PLANETA TERROR
Conhecidos admiradores dos filmes trash que assolavam as salas de cinema nas décadas de 70 e 80, Robert Rodriguez e Quentin Tarantino decidiram iniciar um projeto inspirado naquelas clássicas sessões duplas regadas a sexo, tosquice, e sangue. Muito sangue.
O clima era o de uma inusitada brincadeira e de uma honrosa homenagem. Tarantino fez um filme cheio de referências ao estilo, mas muito bem acabado e dotado de seu conhecido virtuosismo. Rodriguez levou a coisa a sério. Incorporou o espírito do projeto e quase nos fez esquecer que o que víamos era produto do trabalho de um competente diretor. Mérito pra ele, afinal, cumpriu com louvor seu intento fazendo um filme incrivelmente tosco, sensual, nojento e divertido.
A premissa e o desenrolar da trama não poderiam ser mais absurdas: um bando de vilões altamente canastrões tem em mãos uma poderosa arma química (e esperem até ver a mando de quem ela foi desenvolvida) e, quando uma negociação dá errado, o gás tóxico é liberado, transformando em zumbis todos que entram em contato com ele.

A esperança de cura reside nos corpos dos personagens mais estranhos possíveis. Todos com arquétipos bem claros e facilmente classificáveis: o mais interessante é a já famosa Cherry Darling. Uma voluptuosa go go dancer que sonha em ser “algo mais” na vida. O que, a princípio, parece se encaminhar para um chato clichê, surpreende ao destruir o sonho da moça quando sua perna é amputada e em seu lugar é posto uma ENORME arma (daquelas que fazem os estadunidenses babarem).
E tem mais: o cientista excêntrico, vivido por Naveen Andrews, o Sayid da série Lost, o misterioso e competente El Wray que “não erra nunca”, o dedicado cozinheiro de uma churrascaria medonha e seu irmão, o bom policial, encarnado pelo sumido Michael Biehn, de Exterminador do Futuro, putas mexicanas barulhentas, um médico corno e psicopata e sua mulher adúltera e lésbica e ainda Tarantino e Bruce Willis em participações curtas, porém marcantes, devido a seu teor esdrúxulo e cômico. Ufa!
Esse é um dos principais destaques da realização. O filme foge totalmente dos padrões ao colocar essa série de personagens incomuns e os mostrar em cenas polêmicas (como uma que envolve a esposa lésbica e seu filho em um carro) com coragem e originalidade. E os atores colaboram prontamente, oferecendo performances totalmente dentro do contexto do filme, divertindo-se junto com o espectador.
Toda a parte estética do filme é propositalmente alterada a fim de que o longa pareça mal feito e desgastado. Cortes abruptos acontecem durante a projeção e uma parte do filme (um clímax no sentido mais literal possível) é perdida. Uma brincadeira hilária que implica numa mensagem da gerência do cinema pedindo desculpas pelo imprevisto. Porém, o sistema digital de som está lá para os ouvidos mais exigentes. Nada de interferência sonoras, o som é límpido e perfeito.
Rodriguez mais uma vez acerta a mão com cenas de tiroteio que lembram muito as de jogos do gênero terror e também quando cria manobras inventivas com acessórios dos mais variados que incluem helicópteros, injeções e, é claro, armas. Aliada a esses sucessos, está a empolgante trilha sonora, que vem apimentada com um clima latino típico dos filmes do diretor. Enquanto sua parte irmã não estréia do Brasil, Planeta Terror mantém-se como um dos melhores representantes do cinema trash do ano, talvez da década.
Cotação para este filme:
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