Mesa Minha
“Eu tava dormindo, tentando sonhar” – Gabriel, o Pensador
Primeiro, a paisagem passando. Depois, um grandioso formigueiro em atividade. Um vácuo. Quase cegueira. Umas cinqüenta ou sessenta mãos transportando um corpo inerte no aperto de uma multidão retirante. Sem pulso. Sem forças.
Um banco de ônibus e a quilometragem da ponte. Movimento. Desespero. Garrafas d’água. Dois homens. Ambulância – qual o seu nome? Sem pressão... Soro, agora! Quantos anos tem? Maca, furo no dedo, sangue, furo sob a mão, tubo, líquido, sangue ... tenho 20... sim, estou sozinha... minha tia, posso ligar..?
O corpo humano tem seus limites. Naquela manhã – como nas outras que a antecederam – acordara com peso da doença que tomava seu cerne, sonolência, dores no peito, na nuca, nos ombros, olheiras. A modernidade trouxe a velocidade do mundo para dentro de nossas cabeças e, no caso em questão, a aceleração das novas partículas foi tal que chocou as paredes do cérebro antes do seu reconhecimento por parte deste. Pane geral. Hospital e uma bateria de exames. O mal do século: stress. Mas você só tem 20 anos...
Num mundo em que o relógio deve trabalhar como secretária, o corpo não encontra tempo para sobrestar-se. O tic-tac não pára, a concorrência tampouco, o dinheiro está em movimento. Os problemas são colocados sob a mesma mesa das obrigações e responsabilidades – uma mesa compacta para tanta importância. Por conseqüência, ao darmos de cara com esse nicho não se encontra espaço para lazer ou, quem sabe, apenas uma estreita fenda entre uma ou três folhas de supostos sonhos. Perde-se a ambição de aparelhar a confusão reinante – ou não se sabe por onde começar. Mas quando a mesa desaba por não suportar o peso, está na hora de (re)tirar tudo e concerta-la; ou destruir tudo e (re)começar do zero.
As noites passam a ser dias com massas bruxuleantes de vida vaporosa. As metas que traçáramos lá longe se perdem em esquinas de atalhos para um recomeço. Por onde andarão meus antigos devaneios? Os modelos destas fotos desbotadas pelos anos? Onde estarão estes olhos que me admiram no real desta fotografia?
Eu tive uma crise de stress em meio a estranhos que nunca me viram. Fui socorrida por todos. Agora acredito ainda ter fé na humanidade que elucidava em minha história antes de perdê-la na confusão da minha mesa. Meus sonhos e qualidades aparecem por baixo de dois relatórios de preocupação. Eu sinto necessidade e vontade de arrumar meus arquivos. Destruir os obsoletos.
Meu nome é Núbia, tenho 20 anos e voltei a viver.
Obrigada.
Aos médicos Larissa, Álvaro, Eduardo
Aos dois rapazes do 998
À mulher que não deixou que minha pressão se fosse
Ao autor de Anjos e Demônios, que velou minha solidão em meio à situação relatada
À minha fé no mundo e em mim, que voltou junto com a minha vida.