Meus instantes de eternidade
Adoro as coisas simples da vida. Coisas que para alguns não têm sentido, coisas que talvez não se devesse adorar, nem ver, nem sequer sentir. Pequenos instantes passageiros, corriqueiros; momentos de vida mínima, sem muita graça, sem exuberância, tão pequenos que, sei lá, podem nem causar efeito, podem nem agradar. Mas que são coisinhas importantes, isso são.
Há coisas em mim que são assim, importantes. O valor delas só eu sei. Para os outros elas não têm valor, porque não pertencem a eles; são coisas minhas, que eu vivo e amo, e por amá-las opero o milagre de eternizá-las para que não se acabem de repente.
Coisas que a minha memória amou e que sem elas talvez nem pudesse existir. Uma palavra, uma canção, um sorriso, uma ocasião – coisas do ontem e do hoje, que acontecem e que aconteceram, que foram e que são para mim de grande importância. E foi por causa delas, da beleza que elas têm, que comecei a entender que minha alegria é produto do amor que elas fazem comigo. É, a gente faz amor todo dia. Em mim elas parem felicidades. Quando as vivo sinto que sou uma coisa amada. Quando elas vão, fico a desejá-las de novo: que voltem, que retornem, porque as quero sempre. Sou um apaixonado pelas coisinhas da vida.
Amo, por exemplo, as primeiras horas da noite quando todos os de minha rua se recolhem às suas casas, deixam as calçadas e vão descansar seus corpos carregados de trabalho. Nessa hora, o silencio se apresenta e eu aproveito para ler um livro, ouvir música, escrever ou conversar sozinho com as vozes da noite. Sinto-me lindo, todo-poderoso, porque sei esse momento em que a beleza se oferece para mim. Aproveito.
Do mesmo modo amo o sorriso manso e singelo do negrinho Buiú, moleque e esperto e carinhoso que um dia conheci numa dessas tardes de rara alegria (foi a ele a quem demos, eu e o Dom Rafa, o gentil apelido de Meu Guri, aludindo à famosa canção do Chico Buarque).
Tenho uma paixão louca pelo grito estridente do rapaz que entrega o pão em nossa rua. Toda manhã ele me acorda cedinho, dizendo que o dia já começou. Quando ele não passa (ou quando não me acordo) meu dia fica meio cinza, sem graça, destoante – faltou-me ouvir a primeira nota da sinfonia de vida que ele sussurra todo alegre.
Há um senhor gordo e de bigode que costuma sentar nos bancos de uma praça no caminho da universidade. Ao fazer aquele trajeto (depois de acordar com o rapaz do pão fazendo música – Olha o pão, olha o pão!) sempre o encontro a dedilhar no violão modinhas de si para si mesmo. Ninguém aparece para escutá-lo. Acho tão bonito. Sua solidão me encanta (uma noite sentei ao seu lado e descobri que era poeta).
E quando Mauro bebe, que vira o filósofo mais agressivo e carinhoso que eu conheço... Seu pensamento vira ao avesso qualquer doutrina já concebida sobre Deus e a existência. Diz coisas lindas, poéticas, que só têm vida naquele momento. Mas só eu sei o prazer de ouvi-las... E os suspiros de Magnólia, a alegria de Daniele, o olhar de Vânia, a voz de Sandra? Eu mal termino o último verso do poema Ausência e elas parecem reunir na graça delas toda a beleza da vida.
Robson, quando pensa na possibilidade de ter que ir embora da cidade em busca de estabilidade, murmura, amuado: “É minha filhinha, cara! Se não fosse minha filhinha, eu já teria me mandado!” É um instante que sempre se repete. Ele nunca se esquece de dizer essas frases. E quando o faz seus olhos mudam de cor, brilham de um jeito pouco visto; seu sorriso toma o rosto quando pronuncia sílaba a sílaba a palavra “filhinha”. Eu, do meu canto, fico me dizendo: isso é muito bonito!
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*Adalberto dos Santos é cajazeirense, ficcionista e cronista
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