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adalbertodossantos@gmail.com

» CAJAZEIRAS, PB, 23 DE FEVEREIRO DE 2008

PORQUE DIZEMOS TE AMO

Você olha os casais hoje em dia e percebe: ainda há muitos receosos em dizer uns aos outros eu te amo! O amor entre eles deve durar alguns dias, com que numa espécie de teste pelo qual os sentimentos passam até que se comprove que o casal está pronto para amar.

Pessoas assim nunca conseguir entender. Nunca me entrou na cabeça por que alguns casais demoram tanto a se entregar a um sentimento tão bonito como o amor. Os casais quando se encontram precisam de tempo para amadurecer o relacionamento; o amor para eles é fruto verde que, sob a ação de fenômenos alheios à sua natureza, torna-se, com o tempo, maduro. Daí eles se comportarem como exímios cientistas, a fazerem pesquisas, escolhendo propostas, selecionando hipóteses, descobrindo detalhes do outro, defeitos, qualidades, coisas e mais coisas do parceiro, até decidirem se irão ou não continuar o romance. Eu acho que quem age assim não sabe o que é amor.
           
Amor é coisa muito simples. Ele acontece num instante, livre, despreocupado. Quando menos se espera, lá vem ele arrebatando a gente, nos confundindo. E não se sabe quem é quem no amor. Como dizia Camões, “o amador transforma-se na coisa amada”, e vice-versa. Mas as pessoas não entendem, e querem testá-lo, medi-lo, pô-lo à prova...
           
Desejo um amor que não precise explicar-se, que não precise de tempo para dizer-se. Um amor que desconheça os limites do espaço e não perceba o terror do relógio; que busque no momento o único e misterioso sopro que o alimenta. Amor, de outro modo, não quero. Por que esperar que o tempo confirme aquilo que desejo quando eu mesmo posso fazê-lo de imediato?
           
Sim, à luz do dia e da noite ainda há pessoas que não aprenderam a dizer, em um relacionamento, eu te amo. Cegas, não estão certas de que, ao dizer eu te amo não comprometemos o outro nem nos comprometemos a nós, nunca mentimos. O problema é que os amantes sempre acham cedo dizer essa frase. Para muitos ela parece carregar certa maldição (os próprios amantes a criam): dita numa hora errada pode ferir teu corpo, e a ferida começa no ouvido, lugar que é poço onde descarrego meu sentimento. Tola ilusão.
           
O amor tem uma urgência de se fazer ouvir, para que se inscreva na memória da gente (Milan Kundera); e tudo começa quando eu apresso a sua vinda confessando aquilo que desconheço para torná-lo conhecido através da palavra.
           
Admiro os amantes que se amam baixinho, na solidão dos dois, sabendo dizer, um no ouvido outro, a flor de palavras que todos os que entendem de amor desejam ouvir. Afinal, não se proíbe ninguém de ser feliz. Sei disso porque felicidade é coisa pequena, pequenas migalhas colhidas no instante para matar a fome do momento que nunca mais será. O momento de dizer eu te amo é um para sempre que só dura o instante de dizê-lo, momento único em que as palavras se consomem para o agora em busca da felicidade.
           
Pode acontecer que eu perca tempo com minhas histórias, meus lamentos sobre a vida, os imprevisíveis demônios que me atormentam, e assim esqueça de dedicar meu sentimento amoroso. Aí, um dia, sem que espere, não mais direi o que antes podia, mas nunca tive coragem...
           
Lembro de um texto da Adélia Prado que, tenho certeza, serve para muitos desses amantes que procuram nos gestos e explicações os mágicos segredos do amor. E me pergunto se amor não é outra coisa senão um salto no desconhecido, aquilo que a palavra agarra sem razões e torna num terceiro corpo para ocupar o justo espaço que existe entre duas pessoas apaixonadas. Aqueles tipos de amantes são presas de sua própria armadilha. No fundo, com medo de confessar seus sentimentos, gostariam de dizer: “Divago, quando o que quero é só te dizer te amo!” (frase da Adélia).
           
As cartas de São Paulo também me fazem pensar que o amor pede para ser dito o mais urgentemente possível. São Paulo queria era um amor completo, presente e surpreendente em cada momento de sua vida, por isso achava pouca a linguagem do céu e da terra para dizê-lo. É claro, o amor tem uma linguagem própria, e só os que amam de verdade a conhecem e falam através dela.

E a gente pode até pensar que o amor do testemunho do santo tem cunho político-espiritual, por isso não serve para o exemplo do que venho dizendo. Mas eu digo que serve. Quando Paulo caiu em Damasco, uma luz muito mais forte que o sol brilhou sobre seus olhos, despertando-lhe um sentimento que ele jamais sonhara experimentar: Paulo tornou-se cego para que enxergasse o amor. Daí tenha se enamorado pelo Cristianismo. Em seguida à revelação do Cristo, empenhou-se no proclamar o Evangelho de modo a surpreender as gerações de todos os tempos.

Não conheço caso melhor onde o amor se diz por completo. A pressa em mostrar aos povos a novidade do Evangelho fez o antigo carrasco, perseguidor de cristãos, dedicar ao mundo um sentimento que se encontrava adormecido dentro dele há muito tempo, e que, a partir daquele instante, quis aproveitar a cada minuto de vida. Se você ler os relatos das idas e vindas de Paulo por amor à verdade que lhe foi revelada, nas cartas que escreve, na certa lerá a linguagem do amor: pelas palavras do Santo, os atos de vida contra a tirania da morte que nos perturba direto. Do exemplo de Paulo, calamos nossa idiotice diante dos medos que nos consomem: o amor, breve porque infinito, morre a todo instante que é vida. É cada um de nós, paradoxalmente, rezando: Te amo, porque o amor quer ser amado, e a vida é muito pouca...
            Muito é o sem-limite do tempo, imenso labirinto onde nos perdemos pela vida afora. Aos amantes cabe reconhecer que o amor é inimigo do tempo. As coisas nos fogem, tudo e todas as coisas que amamos somem, é nosso destino: cada coisa que se inscreve em mim, morre, por milagre. Tagore estava certo: “Nada dura para sempre. Guarda isso no teu coração e te consolas!” Peço licença e o parafraseio, timidamente: Nada dura para sempre, mas se tu amas, e sabes disso no teu coração, alegra-te: o tempo não há de roubar-te! Amém!

É desta forma. O amor dá uma missão ao homem: driblar o medo e aceitar que a vida é apenas um momento. E é preciso, como disse Arthur da Távola sobre o namoro, “fazer pactos com a felicidade ainda que rápida, escondida, fugida ou impossível de durar”. Eternos são os instantes de felicidade que somos capazes de inventar. Entre eles, o nosso melhor momento é o momento do amor, única oportunidade onde a vida, para qualquer um, vale mais a pena.
           
Prefiro amar crendo na lúcida oração de Santa Terezinha de Jesus: “Minha vida é somente um instante, uma hora passageira... Para te amar sobre a Terra tenho apenas hoje”. Ou, como o amante daquele “Bilhete” que o Mário Quintana fez, provavelmente ele próprio diante da, talvez, única explicação possível acerca de por que as pessoas dizem se amar:

Se tua me ama, ama-me baixinho.
No o grites de cima dos telhados.
Deixa em paz os passarinhos,
Deixa em paz a mim!
Se me queres,
enfim,
tem de ser bem devagarinho, Amada,
que a vida é breve, e  o amor mais breve ainda....

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*Adalberto dos Santos é cajazeirense, ficcionista e cronista

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