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» FLORIANÓPOLIS, 24 de junho DE 2008

SEPARAÇÃO NO DIVÃ


- Amiga, já não tenho mais dúvidas, meu casamento acabou! Não sei se Rubens arranjou outra... Ou se eu é que preciso urgentemente de um amante! A verdade é que, depois de duas décadas de casados, vivemos como absolutos estranhos. Nossa história perdeu o viço, embolorou feito roupa velha!

- Ah, Marina, você sempre exagerada. - tento minimizar...

- Antes fosse! - Ela diz, resignada, para então prosseguir...

- Rubens está ausente emocionalmente. Rompemos o diálogo para viver num silêncio aterrador. Entramos e saímos de casa nos esgueirando com receio da conversa derradeira; não brigamos mais, da mesma forma que já não nos beijamos na boca (um dos mais claros sinais de que as coisas vão muito mal). Fazer amor virou apenas: sexo! Nada de olhos nos olhos, murmúrios apaixonados. Agora é um esvaziar fisiológico que jamais me preencherá. Há um vazio terminal; a intimidade deixou de existir. Nem quando estamos nus, nos permitimos desnudar; já não nos misturamos, apenas convivemos. Não ousamos encarar o olhar do outro além de dois segundos, mais que isso e a conversa definitiva clamaria a sua urgência. Temos medo do que sentimos. Rubens se enterrou no trabalho, eu nas minhas inúmeras atividades de mãe e profissional. Os filhos já perceberam os sinais do desamor que se instalou entre nós, porém, seguimos todos impassíveis em nossos papéis nesse teatro de mentiras.  Rubens também sofre, mas nada diz. E agora? Será que ainda tem jeito?

O desabafo veio de Marina, uma grande amiga, mas poderia ter sido feito por qualquer uma das mulheres que você conhece.

Diante de tão pungentes sentimentos fiquei sem palavras para dizer qualquer coisa que aliviasse a sua dor e pusesse fim à inércia em que se “atolou”.  Pensei recorrer a lugares-comuns (isso passa, é fase); porém, no fundo já sabia que os sinais eram prenúncio da morte certa de uma relação já esgotada. Ou melhor: morta a relação já estava. Só faltava enterrar...

O desencontro entre duas pessoas nunca surge do nada, inúmeros fatos se constroem silenciosamente nas entrelinhas do que não dissemos ou ruidosamente nas palavras duras que não evitamos. A certa altura, já transbordando dentro de cada um, culminam no ato derradeiro. E esse ato sempre nos parece demasiado torpe para justificar a separação, embora não raro se torne o gatilho das decisões que se impõe.

Traduzir a dor em palavras não é a parte mais difícil, a complicação surge na hora em que expostas nossas mazelas não sabemos como lidar com elas. São inúmeros os cadáveres a serem retirados do armário e num desfile cruel de vacilos e enganos nos fazem repensar a vida construída até aquele ponto. De um momento para outro, certezas arraigadas viram dúvidas profundas.

Marina me fez recordar Mercedes: casada, professora, quarenta e poucos anos, dois filhos, Mercedes é a personagem principal do livro Divãs, da sábia cronista e poeta gaúcha Martha Medeiros.

A delicadeza com que Martha constrói Mercedes é tocante e envolvente. Ao longo da trama criada pela autora, Mercedes, que também vive uma crise amorosa existencial, resolve fazer análise, e a cada sessão no analista, desmembra-se não em uma, mas em várias mulheres (como somos todas também). Faz uma retrospectiva apaixonada de toda a sua vida, cativando-nos numa viagem interior deliciosa, lúcida e esclarecedora. Conhecer Mercedes e suas indagações é entrar em contato com nosso âmago de forma profunda e libertadora. Poucas mulheres têm coragem de se expor como a Mercedes de Martha.

Capítulo a capítulo, a autora desnuda a sua personagem num denso mergulho interior. Em cada aspecto da vida de Mercedes encontramos um pouco das nossas alegrias e tristezas, dos nossos erros e acertos. A personagem se desconstrói em busca da sua verdade. Surpreende-se diante das vicissitudes da vida, questiona-se intensamente. Comete grandes erros, mas é protagonista de majestosos acertos. Mercedes vira-se do avesso sem o menor pudor e não teme suas fragilidades: é mulher; é forte e frágil; é única e múltipla; é jóia rara e absolutamente comum, ordinária.

Somos todas Mercedes, e Mercedes é cada uma de nós!

Ao escutar o desabafo de Marina, lembro uma das lições que Mercedes aprendeu em sua caminhada interior: nunca estaremos prontas, precisamos é aprender a conviver bem com nosso desalinho e com nossa inconstância.

Em nossa ânsia de solução, queremos respostas fáceis, conselhos certeiros, receitas milagrosas.         

Ao depararmos com o vazio de uma relação, é necessário ousar um destemido mergulho interior. Lá não encontraremos claramente as evidências que avidamente buscamos, mas na escuridão de cada dúvida serão revelados os caminhos certos ou equivocados do nosso amanhã. No desvão das incertezas é que vislumbramos a incrível teia de possibilidades de que é feito ou desfeito um relacionamento.

À Marina cabe o colo e ouvido amigos e o desejo sincero de que encontre, em meio a esse caos, o rumo mais condizente com suas aspirações de vida (estas sim devem ser claras). Com ou sem Rubens será preciso seguir em frente.

Não somos produto acabado, mas seres em eterna construção. Um puxadinho aqui, um arremate ali, uma derrubada acolá. De tempos em tempos uma parada estratégica para analisar a perspectiva que se desenha logo adiante; e do resultado, nos orgulharemos (ou não) da história que construímos ao lado de quem amamos.

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*Jacqueline Gershenson (Jacque) é gaúcha, mora em Florianópolis, é bancária com formação em Administração de Empresas.


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