata um agente de segurança de uma via férrea em Portland. Engolido por uma torturante aflição, o jovem adentra um mundo que remete a um Crime e Castigo moderno, colocando-nos assim, lado a lado com as divagações do protagonista, dividido entre a culpa e a necessidade de absolvição.
E o cineasta mostra uma incrível capacidade ao entrar nesse mundo, desmistificando tabus e mostrando que muitas vezes esses mesmo jovens, que a nossos olhos parecem somente produtos da indústria midiática (seja ela “comum” ou underground), são sim capazes de se envolver com intensidade em seus próprios pensamentos e atos. E ao ver o jovem Alex discorrer sobre suas ações, analisando-as com um olhar crítico e racional, encaramos sua iniciativa como uma espécie de redescoberta da consciência, que parece perdida nessa geração, que comumente se mostra incapaz de se aprofundar em qualquer tema, seja por preguiça ou por conformidade.
Infelizmente, essa falta de interesse na profundidade afastará muitos jovens dessa sessão já que Van Sant faz um filme lento e dotado de imagens reflexivas. Cheio de perguntas, entretanto, sem “dar de bandeja” alguma resposta direta e com as já famosas cenas “flutuantes” características do diretor, que incomodam a alguns. Aqui elas se apresentam ocasionalmente, como nas cenas filmadas em 8mm que mostram os skatistas em atividade: elegantes sim, mas dispensáveis no ponto de vista narrativo, acabam atrapalhando por quebrar o clima da película, fazendo-a, por vezes, parecer arrastada.
Há, contudo, cenas que mesmo sendo imbuídas de caráter poético não soam tão cansativas, pelo contrário, são imagens comoventes que nos aproximam de Alex e sua dor, e que despertam uma imensa compaixão pelo garoto. Uma delas é particularmente tocante: ao perceber a dimensão do que acabara de, involuntariamente, fazer, a primeira atitude de Alex é tomar um banho, em parte para se livrar das marcas literais causadas pela morte, mas principalmente para lavar a alma, e talvez com isso expiar o crime que acabara de cometer. A cena é feita num plano-seqüência escuro e melancólico, que dura pouco mais de um minuto, arrebatando-nos moralmente sem apelar para um pingo de melodrama. Quem não se apiedar do menino ali, não tem coração. Isso é indiscutível.
E a decisão do diretor em utilizar, preferencialmente, um elenco de atores não-profissionais se mostra muito acertada tendo em vista que o trabalho oferecido por estes resulta em atuações extremamente críveis. Principalmente a de Gabe Nevins, que vive Alex sempre de modo inquieto e curioso, seus olhares evidenciam muitas reações e pensamentos que dispensam palavras.
Assinado pelo próprio Gus Van Sant, o roteiro de Paranoid Park (leia outra crítica na página do Festival do Rio 2007) também merece uma ressalva honrosa já que apresenta diálogos afiados e realistas evidenciados no momento em que Alex conversa com sua amiga, Macy: quando o rapaz afirma que problemas familiares e de cunho romântico são fúteis e pequenos perante a grandes problemas na humanidade como a invasão do Iraque e a fome da África, a resposta da menina é direta e incontestável: “Até que aconteça com você.”
E Macy (a emo-sabe-tudo) mostra a ele modo mais fácil de, se não expiar, ao menos aliviar a culpa: o desabafo. Sem ele, há uma sensação sufocante e dura de que nunca mais a situação poderá ser dissipada ou esquecida. E o modo com que Alex consegue aliviar a sua é ingênuo, porém, de uma eficácia inabalável.
(Leia outra crítica sobre este filme)
Cotação para este filme:
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