UM BEIJO ROUBADO
Foto: Divulgação/Europa Filmes

O fim de relacionamento é uma dor, cheio de lamúrias. Elizabeth (Jones) acabou de deixar o namorado e, ali perto, entra numa cafeteria, onde vira amiga do dono, Jeremy (Law) e fã suas rejeitadas tortas de mirtilo (a “blueberry”, do título original). Deixa um molho de chaves no local e parte para uma viagem descobrimento. Nas mais diferentes cidades ianques, como a garçonete que deseja comprar um carro, Lizzie percebe que o incômodo sentimental dos outros é maior que o dela.
“Um Beijo Roubado”, primeiro filme em inglês do chinês Wong Kar-Wai, fala de temas habituais do diretor: paixões perdidas e amores platônicos. Por se inserir num cenário mais competitivo, com um elenco de estrelas, Kar-Wai e o também roteirista Lawrence Block entregam uma história mastigada, que também é mais simplória.
A metáfora em torno das chaves sem dono, dentro de um recipiente, é bem interessante. Espera-se que os donos delas venham buscar, sinalizando a volta com a pessoa amada, que compartilhava aquele objeto. Mas, o que se tem são histórias, contadas por Jeremy, que também perdeu um amor.
O clima da película é toda depressiva, marcada por canções de Norah Jones e Cat Power (que também está no elenco, a propósito), repetidas com insistência pelo diretor. A fotografia é bela, pintada pelas luzes de neon, balcões e ambientes noturnos, em sua maioria. Às vezes, o que sobra para estes desamparados é ver seus reflexos no vidro de bares e outros estabelecimentos, como o de Jeremy.
Apesar das aparências, Norah Jones e Jude Law formam um casal monótono. A cantora jazzística, que não teve aulas de atuação a pedido do diretor, não está ruim, mas é ofuscada facilmente pelos coadjuvantes. Estes são Rachel Weisz e David Strathairn, surgidos no segundo ato, retratando a separação de um casal, através de bebedeiras, brigas e tragédias. É o momento alto da história. A seguir, quando Natalie Portman aparece como uma extravagante e caricata jogadora de pôquer, o filme volta ao ponto morto, sem grandes exaltações.
Diferentemente de “Amor à Flor da Pele” e “2046 – Os Segredos do Amor”, “Um Beijo Roubado” carece de empatia para consolidar suas intenções. Falta o espectador se transportar para dentro da tela. O que ele vê são apenas personagens, sofridos e distantes. São como as tortas de mirtilo filmadas: parecem suculentas, mas o sabor não pode ser sentido.
*Leia outra crítica em Respirando Cinema
Cotação para este filme:
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