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*Adalberto dos Santos escreve aos sábados. Acesse o blogue do autor: Nu com a Minha Musa

» CAJAZEIRAS, PB, 22 DE SETEMBRO DE 2007

O trampolim do vestibular

O que são os cursinhos, hein?! Entidades sem nenhuma importância. Sem nenhuma, na minha opinião.

Primeiro: tratam-se de instituições que se impõem, na sociedade, como detentoras de saberes cuja exclusividade é sua. Tolice maior, eu não conheço. O que se aprende nos cursinhos não são coisas novas, inéditas, conhecimentos precisos e espetaculares a que nunca se teve acesso. Se assim fosse, a escola e o saber por ela proporcionado perderiam totalmente seu sentido e valor. Mas cursinho não é escola. Nunca foi. É outra coisa, um troço que arremeda a escola, que quer ser escola com tudo o que nela há de sagrado. Depois, os cursinhos falseiam uma importância que na verdade eles não têm.

Segunda causa de sua nenhuma importância: cursinhos são máquinas capitalistas de fabricar ilusões. Para muitos podem ser o lugar mágico onde se acumulam estratégias para a guerra desigual contra o vestibular, mas não passam de instrumentos ideológicos a serviço do descomunal poder dos grupos de elite. Repito: cursinhos são máquinas capitalistas de fabricar ilusões.

Mas o pior é que há um sem-número de fanáticos (com carteirinha e tudo) por esses tipos de lugares: charmosos, encantadores, glamourosos, promissores, aparentemente prontos para resolver todos os problemas da estudantada doida por novidade. Lugares de tanto encanto que obscurecem intenções nem sempre percebidas por quem os freqüenta: o importante são as cifras que rolam dos bolsos de seus mantenedores, o ensino está em segundo plano. Primeiro é se pensar no que se obtém em vantagem de lucro, os resultados do trabalho podem esperar. Afinal, resultados são resultados, produtos finais de uma ação, o processo vale muito pouco quando já se tem ali o que se queria antes. Mas os cursinhos oferecem superpoderes ao estudante às vésperas do vestibular, para que este se sinta apto à prova do concurso público – o que nem sempre acontece.

Na verdade se enganam os estudantes, seduzidos pelas promessas dos cursinhos. Por trás da iniciativa do êxito no vestibular há o esgotamento da capacidade criativa do sujeito pensante, que não pensa no cursinho. Em contato com os arautos do conhecimento de mercado ele se robotiza (isso mesmo, vira máquina suscetível a ordens e comandos de outro cérebro), por isso não saca as reais intenções das “ingênuas” lojinhas de conhecimento de que são fregueses.

Na lógica interna do funcionamento dos cursinhos, por trás da cortina ideológica que os protege do olhar curioso, o aluno é moeda, material de troca para o acesso ao saber. Já pensaram sobre isso? É simples: se o aluno paga, a empresa garante: aprende. Só que o conhecimento proporcionado é investimento que se reverte em alegoria do sucesso da instituição e dos profissionais que delas fazem parte.

E há o kit-cursinho. Está no cartaz, no panfleto, na faixa amarrada na rua, na publicidade de rádio e tv. E a propaganda se propaga como nunca, nesses tempos de dificuldades do ensino. Para onde eu olho o olho do cursinho aponta: 1) professores-tampa (na gíria da moçada, o profissional de habilidades com as “técnicas de cursinho”), 2) o “melhor” material didático, e 3) o currículo de maior aprovação de alunos no concurso vestibular – eis o kit-cursinho, ou superkit-cursinho, já que lá é o lugar dos super-heróis.

E em que resulta o tal kit? No saber pronto, acumulado em blocos, para a urgente causa de um sistema educacional ridículo que muito intensifica o escravismo ideológico e minimiza o poder de decisão do aluno cidadão.

No cursinho sabe o professor, porque domina os “truques”, os “macetes” do vestibular. Sabe o professor porque é erudito, sabido, profícuo, estudou muito na universidade para descarregar tudo o que aprendeu na mente insipiente do aluno obediente. Daí o epíteto de mestre-tampa (e não mestre-cuca, que prepara as delícias do saber): sua função é a de encher a panela vazia (cérebro) do estudante, tampando-a, evitando com isso que o conteúdo fuja, escorregue, transborde, vá embora – pelo menos até o exame vestibular.

Acho uma violência o que fazem com os alunos de cursinho os seus professores. Para toda disciplina há sempre um pequeno manual, em resumo, que ensina como montar e desmontar a matéria. É uma bela estratégia para a distração a que se submetem os estudantes. O professor pega a apostila e desconstrói o labirinto de dificuldades no qual os estudantes estavam presos. Acabada a apostila, pronto: o sofrimento já era, foi desfeito, agora eles caminho seguros, livres, não há mais paredes que os aprisionem. Deu-se o reforço, a vacina que cura contra ao terror do vestibular.

Mas livres, no entanto, sem paredes que lhes atrapalhem a vista, tornam-se incapazes de ir mais longe. Cheios de fórmulas e receitinhas prontas, caminham tranqüilos ao redor do pequeno território de saber conquistado, mas não voam, não conseguem ir além do novo mundo descoberto... Seus pés pobres pesados ao chão do conhecimento rebuscado: esforço inútil, reforço inútil, tempo perdido. Pois, o que se aprendeu tem prazo de validade – se o conhecimento for retido até o vestibular, ótimo, se não, dinheiro jogado fora, decepção. Quem ganha? O patrocinador do evento.

Ora, Francisco estudou em cursinho. André também, Andressa, Kátia, Mara, Lucas... Todos ex-alunos meus. Eles estiveram lá. Quem pôde, estudou. Mas Francisco, como outros, tem larga experiência em fracasso no vestibular. Desencantado, um dia me fez um protesto interessante. Conversando sobre o assunto, ele disse achar o cursinho incapaz de proporcionar ao estudante a autonomia de pensamento de que este precisa para o vestibular e para a vida. Não sei o que significa, para ele, “autonomia de pensamento”, ou no que pensava quando falou “se dar bem na vida”. O que sei é que achei bonito, e admiro a atitude corajosa do garoto. Ele quem me levou a pensar essas coisas que escrevo. A ele agradeço o exemplo da pouca dignidade ainda restante nos nossos jovens.

Parece que o meu amigo Francisco estava pensando: é oportuno admitir que nem sempre os cursinhos conseguem cumprir o ideal de vitória com que acenam em seus anseios e propostas pedagógicas. Não, e também acho: eles não são tão poderosos assim...

É claro que nossas escolas apresentam falhas quanto ao cumprimento dos conteúdos de ensino do programa curricular (o velho currículo!), essencial para a etapa angustiante do vestibular. Os nossos professores, em sua maioria, são poucos capacitados para o desenvolvimento de metodologias eficazes frente às reais necessidades de aprendizagem que a sociedade cobra do aluno na hora do concursão. Mas elevar os cursinhos à categoria de redentores dos pecados da escola é fazer pouco de educadores e aprendizes.

Conheço casos de estudantes que nunca precisaram das lições de cursinhos, e, no entanto, puderam ingressar na universidade numa boa, sem problemas, nem penitência nenhuma. E conheço professores cujo interesse pelos destinos dos seus alunos era tão grande que souberam passar-lhe a melhor fórmula de acesso ao conhecimento: o prazer de aprender.

A coisa está em dar sentido ao que se faz na escola, em ensinar prazer para a satisfação do aluno – para lhe dar saber. Aluno satisfeito é aluno que aprende, aluno que sabe: pela felicidade de aprender, somente. Aluno assim não precisa, após a experiência de todo um caminho de estudos, do esforço doloroso e sem sentido no trampolim do vestibular.

Desculpem os adeptos, mas cursinho corrói o cérebro, atrofia a inteligência, o desejo de aprender e deixa uma nódoa irreparável de horror ao conhecimento. Já fui professor de cursinho, não nego. Mas juro: era incapaz de agir como se o aluno fosse uma alma perdida, cujo caminho de salvação só eu conhecia. Talvez tenha sido por isso que nunca dei certo nesse tipo de empresa.

Àquela época eu já sabia: truques e macetes não ensinam ninguém, por exemplo, a gostar de ler. Quantos desses jovens que entram numa universidade pela porta do cursinho desenvolvem o gosto pela leitura, o prazer dela... Como, se em cursinhos a gente não lê, se a gente não pensa direito? Ler pode ser bom, sim. Desler, então, nem se fala... é um caminho para atividade do pensamento, a continuação da maravilha do conhecimento.

Só creio numa educação que ensine a pensar. Se uma escola não faz o indivíduo capaz de criar pensamento, mãos à palmatória – ela não cumpriu sua tarefa. Educar só para acompanhar modismos, simplesmente, não servirá para nada. Lampejos de conhecimentos, ciência fraturada, é felicidade aparente. Desejo um ensino sem sofisticações pedagógicas, sem isso ou aquilo que atrapalhe o pensar do aluno, um conhecimento livre de verdade, independente, voltado ao prazer da descoberta.

Primeira lição, que aprendi com o Francisco: reação a atitudes absurdas e medíocres como a dos cursinhos pré-vestibulares, casa de detenção onde se corrigem os erros de aprendizagem dos alunos, mercantil de idéias e conhecimentos à mercê de quem os queira, purgatório das almas impuras em busca do falso paraíso da universidade...

Depois: sonhar livremente com uma educação para além do prazer de aprender e ensinar, e da realização de nossas maiores utopias...


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    *Adalberto dos Santos é cajazeirense, ficcionista e cronista


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