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» RIO DE JANEIRO, 10 DE MARÇO DE 2007

Coisas de sala de aula

Gosto de sentar no fundo da sala. Aqui, sou amiga do Rei e dona de um espaço a princípio sem dono. Daqui, observo tudo o que se passa de forma diferente... O professor – meio baixinho, mas charmoso que só – está lá na frente. As alunas – coloquei o artigo e o substantivo no feminino porque nessa aula só tem mulheres – estão de costas pra mim, ou melhor, algumas estão meio de lado; ou numa conversinha paralela com a que está sentada atrás ou numa tentativa de fazer um “charminho” para o professor.
           
A aula começou há trinta minutos exatos. São duas e trinta. Acabei de olhar no relógio. O professor é daquele tipo engraçadinho. Existem vários tipos de professor: o intelectual, o sério, o metido a galã, o chato, o palhaço, o queridinho, o gente-boa etc. Esse é do tipo engraçadinho. Hoje é o primeiro dia de aula e ele já contou, num intervalo de tempo de meia hora, três histórias diferentes. Das duas uma: ou isso é algum tipo de didática ou ele é exibido mesmo. Ainda não consegui distinguir! Fora que, das três histórias, duas ele começou falando “A minha namorada...”. “Sabe aquele tipo que a pessoa enche a boca pra falar ‘A minha namorada disso isso’ ou ‘A minha namorada fez aquilo’”? Pois é! Isso me faz concluir que, além do tipo engraçadinho, ele é do tipo trinta e poucos anos, “encalhado” há um tempão, que acaba de arrumar a tão esperada namorada.
           
Daqui, desta posição que me parece não só confortável, mas também favorável, o que mais vejo são diversos tipos de cabelos. Loiros, pretos, castanhos, longos, curtos, lisos, cacheados, ondulados, presos, soltos, uma infinidade de variações capilares onde um cabeleireiro faria a “festa”. É engraçado como carioca adora mexer no cabelo. Uma menina, que está sentada lá na frente, já soltou e prendeu o cabelo dez vezes desde que a aula começou. Já ouvi dizer que o jeito que você mexe no cabelo denuncia a sua personalidade. “Tímidas mexem mais que extrovertidas” ou “quando alguém não tira a mão do cabelo é porque está querendo chamar a atenção de outra pessoa”. Bom, se alguma dessas alternativas for verdadeira, ou esta turma está cheia de tímidas ou todo mundo está querendo chamar a atenção do professor!
           
Acabo de detectar outra característica do professor. Além de baixinho, meio charmoso e engraçadinho, ele é do tipo conquistador. Olha nos olhos. Não de uma. Nem de outra. Mas de todas. Uma de cada vez. Ih pronto! Já vi tudo. Lá pela terceira ou quarta aula metade da turma já está “caidinha” pelo baixinho. Esperto que só, o danado tem lábia e também tem um sorriso que... Digamos assim, encanta! Se bem que, pra terceira, da esquerda pra direita, de blusa verde limão, a terceira ou quarta aula está muito longe. É tempo demais. Ela não pára de sorrir – veja bem, ela não está rindo, está sorrindo (o “so”, neste caso, faz total diferença) -, de mexer no cabelo e já fez umas quatro perguntas do tipo “nada a ver”... Sem contar que ela já levantou várias vezes para sair da sala ou só pra ir até a lixeira jogar alguma coisa fora. Não vou dizer que isso é coisa de carioca porque generalizar não é do meu feitio. Mas... “Meu Deus” – e olha que também não sou religiosa! – como apelam essas garotas!
           
Meu relógio virou de novo. Sempre esqueço e deixo ele meio largo. Sempre tenho que desvirar... Enfim, são duas e trinta e um. Deixa eu prestar atenção na aula.

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*Adriana Bomgosto é escritora

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