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*Adalberto dos Santos escreve aos sábados. Acesse o blogue do autor: Nu com a Minha Musa

» CAJAZEIRAS, PB, 29 DE MARÇO DE 2008

DIREITO DE NÃO LER?

Por que os jovens não lêem? Porque eles podem. Assim como podem não vir à escola, mas se, podem não participar da aula, podem não estudar, podem não fazer a prova, portanto, podem também não ler. Eles têm o direito de não ler. Nas escolas é famosa a frase do escritor Daniel Pennac (não originalmente dele, mas vá lá) que diz que o primeiro e grande direito do leitor é poder não ler. Ou seja, quer ter do leitor a possibilidade de que leia, assuma que ele é livre para não ler.

A verdade da frase de Pennac (digo, dita por Pennac nos seus “Direitos imprescindíveis do leitor”, in: Como um romance. 4.ed. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.) soa estranha para quem sabe que todo e qualquer leitor, em princípio, deve ler. É óbvio, é claro, é mais que certo, diz você, leitor, e qualquer outro. Como ser um leitor que não lê? Parece que uma coisa nada tem que ver com a outra.

Olhando mais a fundo a frase, a idéia combina perfeitamente com o seu contrário, que é: apesar do direito de não ler, os que lêem temos o dever de ler, e, paradoxalmente, esse dever não é o dever que a gente chama obrigação. Entendeu? Não? É por que a leitura não é exatamente essa.

Quero dizer que, sabendo ler e escolhendo não ler, perdemos muito. Ficamos atrás, deixamos uma vida de valores e significados culturais que podem nos servir mais que se decidirmos jamais continuar lendo após os primeiros e mais significativos passos da nossa história de leitores.

Esta semana, numa aula de literatura, falei sobre o problema com os meus alunos. Os questionei sobre se não havia algo errado nessa coisa de algumas pessoas não gostarem de ler. Como se fosse preciso que uns lessem e outros não, que a humanidade se dividisse entre intelectuais e não intelectuais, entre sabedores de textos e outros que por mil razões não saboreiam textos, mesmos os que já conhecem a palavra escrita. Que dirá da palavra-mundo? Que dirá da leitura de mundo? Da abertura de significados maiores que não está apenas na experiência do registro da palavra escrita... etc etc.

Não sou maria-vai-com-as-outras, mas há quem pense que o leitor Leitor tem um dom especial, e às vezes dá vontade de crer que é verdade. Pode ser que o leitor Leitor seja um iluminado, uma espécie de escolhido pelos deuses das linguagens para a função de descobridor das infinitas mensagens que nos cercam. E quem me convence são alguns leitores Não-Leitores que dizem não haver jeito de lhes fazer entrar na cabeça a idéia de que ler pode ser bom e de que eles podem aprender a ler, mesmo abertos a essa possibilidade democrática de que assim como eles podem tudo, podem também não ler, e ponto.

Fico pensando em meu trabalho de formador de leitores. Difícil, talvez a mais árdua das tarefas do educador em qualquer nível de ensino. Ensinar a ler é duro (uns dizem que a leitura é o osso duro da escola), às vezes você pensa que não vai conseguir. O leitor Não-Leitor (esse que o Quintana chamou de verdadeiro analfabeto porque prefere não ler) fica repetindo, falando ou não: professor, ler é chato, acaba com isso. Por outro lado, tentamos mostrar o contrário de forma a passar a bola, a garantir que os alunos leiam e que gostem de livros, porque uma vez gostando jamais deixarão de ler.

Pennac tem razão ao dizer que o “direito de não ler” está mais para os leitores que não sentem necessidade de ler, “seja porque tenham coisas demais para fazer (o que dá no mesmo, é que essas outras coisas os obturam ou os obnubilam), seja porque alimentem um outro amor e o vivenciem de maneira absolutamente exclusiva”.

Ainda assim, temos que infundir nos alunos o direito de ter direito a gostar de leitura. Se procurarmos fazer isso, basta. Quem decide o depois são os alunos. É o próprio Pennac quem diz: “O dever de educar consiste, no fundo, no ensinar as crianças a ler, iniciando-as na Literatura, fornecendo-lhes meios de julgar livremente se elas sentem ou não a ‘necessidade de livros’. Porque, se podemos admitir que um indivíduo rejeite a leitura, é intolerável que ele seja rejeitado por ela.”

Aos professores, resta-nos ser responsáveis a ponto de oferecer o máximo de experiências leitoras para que os alunos sejam capazes de entender que o “direito de não ler” é como o direito de não querer viver: alguns desejam, outros não têm certeza, muitos fracassam e se arrependem.


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    *Adalberto dos Santos é cajazeirense, ficcionista e cronista


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