Episódio de hoje: O primeiro amor de Binho
Ai, ai! Chego até a suspirar. Sim. De felicidade. Já vi dias bonitos. Mas hoje parece que o sol está brilhando mais. E deve estar mesmo, afinal, não é o astro sol o amigo dos namorados? Está certo que dizem por aí que é a lua a inspiração dos cachorrinhos apaixonados. Está bem. Pra Tina pode até ser. Ela é menina e tal. Mas para mim não. Sou um cachorrinho muito macho. Continuo a acreditar no sol mesmo, que é menino como eu. Bom, mas deixemos desta discussão sobre o sexo dos astros e das estrelas porque hoje só tenho olhos para a minha verdadeira estrelinha. E, antes que qualquer humano se atreva a dizer que estou vivendo um amor platônico, vou logo adiantando: Tina também acha que sou o astro maior da vida dela! Estamos apaixonados sim. Sou correspondido... Depois de tantas tentativas fracassadas, tantos “foras” de cadelinhas metidas, tantos investimentos em gravatinhas coloridas e perfumes com cheirinho... Acho que, finalmente, encontrei o meu grande amor.
Tina é mais velha do que eu. Tem três meses e três dias a mais. Esta foi a primeira coisa que perguntei como começamos a namorar. O mundo do amor ainda é um pouco novo para mim. Ainda não tinha tido uma namorada de verdade. Só um casinho aqui, outro ali. Mas pra valer mesmo, só agora. Tenho que fazer uma confissão – mas uma das minhas -, Tina é a menina mais bonita que já vi. No primeiro dia em que a vi fiquei meio tímido. Ela passou com um narizinho empinado junto à sua família, que também é bem grande como a minha. Deu uma olhadinha meio disfarçada e continuou andando sem me dar muita bola. Fiquei intrigado com aquilo. Cheguei a pensar que ela já estava comprometida e que não queria nada comigo mesmo. E aí veio a dúvida: será que ela não me quer porque sou mais novo? Será que me achou feio? Será que quer um namorado da mesma cor que ela? – Tina é marronzinha e eu sou champanhe. Enfim, fiquei meio triste com tudo isso. Mas não desisti não. A dona que roubou meu coração mora no último andar do mesmo bloco onde eu moro. Eu fico aqui paradinho perto da porta. Quando mamãe abre, saio correndo igual a um foguete. Chego à porta dela em dois segundos e fico esperando que a mãe dela abra e me deixe falar com a minha lua cor de chocolate. Isso é muito difícil de acontecer. Quando dou uma escapada e consigo chegar à casa dela, dou sempre com a cara na porta. Quando começo a latir, pedindo para alguém abrir, é pior ainda. A mãe da Tina logo telefona para a minha mãe avisando que eu “fugi”. E mamãe sempre vem me buscar com aquela cara meio envergonhada dizendo pra eu não fazer mais isso porque é feio.
Está aí mais uma coisa que eu não entendo no mundo dos humanos. Eles se dizem tão avançados, tão independentes, tão cheios de si. Mas não aprovam que um cãozinho tão perdidamente apaixonado como eu demonstre o meu amor pela minha Tininha. Mamãe briga comigo e ainda diz que não é pra eu fazer xixi na porta dos outros. Poxa mamãe! Tina não é “os outros”! Além do mais, dentro das nossas leis, fazer xixi na porta da amada é uma demonstração de que se está realmente envolvido. Será que não sabe disso? Não deve saber ainda! Um dia ela aprende.
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*Adriana Bomgosto é escritora
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