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28|06|07 | Asfora, a vizinha metida e o yorkshire. Cap 01 (Inferno Astral)

 
» este autor escrevE AOS SÁBADOS


cariocadasilva@gmail.com

» RIO DE JANEIRO, 16 DE FEVEREIRO DE 2008

Asfora, a vizinha metida e o yorkshire
Cap. 01 – Inferno astral

Asfora nunca foi chegado nessa coisa de cuidar de bichos. Cachorros, gatos, papagaios, periquitos, para ele, são uns chatos. Sempre os comparou aos vizinhos indesejados que precisam ser evitados ou tratados com desprezo. Nos seus quarenta e tantos anos de vida, jamais passou pela cabeça perder tempo tomando conta de um, nem mesmo por caridade.

Houve uma vez em que ele, na vã tentativa de ver a vizinha gostosona entrar no quarto sorrateiramente e saciar seus desejos de homem carente de meia-idade, deixou a porta entreaberta. Porém, a única visita recebida naquela noite foi a do poodle da senhora do 1.306 que invadiu a sua cozinha e devorou as guloseimas esquecidas sobre a mesa. Bastou flagrar o cãozinho se deliciando nos doces e o sangue ferver-lhe os neurônios, para quebrar o esfregão nas costas do coitadinho, numa atitude que ele próprio julgou irracional. O veterinário achou melhor mandar sacrificar o animal, e, por isso, há até hoje um processo correndo num tribunal de justiça.

No dia em que fez aniversário, um feriado, Asfora teve o que podemos chamar de inferno astral. Mal percebera o sol atravessar as frinchas da janela do quarto, quando ouviu o toque incessante da campainha interrompedo seu merecido descanso pós-happy hour de domingo. De supetão, saiu disparado pelo corredor e, sem averiguação alguma, escancarou a porta para ver quem o chamava tão insistentemente. Não percebendo que, naquela hora e circunstância, era irremediável o seu destino. Num gesto quase que comovente, arregalou os olhos e se deu conta da tremenda bobagem que acabara de fazer.

Ele quis dizer alguma coisa, mas o som de sua voz fora abafado por um estridente grito de Madá, a vizinha gostosona. Ela estava ali, parada, de olhos esbugalhados gritando e chamando socorro. Embora fosse metida, ele a via como uma presa fácil. Uma mulher e tanto. Um corpo sensacional e umas curvas de parar o trânsito. Mas, Asfora agora tinha um problemão daqueles: como explicar, se ela não parava de gritar, que estar ali, pelado, nunca foi a sua intenção? Não era naquela condição que ele imaginou estar quando encontrasse Madá. Poderia até ser num restaurante, no corredor do prédio ou mesmo no estacionamento, mas, com certeza, ele não seria nada tão deselegante.

Findo o susto, ela finalmente parou o berreiro e conseguiu soltar algumas palavras, enquanto Asfora tentava sem sucesso, esconder suas partes íntimas e se esquivar da confusão.

- O que você pensa que eu sou? Eu vim aqui apenas pedir um favor. Seu tarado!

Dito isso, Madá atirou um yorkshire terrier nos peitos de Asfora com tanta força que o bicho soltou um latido lânguido e plangente.

- Toma! Segura aí.
- Mas eu...

Com toda aquela gritaria, um bando de mulheres e crianças apareceu e se juntou em torno dos dois. Iniciou-se uma artilharia de xingamentos e palavrões. Asfora ficou acossado, sem forças, nem mesmo para fechar a porta e mandar todo mundo pra merda.

- Eu disse que esse homem não presta – disse a vizinha do 1.306 para uma menina que acompanhava a mãe.

- Fecha os olhos Emunuela, ele é um depravado! – Disse uma mãe à filha.

- Vamos quebrar tudo – esbravejou outra senhora mais afoita.

- Peraí que eu vou ligar pra Polícia – disse outra.

- Vamos dá uma surra nesse vagabundo! – alguém gritou lá de trás, no final do corredor.

- Se meu marido tivesse aqui, ele não faria isso! – berrou uma delas.

- Seu marido? Aquele num volta é nunca, sua sirigaita – respondeu uma outra.

- Quem é sirigaita aqui, sua vaca louca! Você é que vivia dando mole pro meu marido.

Cada vez mais acuado, Asfora se viu num beco sem saída. Uma dezena de donas-de-casa invadiu o minúsculo apartamento prometendo tocar fogo e expulsá-lo do prédio. O furdunço não parecia ter fim. Apavorado, apertou ainda mais o yorkshire contra o peito, misturando seus pêlos aos dele.

(continua...)

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