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*Adalberto dos Santos escreve aos sábados. Acesse o blogue do autor: Nu com a Minha Musa

» CAJAZEIRAS, PB, 30 DE JULHO DE 2007

Texto leve, música boa

Para mim, o melhor texto é o que mais se parece com música, ou o que está mais próximo dela. Não precisa exatamente ser poesia, pode ser prosa. O poema, não é só ele que tem a primazia da música. Aliás, musicalidade é uma virtude de certos tipos de textos, não se trata de técnica nem de qualquer outra noção atrelada à estrutura de alguns objetos escritos. Um texto com música entra na mente como se as palavras dançassem ao redor da cabeça, como se fossem música calma e gostosa. Você sente as palavras, elas são vivas quando está lendo, como se fossem vento, como se sussurro de brisa perfumada num outono feliz. Não se esqueça disso: palavras são música nos melhores textos.
           
Eu soube lendo os mais diferentes escritores, de Drummond a Dostoiévski, de Sartre a Machado de Assis, de Flaubert a Homero, de Clarice Lispector a Manuel de Barros, de Saramago a James Joyce, de Goethe a Ana Maria Machado e a Rubem Alves. Músicos-escritores esses aí. Um pouco díspares entre si, mas, em certo sentido, iguais na capacidade mágica de fazer do texto um mar cheio de sereias que encantam a gente.
           
Certo que sou afim das visões particulares de alguns, mas não os leio porque pensam isso ou aquilo; leio-os primeiramente pelos fluidos melódicos de algumas de suas histórias, de alguns dos seus poemas, de seus textos mais cadentes, como se canções me enfeitiçassem. A fonte corre ligeira e compassada; alguns textos parecem desarrumados, fora do lugar, mas, no fim, são harmonicamente acabados; todos tiram de letra a ingênua impressão de quem está lendo calado, de que lê em silêncio -; silêncio, que nada, a melodia não deixa quieto o ouvido, e é aí, justamente, onde mais se ouvem as palavras.
           
Graças a um enorme milagre da vida, comecei a ficar seduzido pelas palavras logo cedo. Porque sempre fui muito simpático à música, um dia, por acaso, me peguei surpreso com a musicalidade de alguns textos. Era música mesmo, era como os sons harmonicamente conduzidos que ouvia das canções da infância e das primeiras experiências com as produções dos nossos e de outros artistas igualmente bons. Foi comparando que percebi isso. Por exemplo, lia a ficção policial de um Marcos Rey com mais dificuldade que um conto do Machado de Assis. Mas não era pela extensão do texto; era pelo peso da escrita. Incrível como acontecia: alguns textos pesavam para ler, outros não; tinha os de uma leveza que me tiravam do chão, e aqueles que pareciam apertar todo o corpo, sufocando. Aí me veio esse toque: vou ler e ouvir música com mais atenção.

Lendo e ouvindo música, fiz o teste, e descobri: uma Polanaise de Chopin era como um piano de uns duzentos quilos nas costas, uma sonata de Beethoven, o canto de um passarinho acompanhando o tênue movimento de uma pluma que cai de seu bater de asas; um poema da Cecília Meireles tinha a mesma leveza dos acordes das melhores músicas do Tom Jobim, enquanto Euclides da Cunha me fazia sentir os golpes de foice de um desbravador sertanejo. Eu me sentia cortado, me sentia árvore posta abaixo a cada página de seu famoso livro.
           
Havia descoberto a teoria do texto pesado: das coisas que flutuam no ar, só texto ruim cai na cabeça, matando o leitor. Daí o porquê de algumas pessoas não serem tão bem sucedidas em suas aventuras livrescas. Logo as abandonam, como abandonam de vez seu contato com todo tipo de leitura. Uma coisa era a perfeição de um soneto do Vinicius, que eu queria ler milhares de vezes, em silêncio, e com o silêncio, porque ao lê-lo a música era uma canção que não queria nunca se acabar, era um “eterno enquanto dure”; da mesma forma, a dança das palavras de um romance como Grande Sertão: veredas não pedia licença para entrar na minha cabeça, atravessava olhos e ouvidos feito lagarto que corre no mato sem-fim dos sertões.
           
Depois, tudo ficou fácil: cada vez que ia ler algum texto, perguntava antes se tal texto não me traria aborrecimento, se suportaria seu angustiante desacordo com minha natureza de leitor que busca no texto algo de música, ou, antes, se o texto haveria de me fazer sonhar enquanto o lia, se não haveria de me matar com seus pesadelos.

Aí um dia fui ler o Mário Quintana. Você sabe que o Quintana tem alguns aforismos de lascar, né? Fui ler o poeta gaúcho e confirmei minha tese. Três aforismos que escreveu me fizeram concordar imediatamente com o que dizia. O primeiro é este: “Há duas espécies de livros: uns que os leitores esgotam e outros que esgotam os leitores”. E um outro, mais ou menos assim: “Qual Ioga, qual nada! A melhor ginástica respiratória que existe é a leitura, em voz alta, dos Lusíadas”. O terceiro é a continuação deste último: “Um poema que ao lê-lo nem sentirias que ele já estivesse escrito, mas que fosse brotando, no mesmo instante, do teu próprio coração.” Meu preferido é o primeiro, porque define mais ou menos a teoria do texto pesado. Quando o li a primeira vez, já sabia do que se tratava. Quintana com sua, às vezes, amarga crítica estava mostrando que nem tudo que se lê é maravilhoso, ou seja, alguns textos não provam ao leitor essa condição de que nascem no momento em que a leitura acontece. Ao contrário, enquanto lemos nos esgotam; se não saímos ligeiro de seu encalço podem fazer da possível experiência interessante, algo penoso e  desagradável.
           
Mas há textos que são diferentes; com eles fazemos ginástica respiratória, exercícios mentais e milhares de outras coisas, de tão grandiosos. A experiência é outra: lemos como se uma música leve e suave acompanhasse nossa atitude leitora; à proporção que se vai adiante cada página, cada linha, o prazer se acumula em nós, e de repente somos como se uma coisa só: leitor e texto. Alguém esteve atento a esse fato, uma vez, não lembro quem. Mas é isso: há momentos em que não se sabe quem é quem; pelo menos um verdadeiro leitor já deve ter sentido isso, nem que tenha sido uma única vez na vida.
           
Poderia citar muitos livros dos quais nenhum leitor sai ileso da experiência prazerosa dessas espécies de textos-música. Só que custaria a enumerá-los. A humanidade os tem como os textos ruins que existem.
           
Sem dizer mais, fica a síntese: um texto deve ser leve como música boa, ou então correrá o risco de explodir na mão de quem o lê. É lamentável que isso ocorra, esse acidente triste. Imagine que coisa feia, dois mortos, dois pobres mortos sem que ninguém possa evitar a tragédia: o autor e esta solitária e frágil criatura de papel, chamada leitor.


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    *Adalberto dos Santos é cajazeirense, ficcionista e cronista


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