Angústia
Agora tudo está mais calmo. Coração parou de bater acelerado. Músculos foram, um a um, relaxando. Respiração voltou ao normal. Pensamento já flui novamente. Humor está melhor. Emoção deu lugar à razão. Enfim, posso escrever. Mas por que há dois minutos – no máximo – tive a sensação de que o mundo iria abrir aos meus pés? Por que tive a impressão de que a tranqüilidade iria acabar? Por que achei que o pesadelo de viver sozinha voltaria?
Há dois minutos – ou mais – ele não atendeu ao telefone. Liguei duas vezes. Nada. Já tinha mandado um e-mail à tarde. Detalhe. São nove horas e trinta e três minutos. Não respondeu a mensagem que deixei no celular também... Mas se ele me trata tão bem, se diz que me ama, se está sempre comigo. Além de tudo, ele tem a vida dele. Os filhos. A igreja. A casa. Pára. Isso não é motivo para me deixar nesse estado. Nervosa. Não faço isso com ele. Nunca. Agora, pensando friamente na situação, como alguém que analisa tudo de fora, eu percebo. Percebo que estou doente mesmo. Será que sempre fui? Não. Com certeza não. Nem sempre foi assim. Lembro-me bem do dia em que essa insegurança tomou conta de mim. Lembro-me bem da pessoa que fez com que este processo se desencadeasse. E o pior de tudo é que ele provavelmente não tem idéia do trauma que me deixou.
Passaram-se mais de quatro anos e eu não consigo esquecer. Palavras. Gestos. Podem ser fatais. Pior do que um tiro é uma palavra agressiva vinda de quem se ama. Pior do que um soco é o desprezo sem explicação. Pior do que um xingamento é a rejeição. Tão nova eu era. Cheia de esperança e de segurança. Tudo interrompido por uma pessoa que passa pela sua vida. Entra sem pedir licença. Passa sem um motivo aparente. E sai sem dizer adeus. E sem olhar pra trás. E não volta pra ver o dano que causou. Abre uma ferida que não cicatriza. Pelo menos, até hoje, não cicatrizou. Não sei se um dia vai. Hoje – agora já tem bem mais de dois minutos -, vi que ela ainda está aberta. Que às vezes até cria casca. Mas não fechou. Tenho certeza.
Mas ele – o de agora – não tem culpa. Claro que não. A culpada sou eu. Será que sou fraca? Prefiro acreditar que o golpe foi forte mesmo. Que nem a mais forte das mulheres resistiria à pancada. E passei por tudo sozinha. Ainda passo. As palavras escritas são as minhas maiores conselheiras. Só com elas consigo desabafar. Porque com as faladas não sou tão boa. É mais difícil. Ele – repito, o de agora – não tem culpa mesmo. Daqui a pouco ele liga e volta tudo ao normal. Mas até quando? Até a próxima vez que não atender ao telefone porque está no banheiro, na sala, na igreja, numa ligação importante? E aí volta tudo de novo. Tenho que me cuidar. Solidão de quem ama, angústia de quem vive! Onde mesmo li isso? Amanhã procuro um psicólogo... Psicanalista... Ou um simples alguém para desabafar!
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*Adriana Bomgosto é escritora
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