Aprender a ouvir
De Nietzsche, um filósofo que também foi músico, dia desses ouvir a seguinte frase: Sem música a vida seria um erro. Essas palavras mexeram comigo durante muito tempo. Eu fiquei mole aqui por dentro porque elas trouxeram uma verdade que não encontra desacordo com minha visão sobre a música: a música dá à vida um sentido para lá de absurdo.
Juro que desconheço na natureza algo mais extremamente belo que a música. O que eu sei é que a música vira o sujeito pelo avesso; a alegria corre da música para dentro dos meus ouvidos. A música do Bach, o piano do Chopin, os sambas do Chico Buarque, as melodias do Beethoven, toda a música, sempre a música. Através dela o universo inteiro parece contido na alma da gente. Tudo cabe dentro de nós se há a música. Na hora da música eu rio como nunca – e o que era triste deságua no mar do esquecido.
A vida mesma chega a valer a pena por causa daquele instante maravilhoso em que se provou o céu por um instante, o instante da música. Por isso aquela idéia do Nietzsche, que também disse: Quando me deixam pensar no que desejo, procuro palavras para melodias íntimas e melodias para palavras íntimas.
Guardo palavras íntimas há muito tempo. Meu pensamento faz tempo que pensa acerca da importância da sensibilidade auditiva nos jovens que educamos. Não sei se consigo a melhor melodia para expressá-lo, mas já começo dizendo que os professores não são responsáveis somente pelo cérebro dos estudantes: o são também pelo ouvido deles. Isso mesmo: a educação começa na educação do ouvido. Se não há um ouvido educado, não há sensibilidade para quase nada na vida, inclusive para a música.
Você que já leu os tratados sobre educação pode achar estranho o que falo, mas música é o motor que gera a energia de que o cérebro se alimenta para aprender. Sem música não há ensino, muito menos aprendizagem. E sabe por que digo isso? Porque a música da escola é quando o professor consegue fazer com que suas palavras toquem a sensibilidade do aluno, tirando dele as melodias da aprendizagem.
Sei que você ensina com palavras, e não com música. E sei que você está certo, mas palavra é som que pode virar música. Na música som acompanha som. Quando há música há combinações perfeitas entre sons, que findam no prazer de quem a ouve. Compasso: que em música significa dar passos iguais, seguir lado a lado, coisa da educação. Como professor eu posso muito bem estar estragando o ouvido do meu aluno com melodias que não servem para nada e que não fazem o mundo caber inteiro dentro da alma da gente.
Educar o ouvido é despertar no cérebro a capacidade de sentir antes de pensar. Aprender primeiro na palavra o gosto que a coisa tem, antes de prová-la. Depois, continuar aprendendo. O problema de muitos professores é achar que estão ensinando seus alunos quando estes os enganam e enganam a eles próprios porque somente escutaram a aula. Muitas vezes a música não veio, porque escutar é diferente de ouvir; não é fazer ouvido de mercador.
Os dicionários trazem o verbo escutar como sinônimo de ouvir. Mas, entre outros significados, mostram a diferença entre as duas palavras. E não poderia ser de outra forma; há mesmo um princípio diferenciador entre elas. Impossível confundir: a natureza de quem escuta não é a mesma de quem ouve.
Nos dois maiores dicionários da Língua Portuguesa a definição para escutar é a mesma. O Aurélio diz que é “tornar-se atento”, ou “prestar atenção paraouvir alguma coisa”. O Houaiss traz escutar como “esforçar-se para ouvir”. Portanto, ainda não é ouvir, é um estágio anterior ao ouvir. De novo o Aurélio: Ouvir v.t.d. 1. Perceber, entender (os sons) pelo sentido da audição. E o Houaiss: Ouvir 1. trans. int. Perceber pelo sentido da audição. 2. int. ter o sentido da audição, a que se soma a locução verbossubstantiva chegar a ouvir, que significa ficar ciente de.
Teste o ouvido do seu aluno, e veja se ele escuta ou ouve. Se ele só escuta, ele é um aluno que não educou o ouvido, e você como professor é responsável por isso. Eu devo fazer com que minhas palavras soem como música aos ouvidos dos meus alunos. Tenho que ser mestre e maestro do ensino. Na escola, a música que toco ficará para sempre na memória daquele a quem me dispus educar. Se faço boa música garanto um ouvido capaz de sentir as melhores coisas da vida, afinal, a vida reflete o que a escola fez da vida do aluno.
Por que a maioria das coisas ensinadas na escola entra por um ouvido e sai pelo outro na cabeça do aluno? Por causa da capacidade de alguns professores de tornar insensível a audição dos seus alunos. Os saberes podem ficar por instantes, mas não duram mais que um intervalo entre duas notas musicais. Os alunos olvidam rapidamente a lição, esquecem, não se lembram dela, e continuarão a não se lembrar durante toda a vida. Em vez de sensíveis ouvintes, ouvidos confusos. Ouvidos confusos não podem ouvir a música que faz a vida não parecer um erro. Nem podem evitar que se cometam os mais absurdos equívocos - como a maioria dos nossos jovens, que escuta a “música” da maioria e diz não discutir o assunto porque “música é uma questão de gosto”.
Para mim quem diz isso está completamente confuso, não tem sensibilidade auditiva e a culpa é da escola. Algum professor não fez (nem tentou fazer) com que seu ouvido sentisse a música da vida. Razão pela qual tornou-se incapaz de ver a vida nas músicas de verdade.
Explico literalmente e discuto musicalmente a coisa. Não quero deixar teu ouvido ainda mais confuso.
Primeiro: música não pode ser uma questão de gosto, porque gosto está para o paladar. Segundo: não há nenhum paladar capaz de sentir pela boca um gosto de música. Eu posso me referir a gosto significando aquilo por que se tem preferência, o que me agrada ou não. Quando digo “meu paladar não suporta tal livro”, está implícita uma lógica evidente, e você realmente entende o que quero dizer. Mas não há paladar capaz de distinguir pela boca um gosto bom de música boa ou um gosto ruim de música ruim. Só o ouvido é capaz, e somente se estiver sensivelmente educado para.
A capacidade de sentir pelo paladar está para os prazeres das coisas que entram pela boca; música não entra pela boca. Pelo contrário, música sai pela boca, como o canto (se a música for acompanhada de letra ou de sons produzidos pelo aparelho fonológico, perfeitamente articulados a uma melodia). Pelo menos é dessa maneira que sei. Podemos sussurrar sons, solfejar. Assim, é mais coerente dizer que da boca pode sair música, e não o inverso. Daí o meu pensamento: se de alguma boca sai uma frase como esta, “música é uma questão de gosto”, é mau-gosto de quem diz, lugar-comum fora do lugar, errado onde quer que apareça.
Se você anda dizendo essa asneira, eu te pego pela linguagem; aliás, pela língua. Ninguém de ouvido finamente educado há de concordar com sua idéia. Só se considerar que houve alguma coisa na sua audição, e agora você anda dizendo uma bobagem assim, assim tão desafinado. O que hOUVE? Já sei o que foi.
Alguém de língua pouco palatável encheu teu ouvido com essa frase sem nenhuma melodia e ele se adaptou a tê-la como certa. Quer dizer, você se iludiu com a música que ela provoca só porque todo mundo anda repetindo a mesma coisa. E você se orgulha muito, até chega a dizer: peguei de ouvido.
Ok, tem gente que pega de ouvido, sim, mas isso não quer dizer que você é músico ou que sua sensibilidade musical é superior a do Beethoven (um surdo que ouvia melhor que muita gente por aí). Quem pega de ouvido pode muito bem pegar uma coisa que não é música. No seu caso, você não pegou nada de música; pegou foi a língua do outro, e nem gustou direito.
Sabe o que é gustar? Gustar é estimular os sentidos do paladar através de provas em pequenas quantidades. Quem gusta descobre as diferenças de sabores entre as coisas. E o sabor, como é óbvio, tá na língua, que tanto pode sentir o doce quanto o amargo, o bom ou o ruim das coisas. O problema está no sabor que a língua sente, na sensibilidade para distinguir uma coisa da outra. Tem língua incapaz de saber de qual sabor se trata por causa de uma deficiência qualquer: o órgão pode estar gasto e por isso incapaz de saber gustar.
Não digo que você é incapaz de saber gustar. Pode ser que sim. Mas se me diz que gosta de música, então devo lhe fazer a seguinte pergunta: como está sua língua musical? Ela pode estar sentindo coisas de péssimos sabores achando que se tratam do mais doce e agradável gosto.
Por isso, a partir do seu ouvido defeituoso, eu afirmo: música é uma questão de educação auditiva, não é uma questão de gosto, simples como você pensa.
Pode até existir uma língua para sentir a música, mas não se trata da língua do corpo. Dizer que música é uma questão de gostar/gustar é cometer um grande equívoco caso não me explique direito. A não ser que se esteja falando dessa “música” de hoje em dia, que é mesmo para ser gustada pelo paladar doente de quem a escuta, pois nenhum ouvido educado é capaz de engoli-la.
Sou todo ouvidos a quem me provar que os professores não estão confundindo o lugar por onde a “música” de suas palavras chegam ao cérebro dos alunos. Afinal, música não é, nunca foi, nem nunca será uma questão de gosto; é uma coisa de ouvido, somente. Não esqueça.
Isso, durante muito tempo, estava escrito na partitura dos melhores educadores: para aprender, tem que aprender a ouvir.
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*Adalberto dos Santos é cajazeirense, ficcionista e cronista
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