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*Adalberto dos Santos escreve aos sábados. Acesse o blogue do autor: Nu com a Minha Musa

» CAJAZEIRAS, PB, 4 DE AGOSTO DE 2007

DAR E RECEBER
Sobre professores que ensinam e alunos que não deixam ensinar

Um dos problemas mais freqüentes com que os professores se deparam em sala de aula é o problema da falta de interesse dos alunos. Não são raras as lamentações dos docentes acerca de turmas de alunos desinteressados, sem disciplina, totalmente apáticos e desatenciosos. O professor que nunca enfrentou esse tipo de problema em seu trabalho pode se considerar um privilegiado. Em escolas públicas ou privadas, não há jeito, há sempre aquela turminha, aquela ou aquele aluno rebelde, barulhento, sem nenhum interesse para com o que se faz na escola.

Pude sentir isso de perto em várias escolas em que ensinei ao longo de meus poucos anos de profissão. A sala de aula às vezes parecia um ambiente de guerra, tamanho o conflito entre este professor, com suas infindáveis lições, e a estudantada, sequiosa de um não-sei-quê. Difícil descrever a sensação. Quem leciona sabe a angústia de que se ressente a pessoa que, em contato com outras, é tratada como se não existisse.  Na verdade é o que acontece nessas situações: o professor está ali, de frente pro aluno, no meio dele, com eles, mas é como se não estivesse.

Não quero pensar com as pedagogias que o fato de alguns alunos não se interessarem pelo ensino na escola tem a ver diretamente com a postura que o professor assume frente à organização de sua didática. Um bom professor sabe muito bem o que pretende quando opta por esse ou aquele caminho de aprendizagem. Há o caso dos profissionais relapsos, sofistas, que fogem à responsabilidade do ensino, mas estes não contam: me interessa o profissional verdadeiro, cheio de sonhos para os seus alunos e a indiferença que se estabelece em sala de aula causada pela incompreensão e pelo desafeto deles, dos alunos.

Quando um estudante não está certo de seus objetivos ao freqüentar uma escola, todas as metodologias são inúteis. Primeiro é preciso que o aluno reconheça seu lugar no processo de ensino e saiba considerar a escola como um espaço em que a aprendizagem é mediada pelo desejo mútuo de ensinar e aprender. Ora, na escola tudo é compartilhado (ou pelo menos deveria ser), principalmente as experiências que fazem alunos e professores sujeitos do universo educativo1.

Tenho visto que nem todos os que se envolvem com a educação são pessoas identificadas verdadeiramente com ela. Como é o caso de muitos profissionais do ensino das diversas áreas do conhecimento. Nossos cursos de formação de professores estão entregando à sociedade um monte de gente que não sabe se quer ou não ensinar de verdade, gente que já ao entrar para o curso pretendia estudar outra coisa, fazer outro curso universitário, mas não teve oportunidade, ou competência para se aventurar noutra área, essas coisas. Gente sem sorte, devo dizer, que só freqüenta a universidade para a obtenção do diploma ou na intenção de arranjar emprego o mais rápido possível. Gente que depois que carrega a ordem burocrática autenticada no canudo não tem a mínima vontade de ensinar. Mas que freqüenta escola, está sempre lá, metida em meio a crianças e adolescentes com os quais não tem o mínimo de identificação.

1-Sugiro mais que os tratados específicos de educação, a leitura de alguns trabalhos de psicologia, principalmente os que versam sobre os arquétipos do mestre-aprendiz.

Professor assim acaba atrapalhando a vida de muitas pessoas: a dele, por não encontrar sentido algum no que faz, e a dos alunos, por torná-los, quase sempre, incapazes de sentir a escola. Conheço muitos profissionais que passam em brancas nuvens na pretensão de ajudar seus alunos. Nunca compreenderam a educação, sequer perguntaram por que ensinam ou para quê ensinam.

Da mesma forma há estudantes que não sabem para que estão estudando, porque na verdade não estudam. São apenas freqüentadores da escola, mas estão lá meio perdidos, (des)entretidos  com um sem-número de coisas fúteis e desinteressantes, para eles sem qualquer sentido. Mas estão, não arredam pé, até descobrirem que a escola é um lugar chato, onde eles perdem muito tempo. Problema: confusão mental, incompreensão do sentido do estudo. Para eles, na escola o sujeito tem a obrigação de aprender, embora se enganem completamente. Jamais foi assim, todos sabemos. A confusão é que a própria escola ensina de maneira arbitrária e inconsciente(?) que um saber transmitido ao aluno corresponde a uma cobrança, um pagamento que lhe cobram inutilmente. Deveriam não cobrar tanto, né? Deveriam dar sem esperar retribuição.

Só que a escola cobra, ela exige muito. Por isso eles cruzam os braços e fazem um sem-número de caretas para os educadores. Para esse tipo de estudante, aprender atrapalha a vida lá fora, a relação com a turma, o mundo da gente, o convívio com tudo. Por que considerar o trabalho de um professor se ele só atrapalha? É assim que eles pensam. É assim que os principais causadores dos desafetos entre professores e alunos na sala de aula vêem a educação da qual (e me interrogo de novo) fazem(?) parte. Como os professores ingênuos que não sabem para quê ensinam, eles não sabem por que estão ali para aprender alguma coisa. Como achar interessante ensinar se eu não sei o que é ensinar? Como gostar de aprender se é tão difícil querer saber? Pontos de interrogação que excluem falsos professores e falsos educandos do processo educativo.

PARTE 2

Sou da opinião de que o tipo de aluno mais problemático sob o aspecto do desinteresse é estudante em idade adolescente. A criança, não. É muito raro o caso de crianças com desinteresse ou apatia para com as coisas que se aprendem na escola. Quando isso acontece, as causas são bem diversas das que se referem ao caso do adolescente. Mas eu não vou explorar essa questão. E os professores concordam que as crianças são muito mais sensíveis à educação que os adolescentes. A criança é dotada de um senso de encantamento para com a aprendizagem. Já os adolescentes, não. O tempo da criança é mágico, tudo se transforma diante de seus olhos: o mundo é um constante renovar-se que ela apreende curiosa e alegremente. Para o adolescente o tempo não desanda, é tudo pra frente, para acompanhar seu “crescimento”, sua, muitas vezes, precoce adultez.

Picasso, gênio-criança da pintura, sentiu a dificuldade do ser humano em repetir a experiência da infância ao longo da vida. Num aforismo de inflamada consciência, certa vez ele disse: “Toda criança é um artista. O problema é: como continuar a ser artista quando adulto?”

O adolescente esquece que é artista; aí está a cortina que o impede de enxergar as coisas como a criança o faz. Os adolescentes querem ver um mundo formado de valores confusos, à imagem e semelhança de seus sonhos confusos e ingênuos. Seguem os comportamentos, as modas, os padrões sociais da tribo, etc, etc. E se afogam num mar de sofrimentos, que só irão reconhecer tarde demais. Uso de minha própria experiência para pensar essas coisas. Quando adolescente, custou-me reconhecer que estava perdido na confusão típica dessa fase da vida.

Claro, você diz, culpa da imagem de mundo que todos fazemos e que os adolescentes herdam, indefesos, a cada geração. Sim, ao longo da vida muitos são os valores inculcados em sua memória-de-criança-artista. É sempre assim: ao poucos seus olhos vão sendo substituídos pelos olhos dos adultos, e os adolescentes (antigas crianças) vão ficando cada vez mais distantes de seu estado de alegria, ternura e amor pelas coisas. Não se pode negar: quanto mais adultos, mais se rendem aos charmes das ideologias, as nossas, muitas delas tolas e mentirosas.

Adolescentes são presas fáceis das ideologias. E por serem fáceis, pensamentos e reações contrários ao estabelecido pelo mundo social não são comuns aos seus olhos desencantados.

O que é a escola para os adolescentes, a grande maioria deles? É o que o adulto pensa, o que a ideologia manda: tradicional alavanca de ascensão social, lugar onde o pequeno se faz grande, onde se aprontam as forças indispensáveis para as batalhas contra o mundo. Lugar onde a luta professor X aluno orienta a dinâmica. Aquele luta para mostrar que sabe, o outro para mostrar que aprendeu o que o outro sabia. Daí se conclui: escola, primeira grande experiência para se testar forças; através dela se descobre que a vida é um eterno teste de forças.

Mas a escola não tem outro fim senão favorecer o encontro entre pessoas inquietas (entendam a palavra!) de descobrir e se descobrirem pela educação. Descobrir como é o mundo, do que a vida é feita, como que se vive, que direção seguir... e compartilhar dessas descobertas sem necessidade de utilizá-las de imediato. O que acontece aos nossos alunos, de fato, é que eles não pensam assim, por isso algum desconforto na sala de aula. Nada surpreende, é tudo um fardo pesado que eles carregam até se esgotarem (e como se esgotam na ilusão da obrigação de saber!).

Nada disso. A educação é gratuita, e se dá livre aos que a querem receber. Um verdadeiro aprendiz experimenta o dar-se da educação de maneira também gratuita, pelo prazer de recebê-la, e certo de que algum bem lhe trará. Pois, ao tempo em que aprende, ele também ensina, dá, contribui com o outro. No fundo, no essencial de si mesmo, ele sabe que ganhou. É a lição que desde os primórdios de nossa história tem se repetido em todas as experiências de aprendizagem.

Acho que aprender acontece quando se tem a certeza de se apanhar os bens do chão onde se jogaram sementes sem esperança de que um dia se fosse colher algum fruto.

Mas a semente da educação sempre frutifica. Joga-se a semente por se acreditar na aposta. Colhe-se sem interesse algum de resposta. Há uma diferença entre aprender desinteressadamente e desinteressar-se por aprender. Em síntese: dar e receber são a mesma face do ensinar e aprender. Se o estudante a enxerga, a aprendizagem torna-se um lago onde o aluno vê seu próprio rosto refletido, magicamente. E quem se encanta com as águas claras de um lago, as coisas nele refletidas, não há de sujá-lo jamais.


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    *Adalberto dos Santos é cajazeirense, ficcionista e cronista


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