ANGEL
Foto: Divulgação/Imovision
Angel Deverell (Garai) nasceu pobre, mas sempre quis viver no meio de luxo e riqueza. Se hoje as meninas sonham em ser modelo, naquela época, almejavam escrever. Por um lance do destino, a personagem cresce e consegue o que quer, assessorada por Théo (Neill). A verdade é que, no tempo do filme, o período de entre-guerras do século XX, as pessoas clamavam por um tipo de leitura fácil, descartável e que pudesse ser um escapismo para os atuais problemas. A nova autora atendeu a essa passageira demanda.
Tornando-se famosa, Angel vira uma Scarlett O’Hara, com direito à mansão, lindos vestidos e mordomos. Pela cartilha, agora só faltaria um homem, encontrado num pintor canalha de segunda linha, o esnobe Esmé (Fassbender). Ela contrata a irmã dele, que é sua fã, como secretária, apenas para se aproximar do rapaz. Lógico que nem tudo dá certo em seu mundinho cor-de-rosa e as decepções não tardam a vir.
Ao contrário do que parece, o público não torce pela protagonista, que é egoísta, arrogante e prepotente. Seu trabalho, na vida real, não marcou história. Escreveu romances populares, mas vazios, que apenas ela atribuía alguma qualidade. Se parar para pensar, a protagonista foi um retrato se sua época, acomodado e alheio ao que acontecia do lado de fora de sua propriedade.
Não é difícil perceber que Esmé e Angel não darão certo. Mesmo ela sonhando com isso, no fundo, este homem é mais um mero bem de consumo, só que difícil de ser domado. A falta de apego da escritora pode ser comprovada quando seu cachorro morre e é trocado por um parecido, enquanto ela está viajando. Quando retorna à mansão, mesmo sabendo a verdade, a dona não demonstra muita tristeza pelo ocorrido.
O universo de conto de fadas redundante de “Angel”, de cores berrantes, fundos falsos e história que não sai do previsível, muda o curso em seu terceiro ato. Nesse momento, o roteiro tenta, de todas as formas, modificar a imagem de Esmé, tornando-o um bom homem através de incidentes externos. É uma manipulação que, francamente, não faz muito sentido.
No primeiro filme falado em inglês do, até então, promissor François Ozon, a sensação é de decepção. A pálida Romola Garai (referente também ao tom de sua pele) não encanta, assim como os outros personagens, que transitam na narrativa sem mostrar a que vieram.
“Angel” pode muito bem retratar o mundo de sua protagonista do jeito que ela merece, mas a forma como lida com seus problemas sentimentais (não se vê outros tipos de conflitos) são para lá de insatisfatórios. Uma história sem um foco interessante ou que valha a pena refletir. Que Ozon volte ao francês, urgentemente.
Cotação para este filme:
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