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» RIO DE JANEIRO, 10 DE MARÇO DE 2007

O primeiro malandro ocidental

O cara era esquisitão. Excêntrico urbano, admirado por alguns. A massa, o povão se divertia com ele, o desligadão. Zombavam muito dele na verdade. Era figura freqüente nas comédias de sua época. Gargalhadas certas para os comediantes, imitá-lo ou simplesmente reverenciá-lo em cena.

Capaz de ficar horas inteiramente imóvel, de pé ou sentado, sonhando acordado. Era baixinho e um tanto disforme. Mas dizem que foi um bom soldado, na época do exército.

Sempre visto caminhando pelas ruas descalço maltrapilho, atrás de alguma conversa. E que conversas!

Uma pessoa dizia alguma coisa banal e ele “na maciota” começava a fazer perguntas. Pedia que a pessoa definisse o significado do que estava dizendo. Na cadência do bate-papo mostrava a ela por intermédio de mais questões perscrutadoras, a estupidez de sua definição convencional e estimulava interesse em tentar uma coisa melhor, alguma coisa “para atingir o âmago dos problemas dos valores humanos.” Mesmo que a pessoa não chegasse a nenhuma conclusão, tanto ela quanto todos que estavam ouvindo a conversa se davam conta, pelo menos por um instante, quão tolamente consideravam como sendo absolutos certos hábitos, opiniões e atitudes que eram preconceituosos, prejudiciais e falsos, e como pode ser emocionante e inspirada a busca pela verdade e honestidade.

-- “Pense por si mesmo, questione tudo. Uma vida não examinada não merece ser vivida”

O marrento desarmava assim em meio as suas conversas. Sustentava que o objetivo da vida humana é buscar a verdade da natureza das coisas como elas são, não como são interpretadas pela mente convencional.

Era obstinadamente radical, nunca recebeu resposta que o satisfizesse. Não excluía a si mesmo de sua total rejeição ao que se passava como sendo o conhecimento humano. Crítico rejeitava também a idéia de estabelecer uma doutrina:

“Sou sábio apenas por saber que nada sei”.

Jamais escreveu uma linha sobre seus pensamentos. Deixou muitos enredos para outros.

O cara era mesmo um excêntrico extremado, defensor da individualidade, da liberdade do livre pensar. Como diria uma linda psicóloga que conheço: “Um dropout!”

Diziam as “más-línguas” que era casado com uma mulher chata. Rejeitava o sucesso material, recusava qualquer função social, emprego nem pensar! Levava uma vida de completa espontaneidade. Caminhava e conversava atraindo um grande numero de jovens para ouvir seus ensinamentos, mas recusava-se a receber qualquer pagamento por isto.  Adorava quando um de seus ouvintes o questionava, era seu maior prazer. Bebia de graça, provavelmente. Os seus jovens ouvintes eram de classe alta com tempo para ociosidades...

Filósofo de profunda contemplação ensinava o valor da introspecção. O que interessava a ele era o processo. A experiência das abordagens no âmbito das discussões, seja em que direção fosse, era o seu laboratório filosófico. Ousou desprezar a democracia de sua época acreditando em uma “meritocracia”, o governo comandado por “aqueles que sabem” como governar. Claro... Atraiu vinganças!

Suas críticas proferidas em voz alta nas ruas e rodas continham muito humor. O tempo encarregou-se de transformá-las em amargura com a tirania da maioria de sua época. Seu caráter bondoso revela-se em seu empenho de tentar libertar a evolução do próprio pensamento. Mas seus inimigos tinham as garras da ignorância. Olha que perigo! “Uma bomba mora!”

“Sua defesa pessoal era contra a extensão exagerada da democracia a áreas que ficariam melhores a cargo de indivíduos”. Enfrentando, desta maneira a democracia, sempre com “resistência pacífica”, construiu um final infeliz para seus quarenta anos de rua, de suas tentativas de “arrancar o indivíduo do seu contexto histórico”.

“Explicar, explicar e então explicar novamente”, ele dizia aos setenta anos de idade em Atenas, Grécia.

Em 399a.C., a primeira democracia do mundo ocidental executou esse homem pelo crime de filosofia.

“No dia em que ele iria morrer bebendo o veneno cicuta, jovens admiradores se reuniram ao redor dele, para falar da vida e de seus significados mais profundos e verdadeiros. Embora alguns de seus seguidores chorassem, ele mantinha face à morte o mesmo espírito brincalhão de questionamento reflexivo que apresentara durante toda a vida. O velho sábio conduziu seus jovens seguidores por uma discussão dialética acerca da justiça, morte e vida após a morte e disse a eles que ansiava ir para um lugar em que não assassinassem pessoas por fazer perguntas”.

Preso, condenado e executado o grego que introduziu o pensamento crítico independente na cultura ocidental. (Isso poderia ser uma manchete num jornal atemporal.)

“Um homem que ensinou aos gregos a pensar e a pensar sobre o pensamento.”

O primeiro “individuo” de uma sociedade autoritariamente igualitária.

 “O primeiro malandro ocidental” a sonhar acordado.
Seu nome: Sócrates.

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*Anselmo Vasconcellos é ator, diretor e dramaturgo

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