MENINAS TOMANDO SORVETE
São quatro horas. A tarde está tranqüila e a cidade ferve no calor. Embora a tranqüilidade, desço do carro do amigo e sinto: os olhos estão espantados, os meus; estou inquieto. Durante o trajeto, lia, como entre o mar e o abismo, a imensidão dessas palavras: “A vida, tenho certeza, é feita de poesia. A poesia não é alheia, está logo ali, à espreita. Pode saltar sobre nós a qualquer instante”. (1)
Na tarde tranqüila e de calor a poesia saltou sobre mim. Assim que bati a porta, os olhos acompanharam, aos pulos, um grupo de meninas que caminhava no outro lado da rua; ia passando pela calçada, num só ritmo, um passo após outro, ritmo de pessoas com pressa, ocupadas, preocupadas, que terão muito que fazer nos próximos minutos.
Livros a tira colo, cabelos de vários tipos, são estudantes; estudantes que, reconheço, estão apressadas. Fico admirado ao vê-las assim, com pressa. Mas não sei para aonde irão. Não sei por que tanta pressa. Suas espinhas me dizem que nelas a vida apenas começou, por isso não devem andar assim em meio à multidão atordoada da cidade. Não elas. São criaturinhas apenas, alegres, cheias de vida, bonitas como uma tarde de calor. Meninas na tarde, estudantes, criaturinhas.
Mas me assombro, os olhos impressionados porque elas correm, a mente cheia de perguntas – terão grandes compromissos, urgentes, compromissos adultos, como os meus, elas, as crianças? Sendo assim, não as atrapalhemos.
- Saiam da frente, as meninas passam – digo para mim mesmo.
E eis que as vejo parar à porta de uma sorveteria, no final da rua Padre José Tomaz, em frente a esse novo semáforo colocado para o tráfego entre essa rua e a Avenida Padre Rolim.
Entram na sorveteria, saem, entram de novo, saem, depois entram, saem outra vez e finalmente decidem tomar sorvete. Só então percebo por que elas corriam. A pressa delas era só essa: tomar sorvete. Na rua, como na escola, grupinho para dividir todo o tempo do mundo, até o tempo de tomar sorvete.
Vejo as meninas tomando sorvete. Sorriem. O que me parece? Um quadro, uma cena cotidiana em cores vivas feita por algum pintor malandro que procurando motivos na rua viu as meninas e ficou encantado. Começou a pintá-las. Assim:
Nas mãos da menina de rosa, um sorvete na cor da íris dos olhos, azul; a de vermelho toma sorvete de coco e brigadeiro (branco no marrom ou o contrário?); a outra, a de verde, blusinha com estampa Snoopy, é a mais mulata; seu sorvete: chocolate, para combinar com a pele. E tem a amarelinha, traços orientais, rosto redondinho e a que mais sorri: duas bolas de delícia de abacaxi no copo dela.
Pronto, em instantes o quadro estará feito. Restam os tons dos sorrisos, o cheiro doce que emana do sorvete, os movimentos agora lentos que todas fazem enquanto as vejo.
Distraio-me um instante, e é quando a de blusinha verde com estampa Snoopy me encara, desembaraçada. Eu, de minha parte, disfarço, e finjo que jamais a olhei. Não sei se ela sabe que sou tímido. Se a olhasse, jamais conseguiria fazê-lo por muito tempo. Por isso, dissimulado, baixo a cabeça, abro uma página do livro e começo a ler: “A poesia não é alheia, está logo ali...”
Quando ergo a cabeça sou surpreendido pela de blusinha verde: a um sinal seu, todas as outras me encararam, também desembaraçadas, os olhos em enigma. Aí ficamos assim um longo pedaço: profundos, como se mergulhados dentro de espelhos. Por quanto tempo? Não sei, mas pareceu muito, talvez um tempo maior que o que gastamos tomando um sorvete; algo indefinível, misterioso, mágico...
Devo dizer que antes que esse tempo acabasse, antes que saíssem e o quadro se desfizesse, fiquei desejando eu mesmo ser o pintor dessa cena. Por isso, falei pela segunda vez: pedi à de íris azul para dizer às colegas que em breve estariam num modesto quadro de palavras pintado por mim, este, de nome: Meninas tomando sorvete. Talvez haja ouvido o recado.
Não demorou muito para que se levantassem, pagassem a conta e a um sinal da de blusinha verde, fossem embora. Voltaram para a vida, foram celebrar o próximo passo, este após aquele, dessa vez sem pressa, alegres, despreocupadas. Meninas tomando sorvete...
Lembrarei delas; sua imagem há de permanecer na minha cabeça: sempre dentro desses minutos em que as vi na direção de uma sorveteria. Sempre eternamente livres no exato segundo após saborearem a primeira colher de sorvete, após sorrirem, após me olharem profundamente.
(1) Borges, Jorge Luis Esse ofício do verso, organização de Calin-Andrei Mihailescu. Tradução de José Marcos Macedo. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.
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*Adalberto dos Santos é cajazeirense, ficcionista e cronista
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