A
quarta dimensão
Levantei da cama. Pela
janela do quarto do hotel antigo vejo a madrugada nas
luzes insones da cidade. Sei onde estou, mas isto não
tem nome. Estou que não mais sei.
Entre lençóis
ela, a mulher de bruços, adormecida de mim e
sou seu silêncio. As palavras que trocamos nos
toques de nossos gestos sexuais ainda ressoam seu cheiro
íntimo.
É o som do
desejo, você conhece?
O lobo já
se precipita nos meus pés crescidos. Lembro,
antes que ele me domine todo o corpo, que a velha estação
do trem é bem próxima do hotel, uma quadra
ou duas. Lá os trilhos apontam fugas e destinos.
Bom lugar para a fera.
Desenho com as mãos
um afago no ar na direção dela e reparo
nas unhas crescidas. Como um susto viro rápido
o corpo nu e me lanço no espelho da parede oposta
à cama. No peito dispara o coração
animal. Sou o espelho, a imagem nele é o quarto
sem mim. Apenas a mulher sobre a cama e a ausência
de quem a amou é nítida nos vestígios
sobre o branco dos lençóis em desalinhos.
Como a amei...
Um último
olhar antes de me trancar no estreito banheiro, um ultimo
gesto com as mãos peludas acionam o aparelho
de som. A música mesmo que a desperte serve para
disfarçar a fuga pela veneziana do banheiro,
onde já estou com as orelhas alongadas e a audição
tão ampliada que percebo o corpo dela roçar
num voleio suave, na cama.
Narinas dilatadas
me trazem o odor humano único entre tantos diversos
e dispersos. Devo protegê-la. É a última
frase do humano dizer. Os dentes alongados, afiados
estendem os músculos do que antes foi meu rosto.
A saliva abundante anuncia o uivo que a dissipará.
É o som do
instinto solto, você conhece?
O espaço
do banheiro antes tão reduzido agora é
apenas o ângulo da fuga que olhos metamorfos avaliam.
A perda(inevitável) daquilo que se tem, é
a perda deste quarto que já foi idílico.
A magia-primal está preste a devorar o mundo
de dentro para fora. O Gammaísmo se completa.
As celulas azuis de energia parafísica* são
libertadas pela energia fluída da fera. Seu nome
é Kalas, uma forma especial de energia tantrica.
A força
da fera atravessa facilmente a janela do banheiro. Seu
salto no vazio da noite é um mergulho no abismo
do sonho. Já está correndo pela via férrea
inútil da estação do abandono.
Entre as dormentes,seus saltos são goles generosos
de ar, ensaios do uivo que logo explodirá na
poderosa garganta.Finalmente à luz desta deserta
paisagem, uma lua outonal, rubra comos os pelos da fera.
Ei-la uivando.
É a cor do
sexo, você conhece?
Súbito o
lobo estanca e revira sua enorme cabeça na direção
do hotel que abandonara em fuga. Sua poderosa visão
enquadra a janela do quarto de sua transformação.
Nela a fera focaliza o homem desperto do sonho, é
a última imagem que reflete em seus olhos escarlates.
“No caso da
matéria, a energia encontra-se estruturada em
três dimenções. No caso da psi,
teríamos, teríamos uma dimenção
a mais, isto é, quatro dimenções.
Assim, o que se conceitua, metafisicamente, como sendo
Espírito, teria outra conotação
mais física ou, mais propriamente, parafísica.
Ele seria constituído de matéria psi,
isto é, de átomos tetradimencionais, ou
psiátomos”.
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