DELÍRIOS
Foto: Califórnia Filmes

Como bem se sabe, a relação entre imprensa e celebridades é de amor e ódio, principalmente quando o primeiro grupo é representado pelos terríveis “paparazzi”. O senso comum é de que estes invadem a privacidade dos famosos para conseguir uma mísera foto. Claro que, apesar dessa suposta falta de ética, visto que o ato faz bem para os dois lados (propaganda para um e trabalho para o outro), o público adora ver o que seus ídolos estão fazendo, fora do ambiente profissional.
“Delírios” tenta desmistificar esse universo, mostrando que as pessoas também são humanas, apesar das aparências. Para o diretor e roteirista Tom DiCillo (“Johnny Suede”), as celebridades são mesmo fúteis, apesar de enfrentar problemas de relacionamento. Contudo, ao retratar um fotógrafo desse ramo, a estereotipação fica só na camada mais externa.
Les Galantine (Buscemi) mora num apartamento bagunçado e pequeno de Nova York, vivendo das fotos que tira e vende para grandes revistas. Clama pela credencial mais alta de um evento para encontrar os artistas mais conhecidos e registrar seus momentos mais constrangedores. Também aproveita para roubar brindes e acabar com a comida oferecida nesses lugares. Apesar disso, ele é apenas um cara solitário e incompreendido pelos pais.
Quando conhece e abriga Toby (Pitt), um morador de rua com o sonho de ser ator, Les encontra um parceiro ideal para seu trabalho. Contudo, o maltratado, mas bem-apessoado rapaz, é ingênuo demais para perceber o que seu amigo fotógrafo está planejando. Numa de suas idas a festas de famosos, reencontra K'Harma Leeds (Lohman), uma cantora pop com quem já havia trocado olhares em uma situação anterior. Os dois saem, ele é flagrado pela mídia e confundido como seu namorado, e acabam terminando num quarto de hotel, com ela bêbada. O passaporte para uma vida melhor de Toby está garantido, mesmo que ao acaso. Mas ele está apaixonado.
O feitiço vira contra o feiticeiro. O mendigo se torna material de trabalho de Les, mas este não gosta nem um pouco. O fotógrafo diz que não é um “paparazzo” e afirma que as celebridades são iguais a seres humanos. Até considera a possibilidade de ligar para Robert De Niro e convidá-lo para um café, insinuando que sejam amigos. Contudo, seu excesso de confiança e histórias de pescador são quebrados quando encontra um famoso, frente a frente, sem a limitação de credenciais. Ele mal consegue falar e faz aquilo que mais sabe. Põe tudo a perder, claro.
O filme derrapa em criar uma trama romântica pouco convincente, mas é até maduro ao retratar o rápido relacionamento de Toby com a moça que lhe dá uma chance de trabalho (a bela Gina Gershon). Steve Buscemi representa muito bem o dúbio personagem. Sua falta de beleza é válida para a crítica à indústria de celebridades, que põe em evidência só os mais bonitos. O único porém é que, através de uma coincidência que movimenta o enredo, no terceiro ato, Les abandona essa ambigüidade para abraçar um lado bem exagerado e folhetinesco.
O caminho final do longa parece inevitável, mas os últimos acontecimentos são tomados por uma brusca e rápida reviravolta. Foge totalmente do contexto daquele momento. Diria até que é anticlimático. Ou melhor, um delírio.
Cotação para este filme:
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