NÃO MATEM A SAUDADE
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Renato Russo é dono de uma das canções mais bonitas que eu conheço. Tenho uma profunda paixão por “Índios”, música simples, doce, hino de louvor à saudade, um dos sentimentos mais expressos pelos poetas em suas canções. Mas não é da saudade dor-de-cotovelo de que falo. Nada sobre as melancólicas lembranças de amor não correspondido das músicas de um Lupicínio Rodrigues ou de um Lamartine Babo. Nada disso.
Digo saudade na acepção mais ampla que a palavra possa ter: um sentimento recorrente no espírito humano provocado pela perda de uma coisa amada, e nunca de uma coisa ainda não amada, jamais vista nem sentida em toda a plenitude da alma. Saudade como um mistério que nem eu nem você sabe explicar direito, mas sentimos. Saudade que não quer ser analisada, nem testada, nem posta à mesa de uma discussão entre intelectuais e especialistas. Aliás, em quase nada somos especialistas. E de que nos serve saber mais de uma coisa que de outra? De que serve saber muito sobre a saudade? A saudade é pra sentir, ainda que se possa teorizar sobre ela, como se faz com outras coisas. Só que eu não quero teorizar sobre a saudade, embora haja uma urgência de não sei quê, um pensamento que me veio inesperado quando escutei há instantes aquela canção do Renato Russo.
Saudade é a sensação de que algo foi perdido e de que ou a coisa vem a nós de novo ou enlouquecemos. As crianças mesmo comprovam que nada do que gostamos pode ser retido de nossa posse; porque, se amamos, a coisa a que amamos queremos sempre ao nosso lado. É assim com menininha que se separa do brinquedo mais querido por imposição do poder adulto. Ou com o garotinho que não pode levar o cachorro para a escola porque escola não é lugar para bicho. E o mundo deles explode, vira cinzas, nada vale a pena. É tão difícil separar-se da coisa amada. Quando distantes, nenhum deles gostaria mais de algo do que suas inseparáveis companhias.
Mas também sentimos saudades de coisas grandes, coisas maiores que brinquedos e animais de estimação, coisas grandes pelo valor que as pessoas atribuem a elas, como brinquedos e animais para as crianças. O lar e seu aconchego valem mais para um homem que está distante de casa que uma mercadoria pesada e medida pelo poder do dinheiro. Tem gente que fica triste sem o prazer de uma música, o som de uma voz humana muito admirada e amada, o abraço de um amigo, o carinho de uma mulher, de um filho, o prazer de uma obra de arte, um pôr-do-sol... Um preso privado de um pôr-do-sol, enlouquece. Tudo por causa da saudade, que frutifica na distância. Quem lembra de Simão e Tereza no romance do Camilo Castelo Branco? Louca saudade um do outro, lindo confinamento nos guetos da dor e da tristeza, provocado pela separação. Até que a morte, a velha morte, os separa de vez. Para o reencontro? Talvez.
Nunca deixei de pensar que os grandes amores sempre nasceram para o reencontro. A graça dos mais lindos casos de amor contados pela literatura através do tempo está naquilo que eles têm de eterno. Eterno é tudo o que desaparece pela vocação do amor que me faz acreditar que tudo retorna. Quem ouviu Onde anda você do Vinícius de Moraes tem essa mesma impressão: na saudade a coisa morre para o reencontro.
E o interessante é que quem mais sente saudade, eu acho, é quem já morreu. Se esse sentimento nos chega quando algo parte, quando nos separamos do que já vimos, que dirá um ser que deixou a vida e tudo o que o amor pôde lhe dar enquanto vivo? Alguém já se perguntou o quanto deve nos fazer falta as coisas que a gente deixa quando nos despedimos... Por isso às vezes chego a creditar nessa história de reencarnação. Só não vou pela propaganda que algumas religiões fazem sobre o assunto.
Padre Zezinho, que é católico, diz o contrário. Numa música chamada “Dizem que é saudade” o Padre proclama a volta como um direito e uma permanência de promessa divina; fala do desejo das coisas que existem de voltar à origem. O poema é de uma animação perfeita: são imagens sutis que mostram as coisas da vida, elementos naturais como flores, rios, nuvens representando o desejo humano de retorno à Fonte Original. Mas, como já falei, sem suposições, como algo certo, garantido. Da forma como li em Madre Tereza de Calcutá: “Morrer é voltar para casa”. Quer dizer, rever de novo o lugar de onde um dia saímos. Um Eterno Retorno.
O Padre Zezinho fala da Fonte com o nome de Deus, essa mesma fonte da qual possivelmente somos origem. E argumenta, com ares de retórica católica, que é pura saudade o que sentimos, que sentimos Dele, de Deus. Mas eu não concordo. Que seja a mais difícil das indagações a verdade sobre a Sua existência, mas quem me garante que por mais de uma vez não já estivemos no mar de amor da Divindade? Será se existir já não é uma forma de Deus muito amar os homens, e assim sendo um dia devolvê-los à terra como forma de cumprir a promessa de Vida Eterna? Adélia Prado também pensa da mesma forma: depois da morte, tudo de novo, por direito e por amor do Pai.
Renato Russo, naquela canção que eu disse adorar, é menos feliz do que o Padre, porque mais exagerado. Em certo momento da música ele diz: eu sinto uma saudade de tudo o que eu ainda não vi. Impossível! Apesar de linda, a música é contraditória. Antes dessa afirmação o poeta faz a mesma exigência do desejo sonhado pelo Padre, depois vem com essa. Não sei se você vai concordar comigo, mas ninguém pode dizer: tenho saudade de “tudo o que ainda não vi”. Se a gente vive é por saudade, mas desta vida e das coisas que fazem parte dela e das quais ninguém quer se separar.
Para mim, saudade é um estado de reencontro entre coisas eternamente separadas, ou um instante de separação entre coisas que sempre se encontram e por isso desejam eternamente voltar a se ver. Saudade é estar a perder sempre o que não nos pertence, e é nosso ao mesmo tempo, só pelo prazer do amor que nos manda ser assim. Pois é tanto melhor perder como achar. A alegria de quem perde é igual a de quem encontra o perdido. Ora, ao fugir uma coisa de minha posse, a partir desse instante, eu já passo a amá-la, e muito mais do que quando essa coisa estava comigo. A vida nos passeia nessa dialética: temos para perder; perdemos para ganhar.
E ainda há pessoas que dizem que não querem morrer, mas querem matar a saudade. Para quê? Para tudo perder o sentido e parecer mais difícil de entender...
Rezo para que a gente goze de saudade até não poder mais, ou até mais poder. Este mundo tem coisas muito bonitas para a gente não querer voltar a vê-lo. Pois morrer não é coisa que se possa fazer sem amor. Só morre verdadeiramente quem não ama, e quem não sente saudade. Agora, matar a saudade é como matar a vida. E isto, tenho certeza, não está nos planos de nenhum dos nossos deuses.
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*Adalberto dos Santos é cajazeirense, ficcionista e cronista
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