No limite da perfeição
Enquanto a primeira pessoa da fila direita fala, que por acaso é uma conhecida minha, penso no que vou dizer quando chegar a minha vez. Tento rapidamente ordenar meus pensamentos, sem deixar de prestar atenção no que as quatro meninas que estão na minha frente estão dizendo, afinal, não quero ser repetitiva quando for a minha vez. Pronto, a quarta da fila terminou. A responsável pela gestão da dinâmica para a seleção de quem ocupará a vaga já disse o “Acabou? Muito obrigada”. Isso quer dizer que é a minha vez. Levanto, respiro fundo e começo a falar. Tenho que, numa escala de zero a dez, dar três notas para mim mesma. Uma sobre minha carreira profissional, outra sobre minha vida acadêmica e, por fim, uma sobre a minha visão de futuro. Interrompo meu pensamento. Não importa mais. A essa hora da noite, o que está feito está feito. Nesse caso, o que está falado está falado. Por que ainda estou pensando nisso? Mas, espera aí. Ai meu Deus! Poderia ter dito aquilo também. Ai. Chega. Vou dormir. Já é tarde.
Rolo para um lado e para o outro. O sono não vem. Não tem como. Não consigo esvaziar minha mente. Digo para mim mesma: deixa eu pensar mais um pouquinho. Digo para mim mesma novamente: tudo bem, mas só enquanto o sono não vem. Afinal, amanhã é terça e eu tenho que acordar às seis horas da manhã. Mas isso é outra preocupação. Calma. Uma coisa de cada vez. A organização do pensamento é a chave da sabedoria. Olha eu filosofando! Mas voltando às perguntas da dinâmica de hoje à tarde. Deixa eu ver. Recapitulando. Falei que, mesmo antes de entrar na faculdade, queria fazer jornalismo. Isso mostra que sou uma pessoa decidida. Falei que quero trabalhar com o jornalismo impresso e que, se pudesse me ver daqui a dez anos, me veria como uma renomada colunista. Isso demonstra que já tenho, bem ou mal, um foco profissional.
Mas aquela pergunta que ela me fez no final não sai da minha cabeça, aliás, como todas as outras palavras que saíram da minha boca durante a dinâmica. “O que você acha que deve aprimorar”, ela perguntou. Pensei um pouco. Mas juro que a resposta veio sem pensar. Quando digo sem pensar, quero dizer que não tinha nada ensaiado antes. Olha eu me justificando para mim mesma. “Meu perfeccionismo exagerado, respondi”. Ela fez um sim com a cabeça, acho que já havia percebido isso. Será que eu sou mesmo perfeccionista? Espera aí, deixa eu ver que horas são. O quê? Três horas da manhã? Preciso para de pensar nisso imediatamente, afinal, não posso estar com sono na aula de amanhã. Será que não estou esquecendo nada? Já mandei os e-mails para o trabalho, já entreguei os dois livros na biblioteca, já li o texto para quarta porque amanhã à tarde não vou ter tempo... Só preciso agora me concentrar para dormir. Será que alguém se concentra para dormir? Estou começando a desconfiar de que sou mesmo perfeccionista. Isso mostra que fui sincera. Ponto para mim.
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*Adriana Bomgosto é escritora
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