CORPO
Foto: Divulgação
Artur (Medeiros) trabalha num necrotério paulistano. Entra cadáver, sai cadáver, ele se preocupa mais com o motivo do óbito do que com os corpos sem vida. Contudo, certo dia, chega o corpo de uma mulher, em perfeito estado de conservação. Fazendo uma pequena pesquisa, o personagem descobre que o defunto é fruto de uma desova dos tempos da ditadura – a narrativa se passa nos dias atuais. Na busca por um funeral descente à vítima e uma explicação lógica ao ocorrido, Artur esbarra na chefe, Lara (Couto), que não quer deixar que ele siga adiante, e Fernanda (Arruda), uma jovem excêntrica, que é parente mais próxima da pessoa identificada naquele ser inanimado.
Rossana Foglia e Rubens Rewald, diretores e escritores de “Corpo”, não fornecem respostas imediatas e fáceis ao espectador. Inicialmente, tudo parece simples. Artur tem uma profissão diferente, que leva como se fosse algo normal. O público naturalmente estranha o prólogo, com cenas explícitas de cadáveres sendo abertos, mas logo se acostuma. O longa se aproxima de “O Cheiro do Ralo” e “Estômago” na esquisitice, mas fica longe de quaisquer irreverências. Ele é frio, como a mesa de operações do cenário principal. Dispensa-se cerimônias em casos como morte em assalto (vemos a preocupação do protagonista ao maquiar a verdade para o parente de uma vítima) ou, pior, numa porção de sacos de ossos, encontrados enterrados, provavelmente frutos de uma chacina.
Fernanda conhece Artur ao verificar o corpo. Tranqüila, afirma que a mãe está viva e não é aquela pessoa sem vida, embora tenha a mesma identidade. Promete que provará a não-morte de sua genitora, mas demora a encontrá-la. Ela não está em casa. O médico-legista a segue, se envolve em situações nada amistosas, tudo para chegar à verdade deste bizarro caso, que ninguém dá atenção.
Ao mesmo tempo, uma outra narrativa se desenvolve, em “flashbacks”. Uma moça chamada Helena (Alves), de poucas palavras, tem sua vida há décadas atrás, tempo semelhante ao que viveu, até agora, Fernanda. Para rápido entendedor, aquela seria a mãe a moça, antes de pensar em gerá-la. Mas nada é tão simples assim.
Foglia e Rewald propõem duas saídas. Cabe ao espectador escolher qual ele prefere. O problema é que uma história acaba sendo descartada, o que confere maior subjetividade ao longa, como um todo. Logo, não se sabe mais o que é real ou imaginário. Os limites da história são subvertidos a nada. Niilismo puro.
“Corpo” tem um quebra-cabeça sendo montado ao longo de seus 90 minutos, quando, nos últimos momentos, se revela mais complexo do que se imaginava. A derradeira peça serve perfeitamente em qualquer narrativa. Para aqueles simpatizantes de uma história circular, o filme é como uma espiral, sem nunca fechar a sua forma. Com mais uma exemplar atuação de Leonardo Medeiros, este é um filme difícil, mas intrigante e instigante.
Cotação para este filme:
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