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» RIO DE JANEIRO, 28 DE AGOSTO DE 2006

O assaltado traíra

Naquela noite cheguei em casa bastante excitado em face de um episódio que já se tornou corriqueiro entre os que circulam ou moram no Rio de Janeiro. Acabara de viver a sensação de um quase assalto. Corri para o computador para digitar os detalhes do momento por que havia passado e que ainda explodiam em minha mente. Concluí o relato à uma hora da manhã, porém, só consegui dormir às cinco e meia, e com o dia já clareando, mas estava satisfeito pois, conseguira registrar toda a ocorrência no texto que denominei: "O Assaltado Traíra!"

A cena se passou em uma sexta-feira, às 20h30, em pleno centro da cidade.

Em tempos imemoriais fui um atleta, mas, naquela ocasião, além de barrigudo, pesado e "coroa" encontrava-me febril e resfriado.

Saíra do escritório de um querido amigo advogado, às 20h10, e após caminhar pela Avenida Almirante Barroso, no trecho compreendido entre a Rua México e Avenida Rio Branco, aguardei, junto ao sinal de trânsito existente na esquina, e em frente ao prédio da Caixa Econômica Federal, a minha vez de atravessar a via.

Logo ao fazê-lo, percebi que um indivíduo pardo aparentando 19 anos de idade, com, possivelmente, 1,72m de altura, 68 quilos, vestindo calça de algodão escura e camiseta azul sem gola, calçando sapato tipo mocassim, e não portando qualquer volume nas mãos, sequer um envelope, passara me "filmando" (gíria de bandido) pelo canto do olho e caminhando em sentido diagonal ao meu.

Nesse momento, percebi que seria assaltado tão logo chegasse ao lado oposto e me dirigisse para a Estação Carioca do Metrô: sabem por quê?

Porque a essa hora o trecho já estava deserto e a excessiva dimensão das bancas de jornais em relação às calçadas existentes no percurso criam verdadeiros becos, favorecendo o "bote" que seria, inevitavelmente, dado pelo - até agora - único assaltante observado.

Diante do fato, decidi continuar andando na pista de rolamento e acompanhar os movimentos do suspeito, que diminuía, progressivamente, os seus passos à medida que se aproximava da última das citadas bancas que se encontrava em meu caminho.

Eu já tinha plena convicção de que seria mais uma vítima a ser citada nas colunas de noticiário policial, pois o meu instinto animal me informava que havia um outro meliante pronto para surgir pela retaguarda e, juntos, fazerem de mim "UM EMPADÃO".

Era uma questão de alguns poucos minutos.

Poderia ter gritado pedindo socorro, mas não escaparia de ser, também, alvo de chacotas dos próprios indivíduos, pois o "ataque" ainda não havia sido consumado, ou continuado pela pista me arriscando a ser atropelado, ou, por fim, fazer algo que "os criminosos" não esperavam.

Foi o que fiz, e penso: livrou-me do assalto.

Mudei, repentinamente, minha direção indo direto e a passos rápidos, para a retaguarda do primeiro suspeito identificado.

Quando já estava a quase um metro e meio dele, o meliante - como se tivesse olhos nas costas - flexionou as pernas, girou o corpo pelo seu lado direito com muita agilidade, dando um soco em minha direção (pegou no ar), muito mais para fugir do que acertar e pasmem, correu em sentido oposto ao meu, se juntando a um outro personagem. Pude identificar em seu olhar assustado, a manifestação de sua personalidade covarde. Talvez, quem sabe, tenha sido o primeiro dia de sua carreira de assaltos.

Nesse instante, observei melhor o seu comparsa: um indivíduo de cor negra, aparentando 25 anos, com - aproximadamente - 1,75m de altura, 75 quilos, vestindo calça de cor escura e camisa branca de gola, igualmente, sem portar qualquer volume nas mãos. Manteve-se, durante todo o tempo, a quinze metros de distância, talvez, surpreendido pela minha inesperada reação.

Pasmem! Olhando para mim ficou gritando:

- "... Você é um covarde que ataca os outros pelas costas!"; "Ataca pela Frente, TRAÍRA!". "TRAÍRA, TRAÍRA, TRAÍRA" gritava a plenos pulmões. Não proferiu um único palavrão, apenas continuou repetindo a mesma palavra, tendo a seu lado "o piloto do assalto", seu comparsa.

Fiquei ali parado, estático, por alguns segundos, encarando os dois assaltantes, segurando a minha pasta à frente do corpo, e atento ao desenrolar dos acontecimentos.

Vendo que os mesmos permaneciam juntos e em dúvida sobre o que fazer, e não querendo esperar, até a data de meu próximo aniversário, a decisão que eles iriam tomar, me dirigi à Estação Carioca do Metrô, em passos firmes, sem correr ou demonstrar nervosismo, e olhando para trás, periodicamente, ultrapassei o tal Supermercado de Jornais & Revistas (me recuso a chamar aquela "Loja" de Banca, pois chega a ser uma piada) e a alameda existente entre a CEF e o Edifício Avenida Central.

Subi os degraus, caminhei alguns metros, em seu hall, e me virei na direção da Avenida Rio Branco, pois intuitivamente sabia que "eles" estavam por lá, oportunidade em que pude avistá-los a uma distância de uns 50 metros, ao lado das pilastras daquele conhecido prédio, e em companhia de um grande grupo.

Gesticulando, me desafiavam a ir até a eles, fazendo movimentos com as mãos do tipo "Vem cá se tu é hômi!", talvez, para se justificarem perante os demais colegas de profissão, que lá fazem ponto, da vergonha que haviam passado.

Parece incrível, que alguém com a minha idade ainda possa ser adjetivado de "covarde", por dois assaltantes, em plena avenida do centro da cidade do Rio de Janeiro. Não foi por outra razão a escolha do título "O Assaltado Traíra!".

Desci a escada da Estação Carioca para encontrar minha esposa que lá me aguardava, e depois fui à cabine da PM existente nas proximidades, onde após me identificar e relatar o fato ao policial de plantão, pedi que dois guardas me acompanhassem, à distância, para que eu tentasse identificar os delinqüentes.

Apesar de não os havermos encontrado, tenho certeza que eles estavam, por lá, nos espreitando!

Cabeça a mil, e feliz por haver conseguido chegar em casa, a salvo, passei a divulgar a história que vivi, e que os estimados internautas que acessam o nosso www.cronicascariocas.com.br passaram a conhecer, a partir de hoje.

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*AUGUSTO ACIOLI é economista

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