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*Adalberto dos Santos escreve aos sábados. Acesse o blogue do autor: Nu com a Minha Musa

» CAJAZEIRAS, PB, 8 DE MARÇO DE 2008

Eu desejaria viver mil vezes a vida...

É um desses dias em que a alegria me foge entre os dedos. Mas ouço Beethoven agora. Não há nada além de sua música. O que quero é que ela não se acabe, embora já pressinta seu fim. Também gostaria que houvesse alguém nesta noite para compartilhar comigo essa única, essa verdadeira música. Não há um momento melhor para que a alma pule de um lado pro outro, em dias como esse. Beethoven, o mais romântico dos compositores, pode, com a sensibilidade de sua alma, ferir onde a gente não sabe o que é em nós. E ele me fere. Como me fere o gênio de Bonn...

Tentei uns acordes na flauta para ver se juntava ao Beethoven uma outra companhia. Tentei. Os sons saíram secos, abafados, doídos. Mas a música veio, e eu não pude desistir de fazer meu pequeno regresso ao seu país. De novo alcancei um lugar bem mais bonito que a triste solidão de um fim de noite: viajei para onde mora música.

Fiquei assim: mandei às favas tudo o que foi ruim hoje, e acenei para o lado da Alemanha. Sorte encontrar Beethoven com sua graça, oferecendo a melhor música para se ouvir numa noite como esta. Dispus Elisa, em primeiro plano. Depois, bem, depois só vendo, só ouvindo. Aquela emoção que eu sinto atravessou a noite como um raio - desses que abrem as fronteiras do que antes era escuro na gente. Então ouvi a Nona Sinfonia, um dos melhores momentos dessa obra, minha preferida dele, do Beethoven. Cantei de um lado, aproveitando que ninguém estava vendo. Juro, ninguém viu meu canto leve e alegre: ele e essa toda música do Beethoven em meio aos acordes da Nona Sinfonia. Eis um sujeito que sabe tocar a alma da gente como ninguém mais.

Sabe o que disse certo escritor francês sobre Beethoven? Que ele é bem maior que o maior dos músicos. Ele é a força mais heróica da arte moderna. É o maior e o melhor amigo daqueles que sofrem e que lutam. Quando nós nos encontramos entristecidos pelas misérias do mundo, é ele quem vem para junto de nós, como vinha sentar-se ao piano de uma mãe enlutada e sem uma palavra, consolava aquela que chorava, com o canto de sua lamentação resignada. E quando a fadiga nos chega, pelo eterno combate inutilmente travado, contra a mediocridade dos vícios e das virtudes, é um bem indizível o retemperar-se nesse oceano de vontade e de fé. Depreende-se dele um contágio de bravura, uma felicidade pela luta, o entusiasmo de uma consciência, que sente nela um Deus. Parece que em sua comunhão de todos os instantes com a natureza, ele terminou por assimilar-se todas as profundas energias (Romainn Rolland).

E Schumman, sobre a Sinfonia em Dó Menor, quis entender os mistérios de sua plena atitude transcendente: Quanto mais se o ouve, tanto mais ele exerce sobre nós um poder invariável, como esses fenômenos da natureza, que por mais freqüentemente que se reproduzam, enchem-nos sempre de pavor e de assombro.

Na verdade, a música do Beethoven brilha no espírito mais sombrio, e o reacende. A alma em severa desarmonia com a beleza, ele a toma para a alegria. Em sua “Ode à Alegria”, Schiller afirmou o respeito a tudo o que se refere aos momentos de felicidade humana. Beethoven soube reconhecê-la, musicando-a numa das partes da obra mais bem acabada que se conhece hoje como sua. E isso devido ao mesmo sentimento que une aqueles que amam o que fez o compositor romântico: o amor à vida pelo que ela tem ao mesmo tempo de belo e feio, de triste e alegre. É essa também a única resposta que nos dá a nós, diante da beleza de sua obra: que a vida há de ser sempre envenenada, como a sua, que ele assim definiu: “Como é bela a minha vida; mas ela está, para sempre, envenenada”. Bom ou ruim, acho que é isso mesmo: nos envenenamos a cada momento, assim como é preciso que em alguns instantes nos entorpeçamos de música. Para isso também fomos feitos.

Quando aceitei a companhia de Beethoven nesse estranho mundo de silêncios noturnos, vi que a vida tem paisagens nem sempre bonitas. Mas que ela vale a pena se a tomamos como um perfeito quadro de sonhos e angústias, de amores irrealizados, de quereres, de tristezas e prazeres. Beethoven assim a disse, por isso cantei ao seu lado as melodias de nossa pretensa e necessária alegria. Não conto as vezes, enquanto cantava, que era atravessado por dentro por sua voz mansa e formosa, sua linguagem sinfônica de estremecer auditório: “Eu desejaria viver mil vezes a vida... Não fui feito para uma vida tranqüila”.

Desejos de música, segredos que o som de um surdo veio me dizer: ninguém foi feito para uma vida tranqüila mesmo, ninguém. Tranqüilidade demais é utopia das mais severas a que um homem se entrega: a vida não pode mesmo ser tranqüila, há de estar sempre envenenada. Que se importem os piores que a entendem, mas ela não pode ser lá muito calma; não se a vemos como a vê um artista, com os olhos de encanto, como os olhos de Beethoven.

Penso que a música é o fogo roubado dos deuses por Prometeu. A luz que ela trouxe serve ainda hoje para que o homem possa enxergar o mundo como ele realmente é, em seu tom envenenado. Por isso o castigo de ser eternamente curado das dores que o mundo faz em nós. Vai a música e tudo chega a ser mais infeliz, menos difícil de entender; vem a música e a desarmônica da vida, as coisas em desarmonia voltam na mais perfeita emoção. É a única coisa certa, como viver e morrer, nada mais.

Nesta hora de música estou cheio de desejos de música, em êxtase, em saltos de bailarina. Tenho certeza de que estou vibrando como uma corda de violino. Preciso continuar com o Beethoven. Não tenho mais nada a fazer, a não ser isso: deixar o mundo em transe pelo perfume que emana das notas de suas melodias.

Ouvir o Beethoven é meu único remédio nesta noite em que um homem e uma sinfonia fizeram-me entender que estamos condenados a retirar da tristeza aquilo que mais nos alegra - o milagre de estar vivo, ainda que eternamente envenenado. Mas a música vai acabar, não tarda e o último acorde será dado. É meu desejo que a música fique, pelo menos enquanto puder ficar entre nós. A música, sim, a única coisa verdadeiramente linda que nos deixa livres mais do que tudo, que nos traz o remédio contra os venenos da vida. A música - não valerá a pena viver sem merecê-la. Existirá alguém que não a queira? Espero que não. Se há, que fique no seu canto de infinita tristeza.

Eu bem que insisto aqui por dentro: o que é sério demais deve ir embora; a alegria das coisas que a música traz deve ficar. A vida há de estar sempre envenenada, e a música é o encantamento das coisas de Deus. Pois Deus, se não sabe tocar, deve dançar. Para mim,  Ele é música; se não é, é dança, e ainda há de dançar conosco um dia, Ele e sua presença alegre...

Ouvi a música do Beethoven como se rodasse livre entre os campos, e vi, no auge de minha alegria, um facho de luz roubado dos deuses, o fogo envenenado da música. Na certa, a qualquer momento, teremos festa aqui na terra, e Deus vem dançar. É só esperar, de novo, a hora da música...

Fico imaginando Prometeu. Este, em sua eterna melancolia, nunca foi tão feliz como agora. Depois de roubar o fogo dos deuses está delirando ao som de uma cítara: Desejaria viver mil vezes a vida... mil vezes a vida...


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    *Adalberto dos Santos é cajazeirense, ficcionista e cronista


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