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*Adalberto dos Santos escreve aos sábados. Acesse o blogue do autor: Nu com a Minha Musa

» CAJAZEIRAS, PB, 22 DE MARÇO DE 2008

QUE FIQUE AUSENTE

Há pelo menos dois tipos. Amigo chato é aquele sujeito que quando é hora de ele não aparecer, ele aparece. Por que ele aparece? Porque ele é chato. Porque ele descobriu que há horas em que você adora estar quieto e aí ele te puxa a orelha e não quer você calado. Amigo chato é caladão quando não deve e fala muito quando é hora do silêncio. Ele sempre pisa tua unha cravada e acha que você deve dar um sorriso assim agradecendo.

Pior é quando ele está bem, a coisa tá tranqüila, o céu azulado e o tom do meio-dia é a cara da satisfação das pequenas ambições dele, não nota ninguém. Aí esquece que é amigo teu e que nunca habitou este planeta. Ele observa tu passar e aproveita tua cabeça baixa para pôr óculos escuro de quem não viu que tu passou. Lá na frente joga casca de banana pra que tu escorregue, para que tu caia, para que ele ria da tua queda.

Amigo chato é inconveniente, ele perde a hora, esquece de fazer o importante, e se tu só faz 999 vezes, tu não é amigo. Amizade mesmo é quando tu faz mil, quando tu se esgota de favores e gentilezas para mostrar a ele que tu é camarada. Na cabeça medíocre de brutossauro dele isso é ser prestativo e é ser amigo. E da parte dele vem pouco, às vezes passa a vida inteira e ele não faz nada. Só te pede, só leva tuas coisas, e depois esquece que elas são tuas e nunca devolve, e você se obriga a matar a fome do miserável. Para tu, isso é ser amigo? Não, é amizade chata.
          
Amigo chato quer todos os sinais pra ele, todas as atenções. Ele é superlativo. Só ele sabe, só ele escreve bem, só ele pinta que nem Picasso, só ele entende melhor que todo mundo, e de amor é só quem sabe, e de poesia e de Deus e de deusas e do Universo, e ele é menino bom e competente, um gênio, um sábio, uma maravilha da natureza. E nunca discute porque já ganhou a aposta antes que inventassem a verdade e a mentira. Aliás, ele parece mentira.
           
Amigo bom é outra coisa, amigo querido, amigo sem mesquinharias e falsa modéstia. Amigo muito amigo. Como alguns que tenho e que nem sabem o quanto gosto deles, que nunca estão distantes, que nunca são chatos, que sabem, por me conhecer, como sou e admitem viver meus amigos com sinceridade. Não egoístas, nunca vaidosos, sempre bondosos e pacientes, honestos, felizes e plenos de satisfação porque são meus amigos, que nunca buscam vantagens subindo em meus ombros e se achando.

Drummond uma vez, quando um amigo muito amigo dele morreu, ele sentiu a perda e escreveu um poema. O poeta tinha fama de ser reservado, de ser muito sério, embora fosse capaz de muitas declarações afetivas. Dizem que quando se apegava a uma pessoa, e se sentia que a amizade era verdadeira, declarava com sinceridade o sentimento, e a afeição entre eles durava longas datas. Teve muitos grandes amigos, desses que como diz a canção se guarda no lado esquerdo do peito.

O poema que Drummond escreveu chama-se A UM AUSENTE, e nele o poeta fala, entre outras coisas, da tristeza de se perder um amigo muito amigo, em pleno estágio de realização pessoal. Nos limites da intimidade entre dois camaradas, Drummond justifica o sentimento que havia experimentado após a morte do amigo (e não da amizade!): estou com saudade, ele dizia, e tenho razões para estar assim. E no poema o poeta definia a saudade e a aproximava da ausência, esta mesma ausência que todos sentimos quando as coisas que amamos vão-se embora, desaparecem, ou, no pior dos casos, somem se despedir.

No poema Drummond declara ao amigo que não o quer ausente: sentirei saudade de “nossa convivência em falas camaradas”, ele diz, “simples apertar de mãos, nem isso, voz modulando sílabas conhecidas e banais que eram sempre certeza e segurança”. Tudo isso porque o amigo era um amigo bom, amigo muito amigo. Se fosse amigo chato, na certa ele diria: que fique ausente.Afinal,cá para todos,ninguém é tão cínico que não ache chato os amigos chatos. Pelo amor de Deus, não sou, fora com eles. De minha parte não agüento não. E se pudesse reclamar da criação, diria que o amigo chato saiu pior que a encomenda.

De sinceridade? Ele me abusa, me estraga, acaba comigo. Tem dias que não posso e ele aparece. Tem dias que estou de não agüentar amigo chato, que não quero seus olhos vazios que desesperançam, sua carinha de quem cuspiu o manto sagrado da amizade, sua prepotênciazinha dizendo “sou muito importante, eu tô lá em cima, olha aí”. Por favor, não apareça. Hoje não, nossa amizade tá de férias. Para que me devotar a ti se não suporto a mim mesmo? A ti não, não quero. Se liga, dá uma sacada, levanta daí, vai embora.


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    *Adalberto dos Santos é cajazeirense, ficcionista e cronista


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