NÃO ESTOU LÁ
Foto: Divulgação/Europa Filmes
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Dizem por aí que só as mulheres têm o direito de ser complicadas. Pois bem, em “Não Estou Lá”, o complexo Bob Dylan não é só uma mulher, mas também uma criança e outros quatro rapazes. O filme, por sua vez, é tão pouco convencional, assim como seu protagonista, que confunde a cabeça do espectador, principalmente os poucos chegados na vida do autor de “Like a Rolling Stone”.
O diretor Todd Haynes (“Velvet Goldmine” e “Longe do Paraíso”) faz um ensaio sobre os diversos caminhos que Dylan percorreu, sem ordem ou sentido definidos. O protagonista, interpretado por seis atores, possui os mais diferentes nomes, ausentando o mais óbvio. Possuem diferentes pensamentos. Nem parecem a mesma pessoa. Mas possuem alguma ligação entre si.
Woody (Franklin) pega uma ilegal carona, num trem, junto de seu violão-ideológico, para visitar um conhecido no hospital. Dá uma aula, com sua coleção de palavras, aos passageiros do vagão. Arthur (Whishaw) é um poeta francês sendo julgado, no século XIX. A câmera, sempre em seu rosto, sem mostrar outros elementos, concentrada apenas em um monólogo, pode evidenciar que ele seja a consciência dos outros personagens. Billy (Gere) se refugia melancolicamente em uma pequena cidade, que está em fase de transição. Jack (Bale) é o ator no filme biográfico “Grain of Sand”; sua trama parece a menos difundida. O “popstar” Robbie (Ledger) tem problemas com a esposa (Gainsbourg). Jude (Blanchett), com a imprensa e o resto do mundo.
Dylan pode ser considerado um dos maiores nomes da música, mas isso não garante sua popularidade, evidenciada principalmente em uma apresentação, na qual ele metralha todo o público. Ótimo jeito de passar uma idéia. Ele muda de gêneros e ideologias quando quer. Assume um compromisso apenas consigo mesmo. Garante-se por suas letras. Não se vê na obrigação de agradar. De qualquer maneiras, existem gênios que foram “descobertos” apenas após suas mortes.
O filme merece ser mais sentido do que entendido. A viagem em torno das tramas é fantástica. A vontade de conhecer, para os não-iniciados, ou se viciar ainda mais com a cultura dylaniana é intensa, ao final da sessão. O cantor e compositor de voz rouca sempre viveu à margem do estrelismo, sabendo usá-lo ao seu favor quando surgida uma oportunidade. Paquerou modelos descaradamente. Era amigo dos Beatles e ignorava a multidão de fãs que eles possuíam. Protestou a favor da paz até resolver parar, como se já fosse um ultrapassado hábito. Ele ditava suas regras, num mundo cada vez mais contra elas.
Haynes foge das atuais cinebiografias, indo muito além do convencional. Não conheceu Dylan pessoalmente. Apenas obteve sua autorização para tocar a película. Sem essa “contaminação”, recriou a figura de um mito, imperfeito e complicado. Muito se deve também à montagem esplendorosa e dedicação de todos os atores.
Cate Blanchett é a melhor dos seis. Não porque é uma mulher que encarna divinamente um homem, se tornando irreconhecível. Talvez porque sua história é a melhor. Certeza que ela se debruça ao máximo, com tudo que tem em mãos. O fato é que aquela incerteza, do personagem ser homem ou mulher, é a mesma ao perguntar a identidade daquela pessoa, sem distinções. Faltarão respostas.
“I’m Not There” é uma canção que ficou de fora de um antigo álbum de Dylan, agora desenterrada. O título retrata muito bem a dinâmica do filme, que metralha o espectador até não poder mais. Este, por sua vez, não encontra seu personagem ideal na união de todas as encenações. Dylan é um homem, uma mulher, uma criança, um adulto, um branco ou um negro, não importa. Seria ele a figura de Deus, quem sabe? Está aí alguém interessante para se acreditar.
(Leia outra crítica na coluna Respirando Cinema)
Cotação para este filme:
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