EVOCANÇÕES
“Sede em meu favor, Virgem Soberana...”
Tínhamos um velho costume familiar, rezar à noite. Quando maio chegava, mês das noivas, mês de Maria, rezávamos os oito dias da semana. Não rezávamos somente nas quatro festas do ano, como minha avó dizia de outras famílias. De segunda a sábado, dependendo do espírito, fechávamos-nos em casa, cada qual pegava sua cadeira e as orações subiam aos céus: iam pedir o perdão dos pecados, encontrar os mortos, nossos queridos, desejar mudanças nos destinos dos membros da família, procurar saúde de pares e amigos, às vezes pedir a chuva, a graça de poder estar vivo no dia seguinte, o sucesso pros parentes de fora, a fortuna da loteria. Silêncio nas coisas corriqueiras, ninguém atrapalhava a hora do terço, hora essencial do dia. Assim éramos nós, eu, minhas irmãs, minha avó, minha mãe, as tias de casa, a visita, se chegasse à hora, e o mundo que se calava pra ouvir o uníssono de vozes velhas e novas dizendo uma só fé.
Na missa também rezávamos, e muito. Se o padre demorava, e se chegássemos cedo, dava pra rezar até fazer calo na língua. Em coro também, mulheres dizendo as orações principais, e nós, os outros, as subordinadas. Eu era o aprendiz de minha avó nesses assuntos de oração. Com ela aprendi a rezar direito. Meu posto era o primeiro de todos os guris que freqüentavam o catecismo, cantava bem, lia como um adulto e era o melhor em matéria de terço. Claro, minha avó sabia muito, me dizia, dava toques, e além de tudo eu freqüentava grupos de oração que meus colegas não freqüentavam. Por causa desse prestígio todo foi que virei o coroinha da igreja perto de casa. Inveja de todos, orgulho de minha avó.
Auxiliar o padre para mim, naquela época, era um privilégio. Ir à missa, ser fotografado naqueles instantes de êxtases que as horas de orações proporcionam, tudo isso parecia um verdadeiro encontro com Deus. Não é exatamente o mesmo que sinto hoje quando faço minhas orações, porque naquele tempo havia uma espécie de mágica em torno. Só mais tarde fui descobri o que era: especialmente as orações mais melódicas me impressionavam. As orações tradicionais do catolicismo, nem tanto, um Padre-Nosso e uma Ave-Maria eram menos música que uma Salve Rainha ou o Credo Católico. Mas havia uma hora em que os céus conseguiam mais atenção de minha parte, eram nas ocasiões em que rezávamos à Virgem, especialmente nas novenas, renovações e encontros relativos à adoração de Nossa Senhora.
Foi a primeira vez em que tive a noção de que os textos teriam músicas dentro deles. Como quando ouvia minha avó, minha tia ou minha mãe dizendo o Ofício da Imaculada Conceição da Virgem Maria com o fervor da linguagem dos discípulos do Cristo em dias de Pentecostes. E não só elas, mas as mulheres com quem rezávamos antes da missa, todas sabiam de cor aquele texto maravilhoso de que nunca me esqueci.
Impressionava a fluidez das quadrinhas que começavam com uma invocação à “Filha de Deus Pai”, à “Mãe de Deus Filho”, à “Esposa do Espírito Santo” e ao “Templo da Santíssima Trindade”, para em seguida metaforizar a virgem ao longo de mais de uma centena de versos onde se intercalavam refrões e orações devidamente colocados entre as quadras para a paixão e o sobressalto dos rezadores.
A técnica era espetacular: quadras escritas com a sonoridade das melhores cantigas populares que se conhece, em versos de cinco e seis sílabas, produziam uma impressão sonora muito agradável ao ouvido. E achava bonito o efeito que as quadras provocavam nas pessoas. Os versos mais melódicos eram ditos com a expansão de um louvor sobremodo além dos limites de nossas almas humanas. Eu sentia isso. Havia a divisão tradicional da liturgia, mas ninguém obedecia à ordem de recitação, (através das horas canônicas, Matinas, Prima, Terça, Sexta, Noa, Vésperas e Completas). O Ofício era dito de um fôlego, como numa canção que se canta em poucos minutos; ninguém o tinha como um breviário em que a liturgia é feita ao longo do dia.
E aqueles refrões de que falei marcavam o início de todas as horas. Introduzidos nas Matinas, e após cada Hino, os versos seguiam:
Sede em meu favor,
Virgem Soberana,
livrai-me do Inimigo
com Vosso valor.
Glória seja ao Pai,
ao Filho e ao Amor também,
que é um só Deus em pessoas três,
agora e sempre, e sem fim. Amém.
E daí partia-se para a Oração, de igual harmonia e sonoridade das quadras, até o Oferecimento, quando se concluía o Ofício. Era comum se dizer uma Ladainha como complemento, uns Padre-Nossos, umas Ave-Marias; mas quando o Ofício terminava, eu ficava com aqueles versos no ouvido, como se o refrão de uma canção bolinasse minha cabeça o resto do dia. Às vezes nem conseguia dormir, de tanto me impressionarem.
Mas era assim: tinha uma música no Ofício que quem se pusesse a ouvi-la haveria de ficar bastante impressionado. Acho que foi o que aconteceu comigo. Durante anos procurei repeti a mesma experiência da época da infância. Lia o Ofício e buscava o prazer dessa sonoridade que ele tem, agora sem me preocupar mais se estava lendo uma oração ou se cantando com um coro de anjo.
Hoje penso o seguinte: as mãos que escreveram o Ofício de Nossa Senhora eram, no mínimo, santas, e tinham esse poder que só os grandes poetas possuem, de nos prender em palavras e sons como se fossem deuses.
Uma vez na universidade tentei mostrar através da análise de um poema do Padre José de Anchieta, dedicado à Virgem, que era possível aproximar o texto do jesuíta à estilística do Oficio de Nossa Senhora. Levei o livrinho da Novena da Imaculada Conceição pra sala, fiz leitura de ambos os textos, mas ninguém ligou, ninguém quis ler os poemas, ninguém deu a devida importância a eles.
Fiquei triste. Tive que parar a aula e fazer um discurso inflamado contra o desinteresse de meus alunos, que não conseguiram ver a beleza escondida naqueles textos. Como costumo dizer, seus ouvidos não liam poesia. Para tal seria preciso trazê-los à experiência que tive quando ouvi a primeira canção de minha vida no Oficio de Nossa Senhora, ainda hoje inesquecível, extraordinário, para mim um espetáculo poético. Talvez único, somente comparado a este: se acontecer de o Cristo Menino fugir do céu e vir cantar na minha aldeia, como uma vez aconteceu ao Alberto Caeiro.
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*Adalberto dos Santos é cajazeirense, ficcionista e cronista
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