SERRAS DA DESORDEM
Foto: Divulgação
O índio é a raiz do povo brasileiro. Desde a época do “descobrimento” (na verdade, deveria ser chamado de “conquista”), esse povo vem diminuindo exponencialmente. A tendência é a extinção, como um animal qualquer. Contudo, há reservas que adiam esse derradeiro momento.
“Serras da Desordem”, do italiano (com raízes brasileiras) Andrea Tonacci, não é uma crítica ao que estão fazendo com os índios, mas sim a nós mesmos. Carapirú é um desses personagens que andam na selva desnudos e conhecedores de técnicas rudimentares para sobreviver. De repente, humanos invadem o local, promovem uma verdadeira chacina do grupo local e o protagonista é quem consegue fugir.
A história é verídica, encenada por pessoas que a vivenciaram. Ficção e documentário se misturam, assim como atuação e nostalgia. Tudo se passou há trinta anos, mas as lembranças estão vivas. Carapirú acaba parando numa comunidade sertaneja, onde é acolhido e educado de acordo com os costumes locais (leia-se vestir roupas e comer com talheres). Contudo, ele não consegue abandonar traços de sua origem, isto é, sua linguagem. Decora algumas palavras em português, mas permanece parte daquilo que era antes.
Sendo recolhido pelo indigenista Sydney Possuelo e afastado daquelas pessoas que considerava como uma nova família, o personagem pára em Brasília, onde virará sensação na mídia e conviverá com a máxima civilização, cercado por robustas construções, eletrodomésticos e urbanidade. A intenção é levá-lo de volta ao habitat natural, em algum ponto do Maranhão, onde perdeu tudo. Na verdade, as pessoas falam por ele, que está confuso pelas novidades do mundo moderno. Em sua boca, apenas um misterioso sorriso. O espectador desconhece seus verdadeiros sentimentos. Isso excita a sua curiosidade.
Descrito até aqui, “Serras da Desordem” parece muito simples. Ledo engano. É tão complexo a relação do personagem principal com sua forçosa jornada. A primeira meia hora é do mais puro experimentalismo. Tonacci alterna entre colorido e P&B, utiliza alguns planos-seqüência e, muitas vezes, deixa que a câmera se encarregue da narrativa, apenas com a captação sonora do ambiente e reações naturais do que está sendo visto (embora os índios ali estejam “atuando”). O título chega a aparecer bem depois, num momento totalmente inesperado. Interrogações ficam, mas nem tudo pode ser respondido de prontidão.
A retirada de um animal de seu meio ambiente pode trazer graves conseqüências para todos os lados. Desequilibra todo um ecossistema. Muitas vezes, a tentativa de readaptá-lo em cativeiro não funciona. O estrago já está feito. Com o índio é a mesma coisa. No fim, a destruição dele é a nossa própria destruição. Acaba-se com a cultura nativa da região em prol de uma velada evolução.
O longa de Tonacci é um aviso; documento valioso de uma linguagem intrigante e instigante. Perguntas ficam no ar. Até onde a identidade de um povo pode ser preservada, a partir do momento em que ele se contamina involuntariamente com outras experiências? Para pensar.
Cotação para este filme:
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