Silêncio da noite em rodas boêmias
Silêncio só o que se impõe sozinho, quando se deseja isso mesmo. O silêncio da noite, por exemplo. Esse tem música mais bonita, você não fica à deriva, é companhia que só vai embora quando o dia amanhece. Veja que coisa boa, que coisa amiga. A noite fica enfeitada com o silêncio. O vento também fica, os pinguinhos da chuva, quando os têm, senão a orvalhada, o friozinho que vai chorando dentro da barriga enquanto a embriaguez desanda a cabeça.
Adepto das rodas boêmias, acho que a pureza da noite tem tudo de bom, no silêncio, e prefiro esta aos templos de cigarros e bebidas a mancheias onde o silêncio não se permite. Mas agora não se pode mais estar bem nesses lugares. Os ditos templos da boemia se encontram entupidos da idiossincrasia de grupos sociais dispostos a tudo, menos a colher na noite o prazer que os ambientes noturnos podem proporcionar. Isso quando dois ou mais escolhem o direito de poder ouvir suas únicas vozes, ali, discretos, como se verdadeiramente estivessem em silêncio.
O silêncio da noite em rodas boêmias é essencial, mas hoje quem pode tê-lo, meu Deus! Tem gente levando o bom senso para a outra banda do inferno. Arre! O meu coração quer tomar distância dessas coisas. A força está muita. Absurdo esse tal momento. Agora só é possível inventar lugares se quisermos tê-los de verdade. Já não dá para conversar (quem garante) nos ambientes noturnos de boa boemia.
Aprendi a procurar lugares, senão inventá-los, e não ir mais para qualquer beco, para os já certos, os reservados a quem não tem mais opção. Se não me rendo à inconstância do mal-estar dos antigos, não saio. E isso é uma resolução de um inveterado da companhia de amigos e de rodas noturnas.
Vá ver um amanhecer num ambiente sem o mínimo de poesia... meus olhos não. Às vezes cansa. Não sou um extravagante, sou discreto quando posso e um tímido sem jeito. E se deixo um sorriso escancarar para encobrir uma amargura, não é por todo mundo. E até você pode dizer isso. Não dá uma impaciência quando se quer trocar um papo bom com amigos e uns na contramão te arrebentam a voz? Mas tá, vamo em frente.
Suponha que você quisesse se perder na cidade. Quem sabe procure ignorar a burrice alheia. Disseram que isso era radicalíssimo. Mas para toda esquina há um radical, meu amigo. Sei que não se trata de ir a qualquer lugar, mas bater à porta de quem, no mínimo, se tenha parentesco. E aqui ou ali a gente acaba encontrando. É como ser um pingo d’água duma mesma poça, ou um grão de areia numa praiazinha escolhida. Nenhum igual, mas todos parecidos na forma como se dão ao mundo.
Pronto, você pode encontrar algum dia desses um bom lugar assim, sem problema algum, onde se converse e se mastigue comida e idéias livremente. Pode ser que a noite lhe seja suave e que permita vôos de pássaros que só gostam de voar em bando. Mas não valer chegar de cara amarrada, assim não tem graça alguma. Bom é dividir juntos o gosto, o tempo e o espaço de tudo o que se mastiga.
Combine aí, e busque estar tranqüilo. Caso não queira, eu chamo (e você vem, não vem?) Pode deixar, é tudo como diz o Aldir Blanc: “manter a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranqüilo, a toda hora, a todo o momento, de dentro pra fora, de fora pra dentro...”. Poderemos falar sobre banalidades com a despreocupação de duas pessoas despreocupadas, que tal; posso, por exemplo, perguntar o que você achou da interpretação que a Leila deu a “Todo amor que houver nessa vida”, ou afirmar que a tartaruga é um bicho muito interessante e que um dia me apaixonaria por uma.
Claro que você riria, diria outras bobagens e o tempo escorreria como toda a vida. Se acaso eu dissesse que me acho um desses idiotas que divagam como as parabólicas, seria novidade? Talvez, se você tentasse descobrir por quê. Ora, numa noite dessas teríamos assunto até segunda-feira. Minha nossa senhora, eu acharia uma maravilha! E se você quisesse explicar uma cor, o sorriso de uma maçã na penumbra de um fim de tarde, a obra do John Lennon, falar do barulho de uma feira livre, de qualquer história ocorrida com você entre os seis e os doze anos, de um pensamento bem recente, um causo, uma piada, qualquer coisa, eu ouviria de corpo inteiro. Acho que não esqueci de umas coisinhas básicas: a vida não é um presente de grego. É, no mínimo, dois. Escolhe-se o que mais atrai. Depois é com a sorte.
Sabe descrever a-be-le-za-de-uma-noite-morna-num-serão-de-três-amigos: eu, Chico e Drummond, por exemplo? Se conseguir, com os tons como são os de uma pintura dessa, dou de volta tudo que aprendi ao diabo. Se não sabe, é como não poder temperar coisa alguma na vida. Beleza como um piano do Beethoven. E, claro, a gente podendo tem liberdade e alegria.
Ora, vamos beber, rir e celebrar a vida, mais é muito isso.
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*Adalberto dos Santos é cajazeirense, ficcionista e cronista
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