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*Adalberto dos Santos escreve aos sábados. Acesse o blogue do autor: Nu com a Minha Musa

» CAJAZEIRAS, PB, 2 DE SETEMBRO DE 2007

Cala a boca não morreu

ERA UMA VEZ a historinha da Ruth Rocha que eu fiz questão de contar pra vocês, e quis contar porque foi dela que tirei as principais idéias para o que vai escrito aqui. Como disse, há muitos reizinhos mandões em nossas escolas, e às vezes a gente nem consegue ver que eles estão lá.

São aqueles sujeitos insuportáveis, cuja melhor descrição não tenho outra: sofrem de uma espécie de esquisitice intelectual - são deficientes do cérebro, as mensagens do mundo chegam-lhes através do umbigo. E o que eles fazem na escola é tão interessante quanto triste. Eles levam o sagrado, apropriam-se do diálogo, do jogo de vozes que antecipa a aprendizagem. Os mandões são uma grande questão. Não é exagero dizer que talvez seja a maior. Os mandões são o problema da autoridade e do poder na escola.

Mas aí vem o problema: pode existir poder na escola? Sim, na escola ocorrem situações em que o que está em jogo é uma permanente luta de poderes.

Poderia ser diferente, embora não fosse tão curioso quanto imagino. O que ocorre é que sendo como é, é um exagero. Compreende-se que em termos naturais os homens lutem para que se afirmem na própria natureza. Mas toda luta há de ser justa. Eu não tenho visto justiça para com os nossos alunos por parte de seus professores. E quero explicar por quê.

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Vejam só. Em primeiro lugar os educadores nunca falam da questão do poder entre eles e  seus alunos. E eu penso o seguinte:

a) ora, os professores deveriam, de vez em quando, conversar sobre isso. Os tantos encontros de educação que eles organizam por aí consideram tantas coisas bobas. Coisa séria como essa nunca vi eles notarem. b) por causa disso, ficamos com uma verdade dura sobre as costas: tudo se resume a uma simples (não, complexa) luta entre forças.

E podem até pensar que estou me referindo, caros eruditos, àquelas análises de cunho marxista, onde aparecem os elementos da teoria mesclados a um punhado de palavras da área educacional. Pode até parecer, mas não se trata disso. Esses trabalhos eu conheço. Eles só dão conta da grande estrutura social que os discursos em Dialética reiteram no campo de forças do capitalismo. Quem estudou essas teorias compreendeu que uma sala de aula pode ser reprodutora do conjunto de idéias da classe dominante. Ali se dão condições para que se mantenha a desigualdade social no mesmo patamar de injustiça e egoísmo desumano que se prolonga durante toda a história do homem. Aprendeu, tá certo, mas pode não ter compreendido que a luta de classes é o correspondente exato da afirmação de poder, do jugo da autoridade que se dá cotidianamente em todas as relações sociais - entre elas, as que acontecem na escola. É só ficar de olho que se percebe facilmente: existe uma coisa na escola que responde pelo nome de uma falsa autoridade nalguns casos (e muito mal exercida), disfarçada aos nossos olhos, educadores, na pele de um autoritarismo mesquinho, pior que o exercido a partir do uso da força física. É o autoritarismo psicológico, que contribui para que se afirme a infeliz verdade dos tempos da educação moderna: ainda há professores que calam a boca de seus alunos, como o fez o reizinho mandão na história da Ruth Rocha.

Mas o mundo não é o livro de ficção, apesar de, nas entrelinhas do processo cotidiano das salas de aula, estar ocorrendo uma luta entre um reizinho mandão e um povo completamente indefeso. Desli o livro da Ruth e consegui perceber isso.

Se as análises marxistas retiram da teoria o modelo de observação para mostrar as diferenças sociais que atingem (até) a educação, eu uso um texto literário, belíssimo, cheio de significados, para pensar que há uma maldição pairando nossas escolas. Apesar de todas as novidades e apetrechos que a educação proporcionou ao século XXI, repito, herdamos de um tempo bem remoto o mais antigo problema da escola: o problema do autoritarismo.

Hoje reconhece-se um tipo de professor que se diz um modelo moderno de autoritarismo: é o reprodutor ideológico da postura do antigo autoritário em sua forma mais controvertida. Eu uso a personagem do livro e a história que ela vive para explicar os dois. Um é a personagem, o outro, o conjunto simbólico da moral que o texto esconde; ambos se adaptam perfeitamente à nossa história de “reis” da educação.

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O antigo autoritário cai como uma luva no perfil do reizinho mandão. É o arquétipo do poder do príncipe (maquiavelismo mesmo), um tipo que a escola moderna tratou de descartar, com o avanço das discussões de mesa. Hoje é impossível se admitir aquela tia nervosa que punha os meninos de joelhos sobre os mais variados castigos (eu tive uma vizinha que fazia isso), ou a que batia com palmatória toda vez que seus alunos erravam uma lição (essa mesma vizinha ficou famosa pela prática). Nem o professor que calava uma turma inteira com seu olhar amedrontador, só porque tinha autoridade. (E aqui entenda-se autoridade no sentido de imprimir sobre alguém, numa dada situação, um poder assegurado por uma tradição. Como o reizinho que herdou "autoridade" e governou mandando o seu povo).

Depois vem que o autoritário moderno não parece mandar em ninguém, mas a opressão que exerce é tamanha que encobre completamente seu ato. A história do reizinho mandão disse tudo. Querem saber quem são os autoritários da escola moderna?

São os professores que oprimem seus alunos legitimando a cultura do silêncio na sala de aula. E da forma mais burra que eu conheço: calando a inteligência dos estudantes com tigelas de conhecimento inútil retirado de livros mal digeridos, em instantes de leitura rápida. Professores esnobes, cujo saber põem acima da experiência do aluno e de sua capacidade de dialogar com o mundo, como forma de aprender. Eles não notam que sua voz vai aos poucos contaminando o ambiente e fazendo com que o seu aluno desaprenda a "falar".

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E comparando pra valer, na historinha da Ruth a voz autoritária do reizinho traz em pouco tempo a mudez total para o povo. Todo mundo esquece que tem voz e que pode usá-la de direito. O povo é o aluno acanhado diante do poder professoral, incapaz de pensar suas próprias idéias. Ora, há uma voz menor que a dele, por que o "mandão" iria pensar em pô-la além do seu lugar? Hipótese: como diz o velho sábio ao reizinho, decerto com medo de que alguém se atreva a dizer que ele está falando bobagem. Não é desta forma que o poder continua?

O moderno autoritário fala para si mesmo, é um pretensioso utilitarista, pensa sozinho; seu conhecimento vai de si para si mesmo, não passa no outro além dele, porque o outro, para ele, não existe. É um sozinho, como o reizinho mandão: no fim das contas, a solidão lhe atormenta. Sente o mesmo desapontamento do pequeno monarca: ao ver o balançar de cabeça dos seus alunos (eles não respondem quando solicitados), fica maluco. Porque percebe: inutilidade do discurso, palavras ao vento. Diante do péssimo resultado do trabalho que desenvolve, corre doido procurando ouvir uma voz. Os meninos não pensam, não se expressam, não têm o mínimo de "senso crítico", não sabem tomar decisões. Mas é engraçado: todos os especialistas e burocratas da educação querem  que eles digam alguma coisa para o seu rei ouvir!

Acho que o conselho do sábio ao reizinho diz o que é certo: nos enganamos com o poder que temos. O reizinho precisou aprender. Nós, quem nos ensina são as crianças. Elas entendem: com uma naturalidade incrível, para tudo que aprendem abrem a boca de espanto. As coisas são importantes saber se lhes alegram, se há novidade, e se são livres para tal. Pena que enquanto cresçam, alguns reizinhos mandões mandem que elas fechem a boca, e elas sejam forçadas a 

É isso: ficou o professor autoritário na escola moderna como o protótipo da auto-afirmação do saber pessoal, incapaz de renovar idéias e reelaborar conjuntamente os significados do mundo já apre(e)ndidos pelo aluno. É um dificultador do diálogo vivo, em qualquer ato de educação. E assim sendo, age opressoramente contra a natureza humana. Erro demais aí: quem não sabe que o pensamento é livre, que corre em liberdade? Creio seja necessário um mínimo de inteligência para se compreender isso.

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Na verdade, todo professor-reizinho não passa de um bobalhão. O desenho do Walter Ono que ilustra o livro da Ruth me explicou isso. A coroa que a personagem usa na cabeça deixa escapar uma coisa engraçada: as pontas da coroa não são pontudas, mas "boludas". Isso mesmo, estão mais para um chapéu de bobo da corte que para coroa de rei. Coincidência ou não, daí se deduz o inusitado: nosso reizinho ou veste a roupa errada, ou está nu.

Quem fez a lição de Esopo decide a mesma coisa. A vida é cheia de situações como aquela em que o rei é pego de surpresa pelo olho inteligente de gente que não é boba; feito a Ruth Rocha, que conta histórias que são como aulas, iguais a essa, verdadeira lição que atualiza nossa própria história.

Fico com a Ruth: cala a boca não morreu de jeito algum. Mas é bom que se repense como começa a nova fábula da educação em nossa atualidade. Se quiserem, empresto a primeira frase:

É UMA VEZ profissionais xeretas que brincam de reizinhos mandões...


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    *Adalberto dos Santos é cajazeirense, ficcionista e cronista


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