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» estA autorA escreve ÀS TERÇAS-FEIRAS


jacquefloripa@gmail.com

» FLORIANÓPOLIS, 1 de juLho DE 2008

AQUARELA


Às vezes tenho ímpetos de raptá-lo da vida atribulada que alega ocupar seus dias, noutras sei que está logo ali e o ignoro solenemente.

Sou uma ambivalência ambulante. Num dia quero repetir as nossas cenas, noutros desejo ardentemente estrear um novo papel.

Quando me perco nas lembranças, alço um vôo imaginário onde nossa "fantasia" vira uma história real: nela nos tornamos uma daquelas famílias típicas de propaganda de margarina, com direito a casa com varanda, cachorro grande de nome Napoleão, o meu, os seus e por que não, os "nossos" filhos preenchendo de vida e alegria a nossa existência.

Felizes são as conversas em torno da mesa de jantar, as broncas nos menores, as eternas orientações aos maiores; você, naquele seu jeito "ariano" de ser, chega cheio de novidades do trabalho; eu, feliz e eterna apaixonada, sempre às voltas com atribulações da dupla jornada: profissional e mãe. No trabalho dizem que sou dedicada, mas é como mãe e mulher no papel principal que arrebato todos os prêmios de melhor atuação.

As feministas que me perdoem, mas penso que nasci para ter "dono" e o escolhi para ser o meu. Não gosto da excessiva liberdade que a solteirice me dá, sinto-me perdida e me faltam as raízes. Não há prazer algum em andar solta por aí, quero o aconchego e o acolhimento do nosso amor.

Por outro lado, quando a lucidez desembota meus delírios românticos e eu definitivamente canso da sua indecisão, surge um lado "b" que me faz acordar para a vida. Aí sou tomada de assalto pelo galope da sagitariana que habita em mim. Gostaria de largar tudo e correr o mundo, viajar para um lugar mais que distante, mudar de vida e de romance.

Urge cavalgar por campos outros em busca do amor que almejo, perder a noção das horas, dos fatos, dos atos. Sei lá... Sumir por aí com a mochila nas costas carregada apenas com sabedoria e mais vontade de aprender. O mundo inteiro a minha espera e você virando passado a cada curva empoeirada do caminho.

Nada de cartas de despedida, vestígios de meu antigo ser! Um sumiço desses deve ser digno do amor que lhe devotei: urgente, grandioso, fenomenal.

No meu íntimo, não posso negar, fico a conjecturar se você sentiria falta de mim caso eu cometesse o "desatino" de voar por aí sem destino e sem retorno.

Eis que surge a danada da saudade, sempre ela a me boicotar as mais loucas vontades.

- Mas saudade de que, meu Deus do céu?!

Quero voar, porém ela vem de mansinho e tenta enfraquecer-me pelas bases. Mania que tenho de remexer no baú das nossas lembranças!

Vago por entre noites insones em busca do seu sorriso, da mão macia a me procurar, do hálito morno a me acariciar a face, do cheiro doce que ficava tatuado em meu corpo nas centenas de vezes que fizemos amor...

Busco entre a maciez dos meus lençóis a intimidade do abraço que me fazia plena, canso da procura inútil e chego a desejar que num lapso inexplicável a memória me ajude a apagá-lo de meus registros mentais; melhor seria que surgisse enfim a coragem para libertar-me dos grilhões do bem que você me fez.

Ocorreu-me ignorar o clamor interno, é tudo mero embaraço para prender-me ao chão. Reflexos de outrora em imagens hoje desconexas tingem meus pensamentos de um cinza-existencial. Falta cor, falta risada, falta tudo e já não nos vejo em nada... Caio em mim.

Amanhã sonho amanhecer renovada e partir numa longa viagem; quem sabe em outra paisagem eu possa finalmente ilustrar o amor que me falta com muitas outras cores, tão mais vivas do que o azul da nossa já esmaecida aquarela.

Quem sabe... Quem sabe...

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*Jacqueline Gershenson (Jacque) é gaúcha, mora em Florianópolis, é bancária com formação em Administração de Empresas.


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