Antes que o Diabo saiba que Você está Morto
Foto: Divulgação
O que é muito óbvio, logo se contradiz. Em seu novo filme, Sidney Lumet apresenta uma história terrivelmente chocante já em sua sinopse. O trailer parece entregar boa parte dela, sem medo de não surpreender o espectador. Mas isso é só o começo. O tormento de “Antes que o Diabo Saiba que Você Está Morto” atinge índices mais profundos.
Andy (Hoffman) e Hank (Hawke) são irmãos. O primeiro é um empresário falido e o outro, um pai divorciado que não pode pagar tudo para a filha. Surge a oportunidade de realizar um assalto. Os dois nunca haviam feito algo do tipo antes. Andy propõe e Hank é obrigado a aceitar. O alvo é uma loja de jóias. Os donos são seus idosos pais. A operação não dá certo e acarreta problemas para todos.
A ruína que a dupla enfrenta se espalha em todos os âmbitos, mas Lumet se concentra mais na familiar, já que está relacionada com quase tudo. Eles se preocupam apenas com si próprios e não vêem as pessoas ao seu redor, que respiram do mesmo ar e têm suas atitudes. Um erro fundamental, que faz com o imprevisível e não-desejado ocorra.
A caracterização dos personagens é importantíssima até o último minuto de película. Andy é um sujeito naturalmente frio; a pessoa mais indicada para armar este plano tão audacioso. Hank é o sentimental; sempre foi o queridinho dos pais. Essa atenção maior de um filho para outro é tratada com a mesma seriedade.
Há uma obsessão pelo crime perfeito. Os detalhes não podem ser esquecidos para Andy. Contudo, na hora H, o pensamento de que tudo já está resolvido prejudica, e muito, a operação não realizada.
Lumet fornece diversos pontos de vista da narrativa que está se desenrolando. O filme é dividido por elas. Pode-se voltar no passado ou mudar de cenário. O importante é que o sentimento de cada personagem, pelo menos os mais importantes, seja apresentado. Isso revela detalhes imprescindíveis de toda a ação, caminhando para um imprevisível final.
Philip Seymour Hoffman teve muitos papéis de seres problemáticos, doentes e incômodos. Aqui, essa aura não é dissipada, mas seu personagem é mais, digamos, contido. Ethan Hawke, por mais canastra que possa ser, cai como uma luva, representando com eficácia o contínuo nervosismo de Hank.
No elenco de apoio, quando o principal já parece cumprir seu dever, surpreende. Albert Finney faz o pai desesperado, e até egoísta, dos dois rapazes. Sua condição idosa não é barreira mais ilustrar uma figura que se transforma com o imprevisível. O ator rouba quase todas as cenas. Enquanto isso, Marisa Tomei, cotada a melhor performance de atriz coadjuvante nas principais premiações, decepciona pelo pouco tempo em cena para mostrar o que sabe e sempre duvidaram. Sua participação é ilustrada na cena em que Gina (sua personagem), está olhando pela janela o duelo de dois grandes atores. Não pode fazer nada.
Talvez o filme exagere um pouco nas cenas de sexo (ver os seios bem conservados de Marisa Tomei é um prêmio, mas sua aparição é duvidosa), mas se compensa pelo aterrador desfecho, que se desenrola no curso natural das coisas, sob uma surpreendente caracterização.
“Antes que o Diabo Saiba que Você Está Morto” possui ótima direção, montagem e atuação. É ambíguo, às vezes, tentador e situações nauseantes desde o início. As emoções rolam de todos os lados, a partir de situações bem distintas. É uma ruína familiar e moral que merece ser vista, sem o risco de desligar o cérebro. Um cinema sem papas na língua, à altura da experiência de Sidney Lumet.
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Cotação para este filme:
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